Homenagem a delegados mortos no voo MH 17, desfile de mulheres positivas e protestos marcam abertura da 20ª Conferência Internacional de Aids

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20/07/2014 – 14h

A cerimônia de abertura da 20ª Conferência Internacional de Aids começou com um minuto de silêncio em homenagem aos seis delegados mortos no acidente aéreo na Ucrânia. Françoise Barré-Sinoussi, presidente da Conferência e da Sociedade Iinternacional de Aids (IAS, na sigla em inglês) chamou ao palco representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Aids Fond, da Female Health Company, do Instituto para Saúde e Desenvolvimento Global de Amsterdã e integrantes da comunidade holandesa, a que pertenciam os delegados. Ela disse que o silêncio era a forma de “expressar nossa tristeza, nossa raiva e nossa solidariedade". Os cerca de 12 mil participantes presentes no evento se levantaram.

Numa coletiva nessa sexta-feira (19), Françoise Barré-Sinoussi disse que a conferência se realizaria para cumprir um desejo dos delegados que morreram a caminho dela. “Nossos colegas que se foram eram pessoas que viveram e trabalharam pela causa e eles gostariam, sim, que o evento acontecesse da forma planejada.” Assim tem sido.

O Programa Científico da 20ª Conferência Internacional de Aids vai discutir, nos próximos cinco dias, os principais temas relacionados à doença, como: vacinas preventivas, profilaxia pré-exposição (PrEp), tratamento como prevenção, circuncisão masculina, co-infecção HIV e tuberculose e HIV e hepatite C, microbicidas e o impacto das leis que criminalizam as pessoas vivendo com HIV. Também está em pauta a prática sexual entre pessoas do mesmo sexo, num momento em que a OMS recomenda aos homens que fazem com homens (HSH) o uso de retrovirais para se protegerem.

Segundo a presidente da IAS, ainda há muito trabalho a ser realizado na luta contra aids, mas os esforços em aumentar o acesso aos antirretrovirais transformaram o diagnóstico do HIV de sentença de morte em doença crônica tratável. "Um terço das pessoas que vivem com HIV e precisam de tratamento têm, agora, o acesso a ele”, disse Françoise Barré-Sinoussi.

O diretor executivo do Programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), Michel Sidibé, fez um discurso otimista em relação aos avanços alcançados na luta contra aids, desde a última Conferencia Mundial, realizada em 2012 em Washington (USA).

Para Sidibé, se for mantido o aumento do acesso aos serviços de HIV e ao tratamento até 2020, o mundo estará no caminho certo para acabar com a epidemia em 2030. “Em 2013, incluímos cerca de 2,3 milhões no tratamento antirretroviral.  O Unaids estima que há, no momento, cerca de 14 milhões de portadores do HIV com acesso aos medicamentos que salvam vidas.”

Para controlar a epidemia até 2030, o diretor do Unaids afirmou que é preciso novos desafios, além do uso de todas as armas disponíveis. “Nossa meta agora é ter 90% das pessoas testadas, 90% de portadores em terapia antirretroviral e 90% com carga viral indetectável.”

Sidibé chamou atenção ainda sobre o aumento de novos casos em 15 países, que, segundo ele, concentram 75% das novas infecções de HIV. Para ele, “é preciso destinar recursos para os locais com grande crescimento da epidemia”.

Aids na Austrália

A Austrália é o país com a menor taxa de infecção no mundo, segundo Sharon Lewin, coordenadora local da 20ª Conferência Internacional de Aids. Recentemente, adotou a ambiciosa meta de eliminar todas as novas transmissões do HIV até 2020. De acordo com Sharon Lewin, uma das chaves para o sucesso da resposta australiana foi a inclusão de populações-chaves na resposta à pandemia, um programa de prevenção técnico científico independente da corrente política que estava no governo.
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Porém o país está em uma das regiões mais afetadas pela epidemia, a Ásia e Pacífico, que, juntas, apresentam a maior área territorial e populacional do planeta e, como consequência, possuem maior prevalência da infecção pelo HIV. “Por isso, a realização da 20ª Conferência na Austrália é tão importante”, disse a coordenadora local do evento.

Aids e mulheres

Um desfile feito por cerca de 20 mulheres vivendo com HIV da região da Ásia e do Pacífico foi um dos pontos altos da cerimônia de abertura. Elas subiram ao palco com vestimentas típicas de suas culturas enquanto a ativista Ayu Oktariani, da Rede de Mulheres Positivas da Indonésia, pediu respeito e dignidade a todas as mulheres que vivem com HIV em sua região e no mundo.

“Contraí o HIV há cinco anos e posso afirmar que isso ocorreu pela falta de informação. Não tinha onde buscar informações sobre a doença, não havia ninguém para falar sobre sexualidade”, afirmou a ativista.

Hoje, Ayu Oktariani é viúva e cuida de sua filha sozinha desde que perdeu o companheiro em decorrência da aids. Ela chamou atenção ainda para a necessidade de diferentes respostas para deter o vírus. “Somente medicamento não é suficiente para deter a epidemia.”

Declaração de Melbourne 2014 – pelo fim da discriminação dos portadores do HIV

A presidente da 20ª Conferência Mundial de Aids, Barré-Sinoussi, pediu aos participantes que assinassem a Declaração de Melbourne 2014 – o documento pede para se pôr fim ao estigma e à discriminação que afetam os portadores do HIV.

Manifestações: a aids só vai acabar quando…

É praxe em conferências internacionais de aids a realização de protestos de ativistas. Na 20ª Conferência Internacional de Aids, antes do diretor executivo do Unaids falar, cerca de 30 ativistas foram à frente do palco com cartazes com frases como a que dizia que a aids só vai acabar quando for atingida a equidade de gênero. Outros pediam para que parem de olhar o próprio umbigo, trabalhem em parceria com profissionais do sexo, o fim da discriminação contra usuários de drogas, entre outros. Michel Sidibé pegou um dos cartazes e posou para fotos antes de fazer seu entusiasmado discurso.

Marina Pecoraro, de Melbourne (Austrália)

A Agência de Notícias da Aids cobre a Conferência na Austrália com o apoio do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais e do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo

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