Experiência teatral interativa do Instituto Cultural Barong emociona participantes da Conferência Internacional de Aids, reúne arte, ciência e direitos humanos e reforça que o maior desafio da epidemia continua sendo vencer o preconceito
O estigma que acompanha o HIV há mais de quatro décadas ocupou, literalmente, o banco dos réus nesta segunda-feira (27), durante a apresentação da experiência teatral interativa HIV no Tribunal no Global Village da 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), realizada no Riocentro, no Rio de Janeiro. Selecionada para integrar a programação oficial de um dos principais espaços de arte, cultura e mobilização comunitária do evento, a montagem brasileira transformou o teatro em uma poderosa ferramenta de educação, saúde pública, direitos humanos e enfrentamento ao preconceito.
Após uma temporada de 20 apresentações em São Paulo, o espetáculo chegou à maior conferência mundial sobre HIV reafirmando que a resposta à epidemia também passa pela cultura, pela escuta e pelo diálogo. Para ampliar o acesso do público internacional presente no evento, a apresentação contou com legendas em inglês, permitindo que pesquisadores, profissionais da saúde, ativistas e participantes de diferentes países acompanhassem a narrativa e compartilhassem da experiência proposta pela montagem.
No palco, um tribunal. Na plateia, o júri. No centro do debate, uma pergunta que permanece urgente mesmo diante dos extraordinários avanços científicos alcançados nas últimas décadas: quando o assunto é HIV, ainda julgamos pessoas com base na informação ou no preconceito?
Um julgamento que ultrapassa a ficção
A trama acompanha Eva, mulher que descobre viver com HIV e decide processar o ex-companheiro, Bráulio, acusando-o de ter transmitido o vírus de forma intencional.
O que começa como um conflito entre duas pessoas rapidamente rompe os limites da ficção para provocar uma discussão sobre responsabilidade afetiva, prevenção, educação sexual, acesso à informação, direitos humanos e os estigmas que ainda cercam quem vive com HIV.
À medida que o julgamento avança, testemunhas dividem o palco com ativistas e profissionais da saúde, que incorporam à narrativa informações baseadas em evidências científicas sobre prevenção combinada, tratamento, indetectabilidade e os direitos das pessoas vivendo com HIV. Aos poucos, a história deixa de ser apenas a de Eva e Bráulio para refletir a experiência de milhares de pessoas que ainda enfrentam o peso da discriminação.
Mas a principal transformação acontece fora do palco. O público deixa de ser apenas espectador para assumir o papel de jurado. Precisa ouvir, analisar os argumentos, confrontar suas próprias convicções e decidir um veredito.
No entanto, a peça nunca está julgando apenas seus personagens. Ela convida cada pessoa presente a refletir sobre os julgamentos que a própria sociedade continua impondo às pessoas que vivem com HIV.
Teatro como instrumento de transformação social
Dirigido por Tadeu Di Pyetro e realizado pelo Instituto Cultural Barong, HIV no Tribunal nasceu da construção coletiva entre artistas, ativistas e especialistas da saúde, que enxergam o teatro como um espaço de diálogo e transformação social.
A montagem apresentada na AIDS 2026 chega mais madura, intensa e imersiva. O elenco imprime maior força dramática à narrativa, enquanto os vídeos com ativistas e profissionais da saúde ganharam animações e legendas, tornando as intervenções ainda mais acessíveis e impactantes.
A tecnologia também ocupa espaço na encenação. A assistente da juíza é representada por uma personagem criada com inteligência artificial, recurso que dialoga com um tempo marcado pela velocidade da informação — e, ao mesmo tempo, pela circulação de fake news, discursos moralistas e preconceitos que continuam alimentando o estigma relacionado ao HIV.
Nada disso aparece como mero recurso estético. Cada elemento ampliou a experiência do público e provocou reflexões que extrapolam o palco.
Quem responde quando a educação sexual desaparece das escolas? O que acontece quando o preconceito fala mais alto do que a ciência? Quantas violências continuam sendo naturalizadas contra pessoas vivendo com HIV?
Em uma conferência marcada pela apresentação de pesquisas que apontam para uma nova geração de tecnologias de prevenção e tratamento, a peça lembrou que existe um desafio que nenhuma inovação científica consegue resolver sozinha: o estigma.
Enquanto a ciência revolucionou o cuidado com o HIV e transformou a infecção em uma condição crônica tratável, o preconceito continua limitando diagnósticos precoces, dificultando o acesso aos serviços de saúde e comprometendo a qualidade de vida de milhões de pessoas em todo o mundo.
Foi justamente essa contradição que HIV no Tribunal levou ao palco da AIDS 2026. Porque, no fim, o espetáculo vai muito além do HIV. Ele revela como o preconceito, a desinformação e o medo continuam moldando a forma como a sociedade trata as pessoas que vivem com o vírus.
Redação da Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



