Existe um momento em que o silêncio pesa mais do que qualquer sentença. E talvez seja justamente isso que “HIV no Tribunal” consiga provocar já nos primeiros minutos: tirar o HIV do lugar do segredo, do medo e do julgamento moral para colocá-lo no centro de uma conversa pública que o Brasil ainda insiste em evitar.
No próximo dia 13 de maio, às 20h, o Teatro Alfredo Mesquita recebe uma apresentação gratuita e aberta ao público do espetáculo interativo “HIV no Tribunal”, montagem que transforma o palco em um tribunal e a plateia em júri de uma história atravessada por afeto, culpa, desinformação e estigma.
Mas a peça vai muito além de um julgamento fictício. Ela mexe em feridas reais.
A trama acompanha Eva, mulher que descobre sua sorologia positiva para HIV e decide processar o ex-companheiro, Bráulio, acusando-o de ter transmitido o vírus de forma intencional. O que parece um caso individual rapidamente se transforma em algo maior: uma discussão sobre responsabilidade afetiva, educação sexual, preconceito e o quanto a sociedade ainda prefere apontar culpados em vez de enfrentar a desinformação.
Ao longo da encenação, testemunhas, ativistas e profissionais de saúde entram em cena trazendo informações sobre prevenção, tratamento e direitos das pessoas vivendo com HIV. E o público deixa de ser apenas espectador. Precisa ouvir, analisar, tomar posição e decidir o veredito.
Só que, no fundo, o espetáculo nunca está julgando apenas os personagens. Está julgando também a forma como o Brasil aprendeu — ou desaprendeu — a falar sobre HIV.
Uma nova montagem mais intensa e mais próxima do público
Quem já ouviu falar do projeto vai encontrar agora uma peça diferente da apresentada anteriormente.
A nova montagem chega mais madura, mais dinâmica e emocionalmente mais forte. O elenco está mais entrosado, o ritmo da narrativa mudou e a experiência ficou mais imersiva. Os vídeos com ativistas e profissionais da saúde ganharam animações e legendas, tornando as intervenções mais vivas e acessíveis ao público.
Até a assistente da juíza mudou. Agora, ela surge em cena criada com inteligência artificial, integrada à linguagem do espetáculo.
O recurso tecnológico não aparece ali apenas como estética. Ele ajuda a construir a atmosfera de um tempo marcado pelo excesso de informação — e, ao mesmo tempo, pela avalanche de fake news, preconceitos e discursos moralistas que continuam cercando o HIV mais de quatro décadas depois do início da epidemia.
E talvez seja exatamente por isso que a peça incomoda tanto. Porque ela faz perguntas difíceis.
Quem é responsável quando a educação sexual desaparece das escolas? O que acontece quando o preconceito fala mais alto do que a ciência? E quantas violências ainda são naturalizadas contra pessoas vivendo com HIV?
O teatro como espaço de disputa
Dirigido por Tadeu Di Pyetro e realizado pelo Instituto Cultural Barong, “HIV no Tribunal” nasceu da construção coletiva entre artistas, ativistas e especialistas da saúde.
A peça entende o teatro não apenas como entretenimento, mas como espaço político.
Um espaço capaz de provocar desconforto, romper silêncio e disputar narrativas sobre corpos, sexualidade e direitos humanos.
A apresentação do dia 13 também carrega um desafio importante para a produção: ocupar o Teatro Alfredo Mesquita com público, levando a discussão para além dos espaços tradicionais do ativismo e alcançando pessoas que talvez nunca tenham participado de um debate sobre HIV.
Porque, no fim, “HIV no Tribunal” não fala apenas sobre um vírus. Fala sobre o tipo de sociedade que escolhemos construir quando decidimos entre o acolhimento e o julgamento.
Serviço
Espetáculo “HIV no Tribunal”
Quando: 13 de maio
Horário: 20h
Teatro Alfredo Mesquita (Av. Santos Dumont, 1770 – Santana, São Paulo)
Entrada gratuita e aberta ao público
Elenco
* Clóvis Gonçalves
* Luciana Borghi
* Mônica Bonna
* Alex Moreira
Reserva de ingressos
Os ingressos podem ser reservados antecipadamente pela Sympla. A retirada acontece na bilheteria até uma hora antes da apresentação.
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Redação da Agência de Notícias da Aids



