O confronto pelas oitavas de final também evidencia diferentes realidades da resposta ao HIV, marcada por avanços científicos e a necessidade de fortalecer políticas públicas de prevenção e cuidado.
Antes do apito inicial das oitavas de final da Copa do Mundo, Paraguai e França entram em campo no sábado (4), às 18h (horário de Brasília), levando para além da disputa por uma vaga nas quartas de final histórias distintas no enfrentamento ao HIV.
Enquanto os franceses são referência na ampliação do acesso à prevenção e ao tratamento, o Paraguai busca avançar no combate ao estigma e na ampliação dos cuidados às populações mais vulneráveis.
A partida coloca frente a frente duas realidades epidemiológicas diferentes, mas unidas por um mesmo desafio: reduzir novas infecções, ampliar o diagnóstico precoce e garantir que todas as pessoas vivendo com HIV tenham acesso a serviços de saúde de qualidade.
Paraguai enfrenta desafios para ampliar acesso e reduzir o estigma
No Paraguai, a epidemia de HIV permanece concentrada em populações-chave. Segundo estimativas do Unaids, a prevalência entre adultos de 15 a 49 anos é de aproximadamente 0,5%, percentual considerado baixo em termos populacionais, mas que exige estratégias específicas de prevenção e assistência.
Homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas trans e profissionais do sexo continuam sendo os grupos mais impactados pela epidemia, refletindo um padrão observado em diversos países da América Latina.
Além dos desafios relacionados à prevenção, o preconceito ainda representa um obstáculo importante. Pesquisas realizadas com pessoas vivendo com HIV apontam que a discriminação interfere diretamente no acesso aos serviços de saúde e na continuidade do tratamento, comprometendo a qualidade de vida e o cuidado integral.
O contexto regional também preocupa especialistas. O relatório global do Unaids de 2024 mostrou uma mudança importante no cenário da epidemia mundial: pela primeira vez, a maior parte das novas infecções ocorreu fora da África Subsaariana, com aumento dos casos em regiões como América Latina, Europa Oriental e Ásia Central.
França alia tratamento, prevenção e inovação no combate ao HIV
A França consolidou, ao longo das últimas décadas, uma das respostas mais robustas da Europa ao HIV. De acordo com o Unaids, cerca de 180 mil pessoas vivem com o vírus no país em 2023. Entre elas, 94% já haviam recebido o diagnóstico, 96% estavam em tratamento antirretroviral e 98% das pessoas em tratamento apresentavam carga viral suprimida, resultado que reduz significativamente a possibilidade de transmissão do vírus.
Apesar desses avanços, o país ainda notificou aproximadamente seis mil novos diagnósticos em 2024, demonstrando que a epidemia permanece ativa e concentrada em determinados territórios e grupos populacionais.
A região de Île-de-France, onde está localizada Paris, concentra quase metade das pessoas vivendo com HIV no país, mesmo reunindo menos de um quinto da população francesa. Entre os novos casos, os homens representam cerca de 70%, sendo que a maioria das infecções ocorre entre homens que fazem sexo com homens. As mulheres respondem por pouco menos de um terço dos diagnósticos recentes.
Outro ponto de atenção é a situação dos imigrantes. Embora representem uma pequena parcela da população francesa, os estrangeiros estão desproporcionalmente entre as pessoas vivendo com HIV. Organizações da sociedade civil destacam que dificuldades com o idioma, burocracias administrativas e o receio de consequências relacionadas à situação migratória ainda limitam o acesso regular aos serviços de prevenção e tratamento.
A trajetória francesa no enfrentamento da epidemia começou logo após o registro dos primeiros casos de aids, em 1982. Cinco anos depois, o país passou a oferecer a zidovudina (AZT), primeiro medicamento aprovado contra o HIV, e, em 1996, incorporou a terapia antirretroviral combinada ao sistema público de saúde.
Mais recentemente, a França voltou a ocupar posição de destaque ao disponibilizar a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) pelo sistema público a partir de 2016. Atualmente, a população tem acesso tanto ao esquema oral diário quanto à PrEP injetável de longa duração, aplicada a cada dois meses com cabotegravir, ampliando as possibilidades de prevenção conforme as necessidades de cada pessoa.
Dentro e fora das quatro linhas, Paraguai e França representam estágios distintos da resposta ao HIV. Se o duelo no futebol será decidido em 90 minutos, o enfrentamento da epidemia continua sendo uma disputa permanente, que depende de políticas públicas, inovação científica, acesso universal à saúde e do combate contínuo ao estigma e à discriminação.
Redação da Agência de Notícias da Aids



