Durante o Outubro Rosa, campanhas de conscientização ainda deixam de fora uma parte importante da população: os homens trans. Mesmo após a cirurgia de retirada das mamas, o risco de desenvolver câncer de mama continua existindo, e o acompanhamento médico segue sendo essencial.
É o que explica a ginecologista e mastologista Dra. Ariane de Castro Coelho, que atua no Centro de Referência em IST/Aids de São Paulo e no atendimento à população trans. Para ela, o desafio está em unir informação, acolhimento e representatividade para que todas as pessoas com mamas sejam lembradas.

Dra. Ariane de Castro Coelho
O risco continua, mesmo após a cirurgia
A médica destaca que a prevenção deve ser universal e guiada pela anatomia, não pela identidade de gênero. “O risco existe, mesmo após a retirada das mamas. O câncer de mama não escolhe identidade”, lembra.
Segundo estudos publicados no Journal of Breast Imaging e no National Center for Biotechnology Information (NCBI), o risco de câncer de mama após a mastectomia diminui em cerca de 90% a 95%, já que a cirurgia remove a maior parte do tecido mamário onde o tumor poderia surgir. Ainda assim, o risco não desaparece completamente, pois parte desse tecido costuma permanecer — e, em casos raros, pode desenvolver câncer.
Segundo ela, pessoas transmasculinas que ainda não passaram pela cirurgia devem seguir as mesmas diretrizes de rastreamento indicadas para mulheres cis, como a mamografia e o exame clínico das mamas. Já quem realizou a mastectomia deve manter acompanhamento regular.
“Após a retirada das mamas, a mamografia pode não ser aplicável, mas o exame físico continua fundamental. Se necessário, podem ser solicitados exames como ultrassonografia ou ressonância magnética”, explica.
A invisibilidade que adia diagnósticos
Campanhas e materiais informativos voltados apenas para mulheres cis reforçam a exclusão dos homens trans e dificultam a detecção precoce.
“As campanhas, em geral, priorizam apenas mulheres cis, esquecendo que homens trans também possuem mamas e precisam de rastreamento”, afirma a mastologista.
Ela ressalta que o medo, o estigma e a falta de preparo dos profissionais de saúde contribuem para que muitos evitem procurar atendimento:
“O medo de passar por consultas que envolvem partes do corpo associadas ao sexo feminino pode adiar o diagnóstico. É fundamental adaptar a linguagem e as imagens das campanhas para que homens trans se sintam acolhidos.”
Risco semelhante e fatores de atenção
A médica explica que o risco de câncer de mama entre homens trans que ainda não fizeram cirurgia é o mesmo das mulheres cis.
“Os fatores de risco são semelhantes: idade, fatores genéticos e histórico familiar”, lista.
O uso de hormônios também merece atenção especial:
“O risco pode aumentar se houver aromatização excessiva da testosterona em estrogênio — conversão que ocorre pela ação da enzima aromatase, especialmente em pessoas com sobrepeso ou obesidade.”

Barreiras e o papel dos profissionais de saúde
A falta de protocolos específicos no SUS e a escassa capacitação das equipes ainda são grandes obstáculos, segundo a profissional:
“Entre as principais barreiras estão a baixa capacitação dos profissionais, o estigma, a discriminação e as dificuldades relacionadas ao registro de gênero nos prontuários.”
Para garantir um atendimento digno e seguro, a médica defende uma mudança de postura nos serviços:
“O gênero não define o risco — o rastreamento deve ser guiado pela anatomia e pelo risco clínico, não apenas pelo sexo registrado no prontuário.”
Ela recomenda atitudes simples que fazem diferença:
“Perguntar se a pessoa já realizou ou não a cirurgia de retirada das mamas; usar o nome social e os pronomes corretos; garantir sigilo e privacidade; permitir que o paciente escolha o profissional que fará exames íntimos; e capacitar toda a equipe.”
Para a doutora, campanhas e materiais visuais também devem ser atualizados:
“Exibir cartazes e mensagens inclusivas, com representações de pessoas trans, ajuda a mostrar que o Outubro Rosa é para todas as pessoas com mamas.”
Autocuidado e acolhimento
O autoexame segue sendo uma ferramenta importante que pode ser adaptada à realidade de cada pessoa.
“O autoexame pode e deve ser feito por qualquer pessoa, cis ou trans. O importante é estar atento a alterações nas mamas ou no tórax, como caroços, mudanças na textura da pele ou retrações.”
Mesmo após a cirurgia, qualquer alteração no tórax ou na cicatriz deve ser avaliada.
“Pode restar tecido mamário. Qualquer caroço ou endurecimento sob a pele deve ser examinado por um profissional.”
Um Outubro Rosa mais inclusivo

Para que a campanha seja realmente de todos, a médica defende representatividade e escuta.
“Faltam campanhas com linguagem direcionada e representatividade de homens trans, além de acolhimento e capacitação dos profissionais de saúde.”
No encerramento, ela deixa uma mensagem de cuidado e coragem:
“Homens trans também têm direito ao cuidado integral. O câncer de mama não escolhe identidade. Procure um serviço que respeite seu nome, seu corpo e sua história. Seu corpo merece cuidado e respeito — cuidar de si mesmo é um ato de coragem.”
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
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