No Setembro Amarelo, campanha dedicada à prevenção do suicídio e à valorização da vida, falar sobre saúde mental se torna essencial. Mas a discussão vai além: para pessoas vivendo com HIV, a mente e o corpo estão profundamente conectados, e o acolhimento é tão importante quanto os medicamentos. Psicólogos e infectologistas concordam que o estigma, a solidão e o silêncio podem ser tão nocivos quanto a própria doença — e que a prevenção, seja combinada ou emocional, é um caminho para viver com mais qualidade.
A Organização Mundial da Saúde alerta: o suicídio é a quarta causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. Nesse cenário, especialistas reforçam que falar de saúde sexual também é falar de saúde mental — e que ambas são inseparáveis.
Para entender como esses temas se conectam, a Agência Aids conversou com a psicóloga e psicanalista Fabiana Guntovitch e com o infectologista Dr. Lucas Rocker, que atua no CRT Santa Cruz e no Hospital Emílio Ribas. Juntos, eles trazem visões complementares: o olhar psicológico sobre acolhimento e autoestima, e a perspectiva clínica sobre prevenção e adesão ao tratamento.
Saúde mental e saúde sexual: dois lados da mesma moeda
Fabiana lembra que não há como separar as duas dimensões:
“Não existe saúde mental se a saúde sexual não está bem. E, normalmente, quando a saúde sexual não está bem, a saúde mental também não está. Elas se impactam bilateralmente.”

Fabiana Guntovitch | Foto: Acervo Pessoal
Ela explica que cuidar da sexualidade é também cuidar da psique:
“Quando a gente se relaciona de uma maneira displicente, irresponsável, sem cuidado, a gente não está cuidando da gente. Não só do corpo, mas da psique mesmo.”
O infectologista Dr. Lucas reforça a visão clínica dessa conexão. Segundo ele, transtornos mentais são barreiras diretas à adesão ao tratamento:
“Diagnósticos de saúde mental e sofrimento mental são, sim, uma barreira na adesão do tratamento. Infelizmente, ainda temos muito estigma e preconceito, e isso afeta diretamente a saúde mental das pessoas vivendo com HIV.”
Estigma, preconceito e silêncio
O estigma é apontado por ambos como um dos maiores inimigos. Fabiana o descreve como algo que desorganiza todo o equilíbrio biopsicossocial:
“Quando o ambiente é tóxico, ele desequilibra toda a equação. Não adianta colocar só em terapia se o ambiente continua sendo excludente, preconceituoso. Essa pessoa não terá paz com ela mesma.”
Ela alerta também para o peso do silêncio:
“Quando existe estigma e você não pode falar sobre uma parte relevante da sua vida, você invalida sua própria existência. Como se não pudesse ser parte da sociedade. Isso é uma crueldade sem tamanho.”
Dr. Lucas concorda que o preconceito é um fator desencadeante de sofrimento:
“O estigma é um desencadeante muito importante na saúde mental, no autocuidado, no isolamento social — e tudo isso leva a um pior desfecho em saúde, não só mental, mas física também.”

Dr. Lucas Rocker | Foto: Acervo Pessoal
Solidão, isolamento e seus efeitos
A solidão aparece como um dos maiores desafios. Fabiana destaca que o isolamento impede que as pessoas encontrem apoio:
“Muitos evitam falar para não correr o risco de sofrer violência de novo. Mas, ao se calar, abrem mão da oportunidade de serem acolhidos. E o ser humano não vive bem em isolamento. Nós precisamos de conexões humanas.”
Do lado clínico, Dr. Lucas traz dados de estudos:
“Pessoas mais solitárias têm uma tendência maior a beber, fumar e usar drogas. Solidão e isolamento social têm impacto até em risco cardiovascular, porque influenciam comportamentos como sedentarismo e dieta ruim.”
Prevenção combinada como aliada da mente
A prevenção combinada — que reúne PrEP, PEP, preservativos, autotestes e outras ferramentas — aparece não apenas como forma de proteção física, mas também de segurança emocional.
“Na minha prática, vejo que quem usa PrEP ganha uma segurança muito grande. Isso ajuda a reduzir a ansiedade relacionada ao medo de infecções sexualmente transmissíveis”, afirma Dr. Lucas.

