14/03/2007 – 14h00
Todos os homossexuais vítimas de agressões homofóbicas devem processar o papa Bento XVI. A sugestão é de Marcelo Cerqueira, vice-presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB). A proposta é uma resposta a um documento, divulgado na terça-feira (13/03), no qual o pontífice reiterou a contrariedade da Igreja Católica em relação à parceria civil entre homossexuais (o também chamado casamento gay).
De acordo com o líder cristão, que ainda condenou o aborto e a eutanásia, os valores familiares devem ser “construídos por meio da união entre homens e mulheres.” Segundo Marcelo Cerqueira, esse tipo de mensagem ajuda na “propagação do ódio”. Ele sugere que os homossexuais vítimas de violência, motivadas pela homofobia, devem processar criminalmente o papa porque ele seria “o mentor intelectual do preconceito e da homofobia”.
Além disso, ele avalia que, em algumas situações, indivíduos infectados pelo vírus da Aids também façam o mesmo, pois o Vaticano sempre se coloca contra a utilização de preservativos nas relações sexuais: o método mais segura de proteger-se contra o HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis.
“Eu acho que não é novidade. Eu não tenho boa vontade com esse papa. E não espero que ele tenha um comportamento simpático em relação aos homossexuais. Ele vem de uma tradição inquisitorial. Sou contra a vinda dele. Não é uma pessoa bem-vinda”, avisa Marcelo Cerqueira, vice-presidente do GGB. Ele ressalta, porém, que “esse é um paradoxo enorme”, pois, “nas paróquias e comunidades de base, os padres são absolutamente tolerantes.”
Cerqueira classifica a postura do papa como “equivocada” e “tão absurdas que nem parecem verdadeiras”. “Parece que ele ainda vive na Idade Média”, completa. O baiano avisa que, durante a visita do papa ao Brasil (que acontecerá em maio), o grupo do qual ele faz parte fará um “protesto crítico e com muito humor”.
“Eu avalio que pessoas que fazem esse tipo de crítica, geralmente, são homossexuais mal-resolvidos”, explica Léo Mendes, secretário de comunicação da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros (ABGLT).
Além disso, acrescenta o ativista goiano, “a posição do papa não reflete a visão da grande maioria dos integrantes da Igreja.” De acordo com Léo Mendes, os homossexuais seriam bem aceitos pela maioria dos clérigos ligados a Igreja Católica.
“A visão dele [do papa Bento XVI] demonstra o conservadorismo dele em relação aos direitos humanos”, avalia Mendes. “É uma hipocrisia colocar o casamento como algo a serviço apenas da reprodução sexual. Como fica a família formada por pai e filho, avó e neto”, indaga, exemplificando a sua tese.
Para José Araújo, diretor da AFXB (Centro de Convivência para Crianças que vivem com HIV/AIDS em São Paulo), a “decisão do Fórum de fazer um manifesto foi correta” (saiba mais).
Na avaliação do ativista, a Igreja estaria na “contramão” da história. Ele ressalta, contudo, que o trabalho de assistência promovido pelos clérigos católicos é “muito bonito”, mas, na área de prevenção os mesmos religiosos deixariam a desejar.
Assim como os demais ativistas ouvidos pela Agência de Notícias da Aids, ele avalia que, dentro da instituição sacra, há “pessoas de boa vontade”, mas que teriam sua atuação limitada. “Se passar desse limite, eles são decapitados”, acusa.
José Araújo cita o exemplo de Leonardo Boff, teólogo brasileiro que foi punido pela Congregação para a Doutrina da Fé, na época comandada pelo Cardeal Joseph Ratzinger (hoje papa Bento XVI), por defender a Teologia da Libertação (uma leitura marxista do evangelho).
Léo Nogueira



