HIV Leaders: “Será que não está na hora de esquemas mais simples?”: Dr. Estevão Portela, diretor do INI, defende evolução do tratamento do HIV no Brasil

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No sábado, 30 de agosto, o HIV Leaders, no Rio de Janeiro, reuniu especialistas de renome para discutir os avanços mais recentes no enfrentamento da epidemia de HIV/aids. Um dos debates no encontro, moderado por Babafemi Taiwo e Marcelo Lima, contou com a participação do médico brasileiro Dr. Estevão Portela, diretor do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), e da britânica Chloe Orkin, professora da Queen Mary University of London, pesquisadora referência em terapias inovadoras.

Dr. Estevão Portela destacou como a evolução das terapias antirretrovirais transformou a realidade das pessoas vivendo com HIV, mas também apontou limitações importantes.

“Desde o início, quando se montou a ideia da terapia altamente eficaz, o que se esperava sempre foi: supressão virológica de longa duração, mínimo impacto na qualidade de vida e perfil favorável de segurança a longo prazo. Isso era muito difícil no início dos anos 90, mas vem se tornando progressivamente mais fácil”, afirmou.

O médico ressaltou que o Brasil ainda enfrenta barreiras, como a restrição de alternativas terapêuticas. “As opções que temos nem sempre são boas. O abacavir, por exemplo, vem apresentando questões relacionadas à intolerância e a riscos cardiovasculares. Já o AZT praticamente não é mais usado em lugar nenhum”, disse.

Nesse cenário, ele destacou a importância dos estudos que comprovam a eficácia da terapia dupla, composta por apenas duas drogas em vez da tradicional combinação tripla. “O que vemos é que a eficácia biológica da terapia dupla é a mesma da tripla. Não é uma negociação: estamos trabalhando com esquemas que se mostram igualmente eficazes e seguros, sobretudo em relação ao metabolismo”, explicou.

Portela também chamou atenção para a urgência de atualizar os protocolos brasileiros diante das evidências internacionais:

“Será que não está na hora de pensarmos no início do tratamento já com esquemas mais simplificados? Muitas vezes, temos urgência em retirar medicamentos mais tóxicos, e os dados mostram que a terapia dupla pode ser segura e eficaz também em situações mais complexas. Precisamos avançar para contemplar isso no nosso PCDT [Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas]”, defendeu.

O olhar internacional: a revolução dos injetáveis

A pesquisadora britânica Chloe Orkin levou ao palco do HIV Leaders sua experiência em estudos clínicos e de vida real sobre os tratamentos injetáveis de longa duração.

“Não é todo mundo que consegue tomar a terapia oral diariamente. Pode haver exaustão, dificuldades cognitivas, ou simplesmente o estigma. Por isso, os injetáveis são uma revolução: em vez de 365 comprimidos por ano, as pessoas podem receber apenas seis aplicações”, afirmou.

Ela destacou que, em julho de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a recomendar oficialmente a combinação injetável de cabotegravir e rilpivirina para pessoas já em supressão viral.

Orkin compartilhou casos clínicos e resultados de pesquisas, incluindo o CARES, realizado em países africanos, e o LATITUDE, voltado a pessoas com dificuldades de adesão. “Esses estudos mostram que, muitas vezes, não é falta de interesse das pessoas, mas a dificuldade de conviver diariamente com a lembrança do HIV. Quando oferecemos uma alternativa mais discreta, elas aderem melhor”, ressaltou.

Ela contou que atendeu um juiz de 73 anos, obeso, hipertenso e com diagnóstico recente de HIV. No momento do diagnóstico, o homem apresentava contagem de CD4 de 250 e carga viral de 134 mil cópias. Inicialmente, foi incluído em um estudo clínico com uma combinação de antirretrovirais orais, mas acabou interrompendo o tratamento ao esquecer os medicamentos durante uma viagem. Após o reinício da terapia, ela apresentou ao paciente a possibilidade dos injetáveis. Para sua surpresa, ele demonstrou grande interesse. “Se alguém me perguntasse quem seria a última pessoa a escolher injetáveis, eu diria que seria ele: extremamente ocupado, conservador e trabalhando 12 horas por dia. Mas, para minha surpresa, ele quis tentar”, relatou a médica.

Mesmo com receios sobre possíveis resistências, dra. Chloe decidiu avançar com o tratamento. Dois anos depois, o juiz segue utilizando o esquema injetável com cabotegravir e rilpivirina, com resultados positivos e alta satisfação. Segundo Orkin, ele faz questão de repetir a cada consulta o quanto se sente bem com a nova rotina. “Esse paciente me mostrou que eu não sei quem vai querer esse tipo de tratamento. Precisamos estar abertos às escolhas das pessoas”, disse.

A médica fez ainda um apelo pela equidade: “Os injetáveis precisam estar disponíveis em todos os lugares, com justiça. Não podem ser um privilégio de poucos países.”

Novos rumos no combate ao HIV

As falas no HIV Leaders mostraram que a evolução no tratamento passa por dois grandes eixos: a *simplificação, com esquemas duplos eficazes e seguros, e a **inovação*, com injetáveis de longa duração.

“Estamos em uma era em que qualidade de vida é central. Não basta controlar o vírus: é preciso pensar no envelhecimento da população com HIV, nos efeitos colaterais a longo prazo e na adesão”, concluiu Dr. Estevão Portela.

Chloe Orkin reforçou a necessidade de ouvir as pessoas vivendo com HIV: “Os injetáveis mostram que precisamos respeitar a experiência de cada paciente. Não se trata apenas de eficácia clínica, mas também de qualidade de vida e liberdade.”

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

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