Corte milionário em programa de combate ao HIV é justificado pelos EUA por falta de proteção aos brancos da África do Sul. Chegada de genérico do lenacapavir se torna nova esperança.
Enquanto o mundo assiste aos EUA aplicarem uma política racista em sua relação com as delegações e torcidas da Copa do Mundo disputada em seu território, a conflitividade do governo Trump nas relações internacionais prossegue também fora de suas fronteiras.
Nesta semana, os norte-americanos anunciaram a suspensão definitiva de seu programa de financiamento de medicamentos para HIV/aids na África do Sul. O Pepfar (U.S. President’s Emergency Plan for AIDS Relief) destina cerca de US$ 400 milhões anuais para o controle da doença que afeta 8 milhões de cidadãos do país, o maior contingente entre todas as nações do mundo.
As autoridades sul-africanas afirmaram que já esperavam pela medida, até porque o financiamento do Pepfar já vinha sendo paulatinamente diminuído. A administração Trump alega se tratar de uma retaliação à suposta falta de proteção às minorias étnicas brancas do país. O ataque se soma à absurda afirmação de 2025: a África do Sul deveria reparação ao que chamou de “genocídio branco”.
A acusação já fora mal recebida pelo governo de Cyril Ramaphosa, presidente do país – afinal, foram exatamente os grupos de eurodescendentes que impuseram o regime de apartheid contra as populações negras originárias no século 20. O devaneio do presidente dos EUA é uma resposta à iniciativa de revisão da política agrária, que visa distribuir propriedades para negros, o que sempre foi negado pelo regime segregacionista.
Em um primeiro momento, a ação estadunidense cria um problema fiscal para o governo de Ramaphosa. Mas segundo o ministro da Saúde, Pakishe Aaron Motsoaledi, o país se preparava para essa transição e já custeia a maior parte do programa. Além disso, o lenacapavir, um medicamento pré-exposição que representa a última inovação no tratamento da doença, chegou em maio ao país. Sua proteção de longo prazo e liberação de produção de genéricos a partir de 2026 são uma saída eficaz.
O país conta com um estoque comprado diretamente da farmacêutica produtora, a Gilead, mas a partir de 2027 deve começar a comprar uma versão genérica, licenciada pelo laboratório em 120 países, o que reduzirá seu alto custo.
Embora o cenário de futuro soe promissor, a Spotlight, uma revista digital de saúde sul-africana, alerta para gargalos no sistema de saúde do país causados pelo fim do Pepfar. Como explica a publicação, o programa de ajuda dos EUA contava com estratégias territoriais que ampliavam o alcance do público. Desde 2025, quando começa o desfinanciamento pelo governo Trump, o número de pessoas tratadas deixou de crescer. Isso porque os EUA financiavam 80% das clínicas especializadas na aplicação do tratamento e seus especialistas eram direcionados a pontos de contato com populações-chaves.
O governo afirma que reorganizará a estratégia em clínicas públicas, onde o lenacapavir já é distribuído. E seus técnicos já discutem formas de realizar busca ativa da população contaminada. Foster Mohale, do Ministério da Saúde, expôs a estratégia a ser aplicada: “a chave para o sucesso é que o PrEP não é uma política vertical, mas algo integrado à atenção primária, combinado com prevenção”.