A mandala da prevenção funciona como uma ferramenta de diálogo, ajudando profissionais de saúde e a população a compreenderem que a prevenção é diversa, acessível e personalizada.
Fabiana complementa:
“Cuidar da saúde sexual, usar métodos de prevenção, fazer exames periódicos e ter diálogo aberto reduzem a ansiedade e fortalecem a autoestima.”
Acolhimento e valorização da vida
O Setembro Amarelo, para os dois especialistas, é oportunidade de intensificar esse diálogo. Dr. Lucas ressalta que saúde mental e HIV precisam ser tratados juntos:
“A oportunidade do Setembro Amarelo é intensificar a conversa, desmistificar a saúde mental e melhorar o acesso. Saúde mental é realidade, tem prevalência altíssima de transtornos, e precisa ser discutida o ano todo.”
Fabiana reforça com uma mensagem de esperança:
“Enquanto há vida, há esperança. Não há nada que cure mais do que o amor. O amor próprio precisa ser incondicional, não importa se eu tenho HIV, se eu não tenho um trabalho, se eu não tenho um relacionamento. É a partir desse amor que conseguimos nos conectar melhor com os outros.”
Mensagem final
No Setembro Amarelo, lembrar que saúde mental e saúde sexual caminham juntas é essencial. O estigma e o silêncio ainda são barreiras, mas o acolhimento e a prevenção combinada surgem como pontes para uma vida plena. Como resume Dr. Lucas, o cuidado precisa ser “quase como uma relação de amizade” entre paciente e serviço de saúde.

Saiba onde buscar ajuda | Foto: Freepik
E, como conclui Fabiana, “toda vida vale a pena, e é o amor — por si e pelos outros — que abre caminhos para viver com dignidade e esperança.”
Como Procurar Ajuda para a Saúde Mental no Brasil
Se você ou alguém próximo está enfrentando ansiedade, depressão ou qualquer outra dificuldade emocional, saiba que você não está sozinho – e existem muitos caminhos gratuitos para encontrar apoio no Brasil.
1. Consulte o Mapa da Saúde Mental
Quer saber onde encontrar ajuda perto de você? O Mapa da Saúde Mental é uma plataforma online do SUS que mostra os serviços públicos disponíveis na sua região. Uma ótima maneira de descobrir CAPS, UBS e outros centros de atendimento próximos.
2. Busque um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)
Os CAPS são espaços de cuidado especializado para pessoas que enfrentam transtornos mentais graves e persistentes. Lá você encontra atendimento psicológico, psiquiátrico e atividades em grupo para acolhimento e reinserção social.
3. Ligue para o CVV (188)
Se você precisa desabafar ou está em sofrimento emocional, o Centro de Valorização da Vida atende 24 horas, todos os dias, de forma sigilosa e gratuita. Basta ligar para 188 ou clicar aqui.
4. Conte com ONGs e Instituições de Apoio
Diversas organizações oferecem escuta, grupos de apoio e até terapia a preços acessíveis ou gratuitamente. Vale pesquisar no seu bairro ou cidade – muitas vezes o acolhimento começa na sua própria comunidade.
5. Em Emergências, acione o SAMU (192)
Se houver risco imediato para a sua vida ou a de outra pessoa, ligue para o 192. O SAMU oferece atendimento de urgência, incluindo suporte psiquiátrico em situações graves.
Outros Serviços do SUS para Saúde Mental
Além dessas opções, o SUS conta com uma rede completa:
- UBS (Unidades Básicas de Saúde): a porta de entrada para triagem e encaminhamentos.
- Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT): casas de acolhimento para pessoas que perderam o vínculo familiar.
- Unidades de Acolhimento: para quem está em situação de vulnerabilidade.
- Serviços Ambulatoriais Especializados: acompanhamento para quem não precisa de internação.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dicas de entrevista
Fabiana Guntovitch
Instagram: fabianaguntovitch
Dr. Lucas Rocker
Instagram: lucasrockerinfecto
CRT Santa Cruz
Telefone: (11) 5087-9911



