HIV: SUS poderá ter PrEP longa duração ainda neste ano; entenda o que vai mudar, comunica O Globo

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A versão prevista para chegar ao SUS tem a duração de dois meses no organismo (a disponível atualmente é de uso diário)

Um dos mais brilhantes avanços da ciência nos últimos anos foi transformar o HIV em uma infecção evitável, prevenível com diversas ferramentas. As camisinhas — femininas e masculinas — seguem importantíssimas para o controle da disseminação do vírus causador da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS), mas gradativamente foram ladeadas por inovações capazes de proteger quem eventualmente entra em contato com o vírus, mesmo no sexo sem proteção do preservativo. No Brasil desde 2018, a inovação existe e é muito usada: a PrEP (profilaxia pré-exposição) faz parte do sistema único de Saúde (SUS) e pode ser retirada, inclusive, em pontos como estações de Metrô de SP.

Na prática, essas pílulas permitem que a pessoa esteja protegida da infecção mesmo se tiver comportamentos de risco relacionados à infecção. Uma nova geração de medicamentos, porém, avança algumas casas nesse jogo e dá a proteção prolongada para o contágio— ou seja, não será necessário lembrar diariamente dos medicamentos para ficar longe de um diagnóstico.

A solução mais próxima de chegar efetivamente ao sistema brasileiro responde pelo nome de cabotegravir e é produzida pela farmacêutica GSK. Embora a previsão de sua chegada — caso passe por todas as etapas de inclusão — esteja prevista para este segundo semestre de 2026, o medicamento tem aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) há três anos. Trata-se de uma droga injetável de longa duração. Sua proteção, após o uso, se prolonga por dois meses.

“Em outubro, vindo um parecer positivo da Conitec (a esfera do Ministério da Saúde que determina qual medicamento fará parte do SUS), fechamos as negociações e faremos o possível para ter o medicamento ainda neste ano — diz Roberta Correa, diretora da unidade de negócios de Virologia da GSK.” Nos dois primeiros meses, a aplicação do medicamento é mensal, depois a pessoa retoma a cada dois meses. No estudo que fizemos a proteção é superior a 99%.

De acordo com Roberta, o medicamento tem seu uso em larga escala registrado principalmente nos EUA. Na Europa, a solução ainda está em processo de inclusão. Em outras localidades, o mesmo cabotegravir é usado em combinação com o ativo rilpivirina, para tratamento de pessoas que já convivem com o HIV.

No Brasil
A chegada do medicamento no país não deve substituir a presença da PrEP em pílulas diárias, utilizada por mais de 150 mil pessoas no país. É o que explica Draurio Barreira, diretor do Departamento de HIV/AIDS, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (DATHI), do Ministério da Saúde. O projeto inicial é que se receba cerca de 3 mil tratamentos, parte deles utilizados num estudo de implementação e outros comprados para populações específicas.

“Vamos tentar chegar às populações que não vêm sendo cobertas de forma satisfatória pela PrEP oral. Me refiro muito especialmente às mulheres cis e transgênero, como também às as travestis. Hoje nosso painel de acesso mostra que 80% dos usuários de PrEP oral diária são os homens que fazem sexo com homens (HSM)” diz. “Queremos oferecer para população que não tem a cobertura que desejamos, o que incluí pessoas vulnerabilizadas. Do ponto de vista do risco biológico, as pessoas mais vulnerabilizada são as que fazem sexo anal sem proteção, pois o risco está aumentado.”

Draurio lembra que há populações que sofrem estigma por usarem medicamentos orais para proteger-se do HIV. Esse público, ele diz, pode se beneficiar da chegada de uma PrEP que requer uso bimestral — ou ampliado para mais meses. Ou seja, não é preciso ficar com um potinho de medicamentos em casa ou na rua, como é necessário para a atual forma de proteção.

“Há jovens que a família ainda não sabe que são gays. Eles não vão, por exemplo, levar o medicamento para casa e serem descobertos que estão fazendo uso de PrEP. E, justamente, quem mais descontínua tratamento são os jovens de 18 a 24 anos, mais de metade abandona (a prevenção)” pondera. “Para essa população fará diferença a PrEP injetável. Basta ir a cada dois meses na unidade de saúde e não é preciso levar nada para casa.”

Esse estudo de implementação do cabotegravir, afirmou Draurio ao GLOBO, ocorrerá em todas as cinco regiões brasileiras e oferecerá diferentes tipos de PrEP. Da pílula diária, passando por medicamento injetável bimestral até anel vaginal de proteção (para mulheres cisgênero). Esse último dispositivo já foi aprovado por agências internacionais, mas não teve implementação por sua baixa eficácia. No uso brasileiro, por exemplo, ele será oferecido como uma segunda barreira, junto do uso de PrEP oral e da camisinha.

“Queremos ver o uso dessas ferramentas no mundo real. Ver quais são as preferências” conta. “Mas já antecipamos que não queremos substituir a PrEP oral no país. Ela é sustentável e altamente eficaz. Queremos oferecer todas as tecnologias às populações que mais precisam, é mais uma questão de equidade do que de igualdade.”

Nessa conversa, falta incluir a droga de proteção mais prolongada contra a doença, o chamado lenacapavir, desenvolvido pela Gilead Sciences, que protege por seis meses após a aplicação. A solução segue sem acordo para entrar no Brasil, mas ainda não houve consenso por conta de seu custo. A farmacêutica não aceitou os pedidos de entrevista do GLOBO. Neste mês, porém, anunciou um acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) para passar a incluir o Fundo Rotatório da entidade.

De acordo com a Opas, “os países elegíveis poderão fazer pedidos de aquisição (dos tratamentos) a partir de outubro de 2026, mas a data em que o medicamento estará disponível em cada país dependerá dos processos regulatórios nacionais, do planejamento das compras, do financiamento e da preparação dos programas de saúde”. São 14 países que podem se beneficiar do acordo, incluindo o Brasil. Os valores, ou percentuais de redução do preço, são sigilosos, explicou a entidade.

Ainda no mesmo acordo, a Gilead comprometeu-se a avançar na negociação de transferência de tecnologia da droga, o que permitiria a produção no Brasil. Mas ainda não há acordos anunciados nesse sentido.

Futuro
Enquanto a droga com maior duração não chega ao Brasil, outras inovações já avançam em negociações com entidades nacionais. É o caso do Alimatravir, da MSD, em comprimido. A droga está em fase 3 de desenvolvimento (a última antes de pedir autorização para as agências reguladoras, como a Anvisa). O seu preço, contudo, ainda não está definido para o mercado informou Rodrigo Cruz, diretor de Relações Institucionais da MSD.

“É um comprimido mensal. É uma nova classe de medicamentos com pico de ação apenas 1 hora após o uso. Ou seja, após uma hora que você usar, ele interrompe qualquer transmissão e isso perdura ao longo de um mês. Além disso, após tomar por dois, três ou quatro meses é possível ter uma janela de “esquecimento” de uma semana, e a proteção ainda estará garantida” explica Márcia Datz Abadi, diretora Médica da MSD Brasil “Claro, precisamos da confirmação da fase 3. Mas já há evidências. Precisamos trabalhar com a juventude, que não viu o que vimos nos anos 1980 (em relação ao HIV). A prevenção precisa ser cada vez mais trabalhada.”

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