Holanda e Japão entram em campo com avanços no tratamento do HIV e estratégias distintas de prevenção

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Enquanto os holandeses se aproximam das metas globais do Unaids com ampla oferta de PrEP e políticas de redução de danos, os japoneses ainda enfrentam desafios relacionados ao estigma e ao acesso limitado à prevenção

A Copa do Mundo de 2026 reserva logo na primeira rodada do Grupo F um confronto entre duas das sociedades mais desenvolvidas do planeta. No domingo (14), Holanda e Japão se enfrentam no AT&T Stadium, em Dallas, nos Estados Unidos, em uma partida que promete reunir tradição, disciplina tática e ambição de avançar no torneio.

Dentro de campo, estarão frente a frente duas seleções acostumadas a frequentar os grandes palcos do futebol internacional. Fora dele, o duelo também revela diferentes caminhos adotados no enfrentamento ao HIV.

Embora os dois países apresentem baixas prevalências do vírus e elevados índices de tratamento, as estratégias de prevenção, acesso à informação e políticas públicas seguem trajetórias bastante distintas.

Holanda se aproxima das metas globais

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A Holanda possui uma das respostas mais eficientes ao HIV em toda a Europa. Segundo dados do Unaids e da Stichting HIV Monitoring, cerca de 25 mil pessoas vivem atualmente com HIV no país. A prevalência é estimada em apenas 0,2% da população adulta.

Os indicadores colocam os holandeses muito próximos das metas globais 95-95-95 estabelecidas pelo Unaids. Atualmente, apenas 6% das pessoas vivendo com HIV desconhecem sua condição sorológica. Entre aquelas diagnosticadas, 95% realizam tratamento antirretroviral e 98% apresentam carga viral indetectável.

Os números refletem décadas de investimentos em prevenção, educação sexual, diagnóstico precoce e acesso universal à assistência médica. Em 2024, apenas 24 pessoas morreram em decorrência de complicações relacionadas à aids, um número que permanece estável há quase uma década.

A prevenção como política de Estado

A história da resposta holandesa ao HIV é frequentemente citada como uma das mais bem-sucedidas do mundo. Ainda nos anos 1980, quando os primeiros casos começaram a surgir, o país optou por investir em campanhas educativas amplas e em políticas de redução de danos para usuários de drogas injetáveis.

Programas de troca de seringas, distribuição gratuita de preservativos e ações voltadas à educação sexual foram implementados antes mesmo de muitos países reconhecerem a gravidade da epidemia. A estratégia produziu resultados consistentes.

Hoje, a Holanda possui uma das maiores coberturas de testagem e tratamento da Europa. A PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) passou a integrar oficialmente o sistema público de saúde em 2019, ampliando ainda mais as ferramentas de prevenção disponíveis para populações vulneráveis.

Homens seguem sendo o grupo mais afetado

Apesar dos avanços, a epidemia continua concentrada principalmente entre homens. Eles representam aproximadamente 80% dos diagnósticos registrados no país. Homens que fazem sexo com homens respondem por cerca de 55% das novas infecções. As mulheres representam aproximadamente 20% dos casos registrados.

Especialistas destacam que o principal desafio atual da Holanda não é ampliar o tratamento, mas manter altos níveis de prevenção e diagnóstico precoce em uma epidemia cada vez mais concentrada em grupos específicos.

O país que abriu caminho para o uso medicinal da cannabis

A Holanda também entrou para a história ao adotar medidas pioneiras voltadas à qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV. Há mais de duas décadas, tornou-se o primeiro país do mundo a permitir a prescrição de cannabis medicinal para pacientes com aids, câncer e esclerose múltipla.

A medida buscava aliviar sintomas como dores crônicas, náuseas e perda de apetite associados ao tratamento e às doenças oportunistas. A decisão reforçou a imagem internacional da Holanda como uma nação disposta a adotar abordagens inovadoras em saúde pública.

Japão avança no tratamento, mas ainda enfrenta barreiras culturais

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Do outro lado do campo estará um país que também apresenta bons resultados no controle da epidemia. O Japão possui aproximadamente 30 mil pessoas vivendo com HIV e uma prevalência estimada de 0,1% entre adultos de 15 a 49 anos.

Em 2024, foram registrados 994 novos diagnósticos. A grande maioria dos casos ocorreu entre cidadãos japoneses, contrariando uma percepção ainda presente em parte da sociedade de que o HIV seria uma questão associada principalmente a estrangeiros.

Segundo o Ministério da Saúde japonês, cerca de 85% dos novos casos registrados no ano passado ocorreram entre pessoas nascidas no próprio país.

Estigma continua sendo um adversário

Apesar dos avanços clínicos, especialistas apontam que o principal desafio japonês continua sendo cultural. O HIV ainda é cercado por forte estigma social.

Durante décadas, a infecção foi associada a comportamentos considerados socialmente inadequados, criando barreiras para o diagnóstico precoce e para a busca por serviços de saúde.

Essa realidade ajuda a explicar um dos principais desafios do país: ampliar a testagem. Atualmente, cerca de 90% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico, índice elevado, mas ainda abaixo dos melhores resultados observados em países da Europa Ocidental.

Entre os diagnosticados, 95% realizam tratamento e outros 95% alcançaram supressão viral.

PrEP continua fora do sistema público

Uma das diferenças mais marcantes entre Japão e Holanda está no acesso à prevenção. Enquanto a PrEP é amplamente disponibilizada pelos serviços públicos holandeses, o Japão ainda não aprovou oficialmente a estratégia como política nacional.

O acesso depende exclusivamente de clínicas privadas especializadas. Os medicamentos utilizados são geralmente importados, e os custos podem chegar ao equivalente a cerca de R$ 500 por mês.

Organizações comunitárias e especialistas defendem a incorporação da PrEP ao sistema público de saúde como forma de acelerar a redução das novas infecções.

Jovens e grandes centros urbanos concentram casos

A epidemia japonesa permanece fortemente concentrada entre homens que fazem sexo com homens, grupo que responde por aproximadamente 70% dos novos diagnósticos. Tóquio e Osaka concentram a maior parte dos casos registrados.

Entre as mulheres, embora os números sejam menores, especialistas demonstram preocupação com os diagnósticos tardios. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 30% das mulheres diagnosticadas em 2024 já apresentavam sintomas relacionados à aids no momento da descoberta da infecção.

Duas referências, desafios diferentes

Quando a bola rolar em Dallas, Holanda e Japão estarão disputando três pontos importantes para a classificação às oitavas de final. Mas o confronto também coloca lado a lado dois modelos distintos de resposta ao HIV.

Os holandeses apostam em políticas amplas de prevenção, acesso facilitado à PrEP e redução de danos. Os japoneses apresentam excelentes resultados no tratamento, mas ainda convivem com barreiras culturais e limitações no acesso às estratégias preventivas mais modernas.

Em ambos os casos, os números mostram que o avanço científico é capaz de transformar a realidade da epidemia.

Mas também lembram que informação, combate ao preconceito e acesso universal à prevenção continuam sendo peças fundamentais para alcançar a meta global de acabar com a aids como ameaça à saúde pública.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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