HIVR4P 2024/ O futuro da PrEP: A importância de descentralizar e personalizar o acesso à PrEP – por dr. Lucas Rocker

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Durante os cursos e simpósios pré-congresso do HIVR4P 2024 (The 5th HIV Research for Prevention Conference), que acontece na cidade de Lima, no Peru, destacaram-se discussões valiosas sobre a implementação da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) como uma estratégia personalizada de prevenção. Para a prevenção ao HIV, vimos que o ideal é termos à disposição uma ampla gama de ferramentas para adaptar essas medidas à realidade e às necessidades específicas de cada país, reconhecendo as diferenças sociais e culturais que moldam a resposta ao HIV em todo o mundo.

Em um dos simpósios satélites, foram apresentadas experiências sobre a diversificação da escolha da PrEP. Atualmente, as opções mais consolidadas incluem o uso do comprimido diário de Truvada e o cabotegravir de ação prolongada, administrado via injeção. Em alguns países, também se tem acesso ao anel vaginal de dapivirina, uma opção adicional para mulheres que buscam formas discretas e de longo prazo para se protegerem contra o HIV.

O futuro da PrEP se mostra ainda mais promissor, com novas tecnologias em desenvolvimento, como as injeções semestrais de lenacapavir e comprimidos de uso mensal, que podem proporcionar uma maior flexibilidade e adesão ao tratamento. Essas inovações oferecem a possibilidade de ampliar significativamente o acesso e o uso da PrEP, especialmente em populações que enfrentam barreiras para seguir um regime diário de prevenção.

Um ponto crucial levantado durante o simpósio foi a necessidade de compreender melhor as características sociais e comportamentais das comunidades, para que políticas públicas de prevenção do HIV sejam realmente eficazes e adaptadas às realidades locais. A PrEP não deve ser uma solução única para todos, mas sim uma abordagem que leve em conta as preferências e os estilos de vida das pessoas. Isso significa criar uma metodologia de prevenção que seja individualizada e que possa ser implementada de forma que atenda às necessidades específicas de cada grupo populacional.

A descentralização dos serviços de PrEP foi apontada como uma estratégia fundamental para superar barreiras de acesso. Unidades de saúde tradicionais, muitas vezes, não são ambientes acolhedores para todos, especialmente para populações-chave como homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, profissionais do sexo e jovens que estão começando a explorar sua sexualidade. Levar a PrEP para além desses ambientes e integrá-la em espaços mais acessíveis e acolhedores pode aumentar a adesão e o impacto das estratégias de prevenção.

Além disso, campanhas em mídias sociais foram identificadas como ferramentas poderosas para disseminar informações sobre a PrEP, sensibilizando e engajando um público mais amplo. O uso de tecnologias, como o geolocalizador de PrEP, pode ser um recurso estratégico para conectar os usuários aos serviços mais próximos e facilitar o acesso à profilaxia.

Outra área essencial é o treinamento contínuo de profissionais de saúde (HCPs) sobre as diretrizes mais recentes da PrEP. Profissionais bem-informados são fundamentais para oferecer um atendimento de qualidade, tirar dúvidas e incentivar a adesão ao tratamento preventivo. O conhecimento sobre as opções disponíveis e as diretrizes atualizadas permite que os profissionais orientem melhor os pacientes na escolha do método que mais se alinha às suas necessidades.

Por fim, a possibilidade de incorporar novas opções, como o cabotegravir de longa duração (PrEP injetável, intramuscular no glúteo, com aplicação a cada 2 meses), traz uma dimensão dinâmica à escolha da PrEP. Com alternativas mais flexíveis, os pacientes poderão optar pelo método que se adequa melhor ao seu estilo de vida e necessidades de saúde.

Esperamos ansiosamente pelo momento em que o Brasil esteja preparado para oferecer uma escolha real e variada de PrEP, adaptada às realidades sociais e às preferências de cada comunidade. Para isso, é imprescindível um esforço conjunto para entender as demandas locais e estruturar políticas públicas que realmente façam a diferença na prevenção do HIV.

* Dr. Lucas Rocker, médico infectologista da Casa da Pesquisa do Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS do Estado de São Paulo

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