
O impacto do vírus HIV/Aids na sociedade pode ser sentido até hoje, apesar dos avanços no tratamento da doença ao longo de 40 anos. Um recorte extremamente delicado está entre as crianças e adolescentes infectados; um cenário com muitas camadas de preconceito, estigma e desinformação, que influenciam bastante no alcance do tratamento. Conhecedor dessa realidade há mais de 20 anos, o infectologista e pediatra Dr. Francisco Micussi pensou numa forma diferente de lidar com o assunto: pôr em quadrinhos, os dramas e dilemas dos seus jovens pacientes. Surgiu “Hivinho: Uma história de vida”, uma HQ sem super-heróis, que oferece acolhimento e conhecimento.
“Hivinho” é baseado em fatos reais. Em anos de atuação na equipe do Serviço de Atendimento Especializado (SAE) do Hospital Giselda Trigueiro, Francisco observou as dificuldades de adesão ao tratamento e da regularidade no comparecimento às consultas entre os pacientes mais jovens com HIV. O que passou a ser um grande desafio cotidiano para o grupo. “Quando uma criança não adere ao tratamento, ela adoece, e até morre por isso. É um abalo emocional grande para nós. Ainda mais por ser uma morte evitável”, diz.
Um caso em especial inspirou o infectologista. “A tia de um adolescente com HIV nos procurou angustiada porque o garoto escondia a medicação e fingia que a tomava. Ele ainda não sabia que tomava medicamento para HIV, não sabia de sua condição. A tia me implorou que eu revelasse isso a ele”, conta. A revelação foi feita numa consulta. “O rapaz ficou triste, revoltado, e se sentindo enganado. Então, do ponto de vista emocional, foi uma situação muito difícil para nós todos”, diz.
A partir dessa situação, Francisco Micussi sentiu que deveria fazer algo que tornasse mais fácil o processo de adesão ao tratamento, que criasse uma relação de confiança e vínculo com essas crianças. Surgiu aí a ideia de uma história em quadrinhos. Tendo a base narrativa, ele procurou pessoas do ramo. Encontrou o desenhista e ilustrador Anderson Gomes e a roteirista Kaline Sampaio, que deram forma à história de vida de Hivinho em 2016.

O infectologista Francisco Micussi tem mais de 20 anos de atuação no tratamento de crianças e adolescentes com HIV | Foto: Magnus Nascimento
A trama conta a história de Hivinho desde o seu nascimento, sendo filho de uma mulher portadora do vírus, que falece logo após o parto. A criança passa a ser criada pela avó e tem uma irmã mais velha, Hígida (que também ganhou uma revista própria depois). Ele passa a ter consultas, mas não adere ao tratamento e é internado por isso. A história mostra todo o processo de conscientização e autoaceitação do personagem.
Através de Hivinho, Francisco Micussi mostra os desafios enfrentados por quem convive com a doença desde tão jovem, como medos, estigmas, preconceitos, mitos e vergonhas. “A partir daí, a gente começou a distribuir a revista nas nossas consultas para as crianças e algumas mães, no sentido de prepará-los para essa revelação da doença, contando a história do menino que se parece muito com a história de cada um. É ficção, mas a gente ainda vive muito essa realidade no acompanhamento da criança e do adolescente”, diz.
A HQ foi pensada para desconstruir o velho pensamento, de décadas atrás, que ter HIV era sinônimo de morte. “A primeira história do Hivinho mostra para as crianças e adolescentes que conviver com HIV e Aids não tira delas nenhuma possibilidade de ter uma vida saudável, profissão, família, de poder ter filhos, etc. Então a gente trabalha dentro dessa perspectiva, e não dentro daquela tínhamos muito tempo atrás, de estar fadado à morte”, ressalta.
Segundo o médico, a revista desde então se mostrou um instrumento valioso para trabalhar sua relação com os pacientes mais jovens. Aliado à revista, ele também mantém o projeto “Batendo Palmas”, que celebra os aniversários das crianças que se mantêm ligadas ao tratamento. Uma iniciativa que é realizada há 15 anos. “É uma coisa que, de certa forma, contribuiu muito para melhorar o vínculo que a gente estabeleceu com essas crianças e com essas mães. Tivemos uma resposta positiva do ponto de vista de melhorar a adesão dessas crianças ao tratamento”.
A mensagem de “Hivinho” rendeu tão bem que logo veio outra revista, “Hígida”, sobre uma mulher que contraiu o vírus através de uma relação sexual e precisa aprender a conviver da melhor forma com isso. Essa trama, mais adulta, foi pensada para as pacientes gestantes com HIV. “Elas chegam aqui às vezes muito fragilizadas, abaladas e abatidas, e a Hígida tem dado uma contribuição no sentido de melhorar um pouco a autoestima dessas mulheres”, diz. O médico ressalta que o tratamento dessas mulheres implica na não transmissão do vírus aos seus filhos.
Francisco afirma que hoje tem contato com os filhos de pacientes que cuidou há 10, 20 anos. Segundo ele, ainda não há um número atualizado de crianças nessa situação no estado, mas é real que houve uma redução significativa no número desses pacientes. “Graças à iniciativa do pré-natal e com a testagem realizada logo no início da gestação, a gente tem de fato um impacto muito grande do ponto de vista da redução da transmissão vertical”, diz.
Pessoas de todas as idades com HIV têm o desafio de um tratamento que é para a vida toda. Há também o estigma em volta da doença, que ainda persiste em muitos lugares. “As mães, principalmente, não querem falar por medo de serem culpabilizadas pela sociedade e pelos próprios filhos”, conta. Há também o receio de que a criança saiba cedo de sua condição e espalhe a informação ao redor, atraindo preconceito para si e para a família. “Já houve caso de precisarmos ir à escola de um paciente para explicar como todos estavam errados sobre a doença”, lembra.
O tratamento hoje está mais fácil e eficiente, mas Francisco Micussi afirma sentir falta de mais campanhas públicas sobre Aids, semelhantes às que haviam nos anos 80 e 90. “Acho que está faltando mais educação no sentido de trabalhar o HIV nas escolas, nas comunidades, para que as pessoas sejam respeitadas, amadas, como qualquer outro cidadão. Temos medicamentos bons, somos um dos poucos países que os fornecem de graça. Mas sinto falta daquelas campanhas com a camisinha, por exemplo. Falta educação”, conclui.
Os interessados em adquirir as revistas de “Hivinho” e “Hígida” devem procurar o perfil @pediatraitinerante (Instagram).


