No cenário do combate ao HIV/Aids, o Brasil sempre foi referência internacional, mas os desafios atuais exigem inovação, novos medicamentos e, sobretudo, políticas públicas inclusivas. Esses temas dominaram a 6ª edição do HIV Leaders, promovida pela GSK/ViiV Healthcare, nos dias 29 e 30 de agosto, no Rio de Janeiro. O evento reuniu especialistas nacionais e internacionais para discutir o futuro da prevenção e do tratamento, com foco em tecnologias de ponta e no papel central da ciência.
Entre os destaques, estiveram as falas das pesquisadoras Beatriz Grinsztejn, presidente da IAS (International Aids Society), Valdiléa Veloso, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), além de Piotr Budnik, diretor global de assuntos médicos em prevenção de HIV da ViiV Healthcare.
A história da prevenção no Brasil

A dra. Valdiléa Veloso trouxe para o debate m panorama da epidemia no país e ressaltou conquistas históricas. “Na América Latina, ao contrário de outras regiões, tivemos 13% a mais de novas infecções. Nosso desafio aqui é enorme. A epidemia tem maior carga em mulheres trans e em homens que fazem sexo com homens, atingindo também pessoas em situação de vulnerabilidade social e com menor escolaridade”, afirmou.
Veloso relembrou que, em 1986, a OMS previa que o Brasil teria 1 milhão de pessoas vivendo com aids em 1991. “O que mudou essa história foi a resposta brasileira, baseada em ciência, prevenção e direitos humanos. Nada teria sido possível sem o Sistema Único de Saúde (SUS).”
A pesquisadora destacou momentos-chave: a criação do programa brasileiro de HIV em 1987, a produção nacional de diagnósticos na Fiocruz, a introdução do AZT em 1992 e, em 1996, a lei que garantiu acesso universal ao tratamento.
Outro marco foi o estudo que comprovou a eficácia do tratamento precoce para reduzir a transmissão. “Hoje temos 858 mil pessoas em tratamento. Sabemos que quem está indetectável não transmite, e isso foi fundamental para reduzir infecções”, explicou.
Ela também lembrou a importância da incorporação da PrEP (profilaxia pré-exposição). “No Brasil, evidenciamos que mulheres trans e jovens têm menor adesão. Fatores como racismo, homofobia e transfobia ainda afastam pessoas dos serviços de saúde. Precisamos oferecer opções mais inclusivas e acessíveis.”
Veloso contou sobre experiências bem-sucedidas, como o uso da telemedicina e do autoteste de HIV durante a pandemia, além de projetos comunitários com ônibus e trailers que levam testagem e PrEP a territórios vulneráveis.
Por fim, destacou o impacto social: “Estudos mostraram que o Bolsa Família reduziu a incidência de aids em 41% e a mortalidade em 39% entre os mais pobres. O presidente Lula está certo: combater a pobreza é também combater o HIV.”
O futuro com os injetáveis de longa duração

A dra. Beatriz Grinsztejn, que também é pesquisadora do INI, apresentou resultados de pesquisas sobre os injetáveis de longa duração. “O cabotegravir, aplicado a cada dois meses, mostrou-se mais eficaz que a PrEP oral. Reduziu infecções em até 96% entre homens e mulheres”, explicou. Segundo ela, os estudos HPTN 083 e 084, realizados no Brasil e em outros países, comprovaram a superioridade do novo método.
Dra. Beatriz, no entanto, fez alertas. “Por ser muito potente, o cabotegravir pode atrasar a detecção de novas infecções nos testes rápidos. Isso exige ajustes nos protocolos para evitar resistência viral.”
Ela apresentou dados de estudos de implementação no Brasil. “Incluímos 1.200 jovens entre 18 e 30 anos, homens cis, trans e não binários. O resultado foi surpreendente: 92% tomaram as injeções dentro do prazo. Isso mostra que, quando têm a opção, os jovens aderem.”
A pesquisadora reconheceu, porém, desafios. “O medo da dor da injeção ainda afasta alguns. Precisaremos trabalhar estratégias para reduzir esse receio.”
Além do cabotegravir, Beatriz destacou outra promessa: o lenacapavir, injetável subcutâneo a cada seis meses. “Os primeiros resultados mostram alta eficácia, inclusive entre mulheres jovens da África Subsaariana. Mas ainda precisamos observar os efeitos a longo prazo, especialmente quanto à tolerabilidade.”
Ela concluiu defendendo mais opções para a população. “Assim como nos contraceptivos, cada nova alternativa pode aumentar em 4% a 8% a adesão. Quanto mais escolhas, maior será o impacto na prevenção.”
A visão global da indústria

Fechando a sessão, Piotr Budnik, da ViiV Healthcare, trouxe uma perspectiva internacional. “Não estamos atingindo as metas estabelecidas. A PrEP oral continua subutilizada e a adesão é um desafio. Mas os injetáveis mostram enorme potencial, com taxas de eficácia muito altas nos estudos de implementação”, afirmou.
Para Budnik, o diferencial não estará apenas na eficácia, mas na conveniência para o usuário. “O intervalo de dose — dois, quatro ou seis meses — será decisivo. Precisamos pensar nas preferências das pessoas e não apenas nos números.”
Ele também ressaltou o impacto psicológico. “Nos EUA, estudos mostraram que os injetáveis reduzem o estigma, porque a pessoa não precisa carregar comprimidos. Isso traz benefícios adicionais para a saúde mental.”
Os especialistas foram unânimes ao defender que a luta contra o HIV passa por inovação científica, mas também por justiça social. Para eles, não basta ter medicamentos potentes se a população mais vulnerabilizada não tiver acesso.
Segundo o Ministério da Saúde, mais de 1 milhão de pessoas vivem com HIV no Brasil. Só em 2023, foram registrados 46 mil novos casos. Os números reforçam a urgência de ampliar a prevenção, com tecnologias como a PrEP oral e injetável, além de políticas públicas que enfrentem desigualdades.
Entre lembranças do passado, avanços do presente e esperanças para o futuro, ficou a mensagem de que ciência, inclusão e solidariedade são as chaves para virar a página da epidemia.
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
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