
Nesta semana, a Faculdade de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (USP) foi palco de um evento promovido pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Aids (Nepaids). O encontro, em homenagem ao ativista e professor Jorge Beloqui, aconteceu em alusão ao Dezembro Vermelho, mês de luta contra a aids.
Jorge Beloqui foi uma figura emblemática na luta contra o HIV e na trajetória do Nepaids, foi um dos fundadores do núcleo. No encontro, ele foi lembrado por suas contribuições significativas para a pesquisa e conscientização sobre a aids, e também por seu comprometimento com a sociedade civil no enfrentamento da discriminação contra as pessoas vivendo com HIV/aids, e na democratização do conhecimento científico.
A defesa de Beloqui pelo direito à saúde marcou gerações e segue inspirando os que ficaram para continuar a resposta à epidemia pelos próximos anos.
David Pires, que está à frente da chefia do Departamento de Matemática da USP, abriu o encontro. “Esse encontro é bastante importante, principalmente pela homenagem ao nosso estimado professor Jorge que nos deixou este ano. Aqui, ele era o Beloqui […] é importante a gente não só homenageá-lo, mas continuar o trabalho que ele com tanto esmero prestou para a nossa sociedade como um todo”, falou.
Vera Paiva, professora do Instituto de Psicologia da USP há quase 40 anos, e parceira de trabalho de Jorge Beloqui na fundação do Nepaids, compartilhou: “Juntos nós produzimos o sucesso da resposta à aids brasileira.”

“Naquele momento, começamos [o Nepaids] junto com as pessoas vivendo com HIV e as pessoas afetadas que estavam em organizações da sociedade civil, com os governos que conseguiam escutar e responder às demandas e com um conjunto de acadêmicos que começou a desbravar e pensar sobre a boa resposta à epidemia. Isto antes mesmo de o direito à saúde estar consolidado no Sistema Único de Saúde (SUS)[…] e o Jorge foi fundamental como alguém que tornava o saber acadêmico e científico dele como algo acessível para nos ajudar a pensar [avanços]. Ele representava a resiliência da resposta à aids.”
Em seguida, foi apresentado um vídeo homenagem ao Beloqui. onde aparece o ativista há pouco mais de dez anos falando sobre as expectativas para o início da quarta década da epidemia que estava se aproximando.
Ivone de Paula, gerente de prevenção do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo, falou como o estado de São Paulo tem se articulado até aqui para o sucesso das ações planejadas, usando apontamentos do Jorge como ponto de partida para análises mais abrangentes e integradas.
Segundo Ivone, a diversidade de estratégias de prevenção tem sido fundamental para atingir diferentes públicos e necessidades. “Nunca houve tantas possibilidades de prevenção”, celebrou.

“A PrEP é para aquelas pessoas que o preservativo não cabe na sua vida como prevenção […] mas isso é bacana porque a gente consegue ter possibilidades. Se formos olhar esses quarenta anos, estamos num período bastante fértil.”
A gestora mencionou ainda que o estado de São Paulo será certificado pela eliminação da Transmissão Vertical do HIV e selo bronze como gratificação pelas ações de prevenção à sífilis. “A Redução de Danos foi esquecida e proibida por muito tempo, mas precisamos que ela volte à cena. Há muitos desafios, pois falar de prevenção é falar de rede de serviços de articulação com outras secretarias, com a sociedade civil, etc.
A conversa seguiu com exploração de soluções possíveis e busca por inovações sustentáveis, inspiradas pelo legado de Jorge Beloqui.
Fabíola Lopes ressaltou a importância do diálogo entre diferentes setores e compartilhou insights sobre a necessidade de ampliar a visão para enfrentar os desafios presentes.
A psicóloga do programa estadual e coordenadora do Comitê Estadual de Saúde Integral da População LGBT+ da Secretaria de Saúde, se atentou a abordar zero discriminação e os determinantes sociais de adoecimento das pessoas em contextos de vulnerabilidade.
“O risco logo no início da epidemia trazia junto consigo a responsabilização e culpabilização das pessoas pelo o fato de se infectarem, trabalha-se o conceito de grupo de risco, mas com a evolução da epidemia, estabelecemos o conceito de vulnerabilidade
“Existe uma gama de fatores que podem influenciar na questão de alguém estar mais ou menos vulnerável à infecção pelo HIV.”
As crenças e “valores” individuais, sociais e programáticas também foram mensuradas como aspectos que “impactam significativamente” quando se trata de HIV/aids.
Racismo estrutural
A psicóloga chamou atenção para os impactos devastadores do racismo estrutural, que cria uma hierarquização de oportunidades e acesso a serviços.

