
Cristã praticante, Michele Almeida vive com HIV há quase 10 anos. Sua sorologia nunca foi impeditivo para que realize seus objetivos e desfrute de cada uma de suas versões. Ela é mãe, avó, esposa e uma profissional da área de Gestão de Recursos Humanos (RH), entre outros papéis que desempenha com excelência.
Paulista de nascimento, ela mora em Santa Catarina há 15 anos. A mudança de Estado ocorreu após perder um de seus filhos, como uma forma de ressignificar esse triste capítulo de sua história. “Eu fui criada por mãe solo, tantas coisas eu tive que vencer, o HIV é só a cerejinha do bolo. No começo da descoberta do diagnóstico foi difícil, mas a perda do meu filho foi muito mais difícil de superar’’, afirma.
Michele já era casada com Valdinei Vieira quando descobriu sua infecção por HIV após uma sequência de exames feitos para entender a causa de manchas e feridas em suas regiões íntimas. Inicialmente, sentiu vergonha e hesitação em revelar a verdade ao seu marido, temendo não apenas o estigma associado à doença, mas também a possibilidade de ter transmitido o vírus a ele. No entanto, sua apreensão foi rapidamente dissipada pela reação surpreendentemente positiva de seu marido. “Ele foi a primeira pessoa a saber do diagnóstico e me deu todo o apoio necessário, esteve sempre ao meu lado”, conta.

No início, o casal optou por que ele usasse a PrEP, mas como Michele já era indetectável tomaram a decisão de suspender este método de prevenção já que não era necessário. Segundo a infectologista Maria Felipe Medeiros, médica do PS do Hospital Emílio Ribas e atuante em Saúde LGBTQIAPN+ com foco em pessoas trans e travestis, as relações entre pessoas sorodiferentes em que uma pessoa tem carga viral indetectável para o HIV são 100% seguras, com zero chance de transmissão do vírus de uma parceira para outra. Ela conta que o conceito de i=0, isto é, indetectável igual a intransmissível, surgiu após diversos estudos científicos que ocorreram entre 2005 e 2018, nos quais foram analisados milhares de casais sorodiferentes e em nenhum deles houve transmissão do HIV. Entre as pesquisas, cita a HPT-N052, Partner 1 e 2 e Opposites Attract. “Através de uma revisão da revista científica Lancet de 2023, a gente confirmou que carga viral abaixo de 200 cópias de HIV é igual a zero transmissão. Então, indetectável é igual a zero transmissão. Soube-se também que pessoas que vivem com HIV com uma contagem de carga viral abaixo de mil cópias a chance é ínfima. Por isso, o tratamento antiretroviral é o método de prevenção 100% eficaz em prevenir a transmissão do HIV na via sexual”, afirma a médica.
Valdinei conta que Michele contou a ele sobre sua sorologia positiva chorando, pois temia que ele terminasse o relacionamento com ela. “Mas eu recebi a notícia naturalmente, como se fosse um vírus qualquer”, relembra. De fato, o diagnóstico uniu ainda mais o casal. E ele aconselha: “não desistam um do outro, apeguem-se a Deus e vivam intensamente”.

Após receber o acolhimento de seu marido e família, Michele teve medo de sofrer preconceitos no trabalho, mas foi acolhida dentro da empresa. Em relação à Igreja que frequenta, conta: “abri meu diagnóstico numa reunião com mais de 1500 pessoas. Existe um peso muito grande em ser cristã e falar que vive com HIV, mas eu não sofri nenhum tipo de preconceito na minha igreja, meus lideres me acolheram, me ajudaram e me apoiaram. Depois disso, outras muitas mulheres, também cristãs, vieram até mim contar que vivem com HIV”, complementou.
“Eu falo abertamente sobre isso, porque acredito que quanto mais a gente dissemina informações, mais a gente acaba com os preconceitos, principalmente carregando a bandeira de ser uma mulher cristã”, finalizou.
A história de amor entre Michele e Valdinei não só ressalta a importância do apoio familiar em momentos difíceis, mas também desafia os preconceitos frequentemente associados ao HIV, demonstrando que o amor e a compreensão podem prevalecer sobre o medo e o estigma.
Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista:
Michele Almeida – https://www.instagram.com/almeida_michele/
Maria Felipe Medeiros – https://www.instagram.com/mafeinfectologista/



