I=0: o amor e o sexo entre um casal lésbico sorodiferente

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Antes de conhecer Daiane, Ingrid decidiu procurar terapia. Foi um momento crucial em sua vida, em que ela buscava entender seu comportamento e os ciclos repetitivos que vivia. Através desse processo terapêutico, ela compreendeu que precisava fazer escolhas conscientes e deliberadas para transformar sua vida. Ela descreveu minuciosamente a pessoa com quem gostaria de se relacionar, listando todas as qualidades desejadas e confiou na lei da atração para manifestar esse desejo.

No meio da pandemia, o destino interveio de maneira inusitada. Ingrid e Daiane se encontraram em um aplicativo de relacionamento. Para Ingrid, era essencial que seu perfil refletisse exatamente quem ela era, para afastar curiosos e evitar relacionamentos tóxicos. Seu perfil mencionava sua profissão de psicóloga, seu ativismo e enfatizava a importância da terapia.

Quando Ingrid e Daiane começaram a conversar, Ingrid não hesitou em ser transparente sobre sua condição de saúde. Ela revelou ser uma pessoa vivendo com HIV, ativista e militante dos direitos humanos relacionados ao HIV/aids. A reação de Daiane foi surpreendente e desarmante. Sem qualquer julgamento ou preconceito, ela simplesmente perguntou: “O que é isso?”. Daiane não sabia o que era HIV e demonstrou uma curiosidade genuína em entender mais.

Ingrid, então, explicou o que era o HIV, seu tratamento, e como ela se cuidava para manter-se saudável e indetectável. Essa troca de informações permitiu que Daiane conhecesse mais sobre o universo de Ingrid sem preconceitos ou barreiras. Ingrid acredita firmemente que a aceitação de si mesma é fundamental para que o mundo a aceite da mesma forma. “Viver com HIV não interfere na minha vida diária, pois eu sigo meu tratamento, vou ao médico duas vezes por ano e realizo meus exames de rotina”, explica.

Daiane recebeu a informação sobre a sorologia para HIV de Ingrid com uma postura de curiosidade e busca por conhecimento. Ao ser informada pela companheira sobre sua condição de saúde, Daiane sentiu a necessidade de se informar melhor sobre o HIV, um universo até então desconhecido para ela. Esse processo de entendimento a levou ao consultório de seu ginecologista, onde recebeu esclarecimentos valiosos. Seu médico explicou que viver com HIV, quando bem controlado, é comparável a viver com diabetes. É um tratamento contínuo que afeta apenas a pessoa que possui a condição. Daiane compreendeu que, desde que Ingrid se cuidasse adequadamente, não haveria impacto significativo em sua vida. Esse esclarecimento trouxe tranquilidade e dissipou qualquer medo ou preconceito que pudesse existir.

Indetectável é igual a zero

A infectologista Maria Felipe Medeiros, médica do PS do Hospital Emílio Ribas e atuante em Saúde LGBTQIAPN+ com foco em pessoas trans e travestis, enfatiza que as relações entre pessoas sorodiferentes em que uma pessoa tem carga viral indetectável para o HIV são 100% seguras, com 0 chance de transmissão do vírus de uma parceira para outra. Ela conta que o conceito de i=0, isto é, indetectável igual a intransmissível, surgiu após diversos estudos científicos que ocorreram entre 2005 e 2018, nos quais foram analisados milhares de casais sorodiferentes e em nenhum deles houve transmissão do HIV. Entre as pesquisas, cita a HPT-N052, Partner 1 e 2 e Opposites Attract.

“Através de uma revisão da revista científica Lancet de 2023, a gente confirmou que carga viral abaixo de 200 cópias de HIV é igual a zero transmissão. Então, indetectável é igual a zero transmissão. Soube-se também que pessoas que vivem com HIV com uma contagem de carga viral abaixo de mil cópias a chance é ínfima. Por isso, o tratamento antiretroviral é o método de prevenção 100% eficaz em prevenir a transmissão do HIV na via sexual”, afirma a médica.

No dia a dia, Daiane e Ingrid mantêm uma vida normal. Daiane nunca viu a sorologia de Ingrid como um problema ou tabu, e a relação entre elas continua fluindo com leveza e amor. “O conselho que eu daria para outros casais sorodiferentes é: vá viver o amor, seja feliz, seja leve. Se seu parceiro se cuida, está tudo certo. Eu acho muito mais arriscado você sair à noite para uma balada, fazer sexo desprevenido com qualquer pessoa que você não conheça, do que realmente estar com alguém que vive co HIV e se cuida. Nas noitadas paulistanas, no mundo afora, quantas pessoas não cruzam os nossos caminhos e a gente nem sabe se vive com HIV e se se cuida”, afirma Daiane.

Ela ainda aconselha todos a deixarem de lado preconceitos e tabus relacionados ao HIV/aids. Para ela, seria impensável deixar de viver um grande amor devido a um preconceito. Daiane conclui com uma mensagem poderosa: “Existe jeito para tudo. Eu aconselho a todos viverem o amor e ser feliz.”

A história de Ingrid e Daiane é um testemunho de autoconfiança, aceitação e a importância de ser verdadeiro consigo mesmo e com os outros. Ingrid encontrou em Daiane exatamente a pessoa que havia descrito e desejado, comprovando para si mesma que o amor e a compreensão verdadeira são possíveis quando se é honesto sobre quem realmente se é.

Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)

 

Dica de entrevista:

Ingrid Caroline

E-mail: ingridcaroline95@outlook.com

Maria Felipe Medeiros

Instagram: @mafeinfectologista

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