A 6ª edição do HIV Leaders, realizada nos dias 29 e 30 de agosto no Rio de Janeiro, reuniu especialistas nacionais e internacionais para discutir inovação, cuidado integral e novas tecnologias na prevenção e no tratamento do HIV. Promovido pela GSK/ViiV Healthcare, o evento foi marcado por falas potentes e experiências pessoais que colocaram em evidência as urgências e os desafios de uma resposta mais efetiva à epidemia no Brasil.
Entre os temas em destaque estiveram o papel da PrEP, a relevância dos medicamentos injetáveis de longa duração, a importância de alcançar a juventude e os entraves estruturais que ainda mantêm populações-chave à margem das políticas de saúde.
A visão global da prevenção

A médica infectologista Maria Felipe Medeiros, que atua no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e na Casa da Pesquisa (CRT DST/Aids-SP), levou para o encontro uma reflexão sobre a necessidade de se pensar a prevenção de forma ampla e integrada.
“Falar de prevenção em 2025 é falar de prevenção combinada. Não tem outro caminho. Ela passa pela transmissão vertical, pelas vacinas, pela redução de danos, pelo uso de preservativos e pelas novas tecnologias, como a PrEP injetável ou o anel vaginal. Tudo isso precisa estar na mesa”, explicou.
Mafê, como é conhecida, destacou ainda que suas falas são atravessadas por sua vivência: “Eu sou uma mulher trans, e isso importa. A transfobia institucional, a transfobia nos serviços de saúde, faz com que a prevenção não chegue à minha população no mesmo ritmo em que o HIV chega. Precisamos mirar a população trans como chave, ou não atingiremos as metas globais de 95-95-95”.
As metas 95-95-95 do Unaids são objetivos globais para controlar a epidemia de HIV. Elas estabelecem que 95% das pessoas vivendo com HIV devem saber que têm o vírus, 95% dos diagnosticados devem estar em tratamento antirretroviral e 95% das pessoas em tratamento devem alcançar supressão viral, ou seja, carga viral indetectável, sem risco de transmissão.
Para ela, a prevenção só será efetiva se houver escolha real: “É como uma pizza: cada um escolhe o pedaço que faz sentido para si. Não podemos impor métodos. O importante é oferecer opções, respeitando riscos, benefícios e preferências individuais”.
Chemsex: o silêncio perigoso
O infectologista Márcio Fernandes também participou do debate e trouxe luz ao fenômeno do chemsex — o uso de drogas associadas a práticas sexuais.
“Estamos falando de substâncias que atuam no eixo da dopamina, promovendo prazer imediato, mas também vício, isolamento e impactos graves na vida social e emocional. No Brasil, já vemos aumento de internações ligadas a transtornos por uso de drogas nesse contexto”, afirmou.
Segundo Fernandes, o enfrentamento do chemsex exige vontade política e capacitação de profissionais de saúde: “Sem políticas públicas e serviços multidisciplinares preparados, seguimos tratando usuários de chemsex como qualquer outro usuário de droga, ignorando motivações e demandas específicas. Isso não funciona”.
Ele lembrou ainda da experiência europeia, em países como Reino Unido e Espanha, que já estruturaram clínicas especializadas. “No Brasil, estamos engatinhando. Precisamos romper o estigma, formar equipes e oferecer acolhimento. Só assim será possível prevenir danos, apoiar a saúde mental e reduzir riscos de HIV e outras ISTs”.
PrEP e os desafios da expansão

A ativista Marta McBritton, presidente do Instituto Cultural Barong, apontou as barreiras práticas e estruturais para a expansão da PrEP no Brasil. “O que vemos é que a PrEP chega primeiro às pessoas de classe média e alta. Enquanto isso, populações mais vulneráveis, que mais precisariam, ficam de fora.”
Ao mostrar à plateia um extenso catálogo com o nome das ONGs que atuavam contra a aids nos anos 1990, Marta desabafou ao lembrar que muitas dessas entidades, que poderiam hoje colaborar com o poder público na ampliação do acesso à prevenção combinada, já fecharam as portas por falta de recursos. “As ONGs que atuam na ponta sofrem com falta de financiamento, dificuldades burocráticas e até entraves no descarte de material de testagem. Isso mina a força do trabalho comunitário”, criticou.
Ela contou que o Instituto Barong, que mantém uma van-consultório, tem atuado junto à prefeitura de São Paulo para facilitar o acesso à PrEP entre populações vulnerabilizadas que não chegam aos serviços de saúde. A equipe da organização, junto aos técnicos da Coordenadoria de IST/Aids de São Paulo, têm percorrido festas de sexo, na madrugada, para ofertar a profilaxia diretamente a quem mais precisa.
A ativista defendeu com ênfase a educação sexual aberta e franca, sem hipocrisia. Para Marta, falar de sexo não deve ser tabu, mas algo cotidiano: “Se a gente não conseguir discutir sexualidade de forma simples, clara e direta, como quando se conversa numa mesa de bar, vamos continuar afastando as pessoas da prevenção. O silêncio só favorece o HIV. O debate precisa ser transparente, acessível e sem moralismos”.
Ela também destacou que a educação de pares é uma das chaves para mudar essa realidade: “Quando capacitamos usuários para atuarem como aliados dentro dos serviços de saúde, com sua própria linguagem e vivência, conseguimos chegar mais longe. É preciso horizontalidade na relação, não imposição”.
Por fim, provocou os presentes a refletirem: “A prevenção precisa ser plural, com várias ferramentas disponíveis. Só assim teremos adesão real e resultados sustentáveis”.
Um chamado à ação
As discussões no HIV Leaders mostraram que os avanços científicos existem, mas que os desafios políticos, sociais e estruturais ainda são enormes. A mensagem comum entre os palestrantes foi clara: não se pode deixar ninguém para trás.
“Prazer importa. Escolha importa. Acolhimento importa”, resumiu Mafê Medeiros, lembrando que, sem inclusão e sem respeito às especificidades de cada população, o caminho para o fim da epidemia seguirá mais longo e desigual.
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
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