O adoecimento da população preta foi pontuado por ela como “um marcador que não apenas precisamos olhar, mas criar estratégias de enfrentamento.”
População trans
Na sequência, Fabíola mensurou os desafios específicos da população de travestis e transsexuais. A “psicóloga” rememorou que esta população lidera os índices de infecção, mas ao mesmo tempo, segue desassistida.
Ela com bastante ênfase falou sobre o desrespeito ao nome social dentro dos serviços de promoção à saúde.
“Essa é a maior barreira de acesso da população trans. Se alguém entrar num ambiente de saúde que não respeita o básico, seu nome, não vai voltar […] assim perdemos a chance de ofertar todas as outras estratégias [de saúde].”
O debate sobre a saúde da população trans brasileira seguiu. A médica Naila Janilde, do CRT DST/Aids de São Paulo, acrescentou que pessoas trans têm sofrido desproporcionalmente os impactos do HIV, com 49 vezes mais chance de se infectar pelo vírus. O dado é de estudo feito pelo Programa das Nações Unidas Sobre HIV/Aids (Unaids).

A especialista se atentou a reforçar uma abordagem respeitosa e cautelosa por parte dos profissionais de saúde.
“Nem todo serviço tem esse cuidado e há também quem faça por descuido ou porque o nome que está no prontuário não é o correto.”
“Precisamos discutir as possibilidades de prevenção e prerrogativa dos métodos que se prefere usar.”
A doutora disse que o manejo clínico, tem que oportunizar exames para as diferentes Infecções Sexualmente Transmissíveis, pois “talvez a pessoa não volte mais ao serviço.”
Além disso, defendeu a PrEP como caminho para minimizar o risco de infecção e garantir uma abordagem eficaz e personalizada para as necessidades individuais.
O sanitarista dr. Artur Kalichman, do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (DATHI), trouxe à memória o legado de Jorge Beloqui como “inspiração” para os avanços que precisamos.
“No Brasil temos uma grande diversidade colocada e com ela muitos desafios”, falou.

Neste primeiro ano foi de reconstruir e recolocar [em pauta] várias questões, no sentido de ter projeto. Já conseguimos executar várias coisas, mas pelos próximos três anos temos desafios muito grandes.”
As metas 95-95-95 colocadas pela Unaids para “diagnóstico, tratamento e supressão viral”, segundo Kalichman, têm sido a prioridade da gestão federal como “indicadores-chave para o controle efetivo da epidemia”.
De acordo com o responsável, esforços têm sido intensificados, por meio do CIEDS, para o alcance das metas.
Para ele, a invisibilização da sexualidade nos últimos anos, ocasionou barreiras adicionais no enfrentamento ao HIV.
“A pauta conservadora ao interditar as discussões na verdade vulnerabilizam mais as pessoas, principalmente os mais jovens, menos preparados para as questões sobre HIV/aids.”
Veriano Terto, da Abia, se concentrou em abordar o que aprendemos até aqui com a epidemia de HIV e a partir deste aprendizado influenciar nas que estão por vir.

Veriano frisou que antes de tudo, precisamos repensar a maneira como entendemos e contamos a história.
“No ocidente temos a tendência de pensar que a história de uma maneira muito evolutiva, num movimento de superação […] é como se a aids foi superada, a sífilis foi superada, a covid já perdeu sua força…”
Para ele, essa é uma visão de mundo do ocidente que não reconheço a complexidade e as inter-relações entre as diferentes pandemias e desafios globais.
Nesse sentido, essa mesma visão de mundo é limitadora e dificulta a compreensão dos fatores que perpetuam a epidemia de HIV.
“O que aprendemos com a sífilis é que não adianta falar em tratamento se não há acesso; aprendemos com a aids que sem enfrentar as regras de comércio e regulação de propriedade intelectual, nunca vamos avançar para enfrentar outras pandemias.”
A fala de Veriano destacou a necessidade de integração e fortalecimento da resposta nacional ao HIV/aids.
Juan Carlos Raxach, da Abia, na mesma linha de raciocínio, enfatizou: “A epidemia de HIV é a epidemia do ainda.”
“O Brasil foi um exemplo mundial, mas ainda precisamos de muito.”
Ele foi categórico ao falar que sem combate à discriminação, continuaremos estagnados.

“Se ainda não temos serviços amigáveis que propiciem acesso facilitado a tudo que temos e fazer prevenção, porque é melhor prevenir do que tratar, vamos continuar neste ainda por muito tempo.”
Segundo ele, é preciso vontade política, com gestores que ampliem a forma de enxergar e enfrentar a epidemia de HIV/aids.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Endereço: Av. Prof. Mello Moraes, 1721, Bloco A
Cidade Universitária, São Paulo, SP – CEP: 05508-030
Telefone: 55 11-3091-4362 | Fax: 55 11-3091-4460 | nepaids@usp.br


