
“Qual a diferença entre HIV e aids? É possível contrair ISTs através do sexo oral? Quais são os sintomas?” Essas são dúvidas sinceras de quem busca por respostas que ainda não chegam como deveriam.
Quando o assunto é HIV, muitas perguntas ainda circulam entre adolescentes e jovens adultos — nas redes sociais, nas conversas entre amigos ou no silêncio de quem tem medo de perguntar. E enquanto o número de novas infecções nessa faixa etária continua crescendo, a resposta mais repetida ainda é “use camisinha”. Mas a prevenção hoje vai muito além disso.
Combinando diferentes estratégias — como o uso de preservativos, a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), a PEP (Profilaxia Pós-Exposição), a testagem regular e o tratamento para quem vive com HIV — é possível viver o sexo com mais liberdade e menos medo.
Pensando nisso, a Agência Aids reuniu dúvidas reais de jovens e convidou o infectologista e ativista social Dr. Mateus Ettori Cardoso para respondê-las com clareza, empatia e informação segura.

O médico infectologista Dr. Mateus Ettori Cardoso | Reprodução
Confira a seguir:

Enzo Zambrano, 21 anos, Montador Automotivo
Qualquer pessoa pode fazer uso da PReP?
A Profilaxia Pré-Exposição, mais conhecida como PrEP, é um dos avanços significativos na prevenção do HIV. É uma ferramenta indicada para quem ainda não vive com HIV/Aids.
Disponível no SUS desde 2018, ainda há um desencontro de informações quando o assunto é prevenção combinada. Atualmente pode ser utilizada diariamente ou na forma sob demanda, a qual tem critérios, e prescrita por várias categorias de profissionais (enfermeiros, farmacêuticos, médicos).
Existe ainda a PrEP injetável, a qual apesar de aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda não foi incorporado no Sistema Único de Saúde (SUS).
Hoje, qualquer pessoa que tenha peso superior a 35 kg e acima 15 anos pode usufruir da medicação.
Vale lembrar que o objetivo da PrEP é impedir que o HIV se estabeleça no corpo caso a pessoa tenha contato com o vírus e não protege contra outras ISTs.
Mesmo tomando todos os cuidados durante uma relação sexual, é possível contrair HIV?
Nada é 100% perfeito sozinho, mas juntos, os métodos se reforçam. A prevenção combinada é o uso de vários métodos juntos para reduzir o risco de ISTs incluindo o HIV. Envolve:
• Uso de camisinha (preservativo externo e interno);
• Uso da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) e PEP (Profilaxia Pós-Exposição);
• Testagem regular e tratamento, quando necessário, de ISTs.;
• Tratamento para pessoas que vivem com HIV (TARV);
Quando esses métodos são usados corretamente e de forma contínua, o risco de contrair o HIV diminui muito, mas ainda existe uma chance, mesmo que pequena, se:
• A PrEP não for tomada corretamente;
• O preservativo não for utilizado, romper ou sair durante a relação;
• A parceria desconhece o diagnóstico do HIV e não está em tratamento;
Existem outros métodos preventivos parecidos com a PReP para outras ISTs?
Existe um outro método sendo testado para evitar ISTs como sífilis e gonorreia. Ele se chama DoxyPEP.
Funciona assim: depois de uma relação sexual sem proteção, a pessoa toma um comprimido de um antibiótico chamado doxiciclina, e isso pode ajudar a impedir que ela pegue sífilis, clamídia ou gonorreia.
Estudos internacionais mostraram redução significativa dessas ISTs em populações-chave, como homens que fazem sexo com homens (HSH) e pessoas trans.
Apesar de já estar em uso em alguns lugares, o Ministério ainda está estudando se vai liberar esse método no SUS, porque os pesquisadores ainda estão vendo os efeitos a longo prazo, como o risco de criar bactérias resistentes. Especialistas envolvidos na discussão, acreditam que novidades serão divulgadas ainda em 2025.
Ou seja: não está liberado ainda, mas diversos especialistas acreditam que em breve tenhamos mais uma opção para se cuidar — especialmente para quem tem mais risco de pegar IST.

Fábio Gonçalves, 19 anos, Estagiário de Jornalismo
É possível contrair o vírus do HIV a partir do sexo oral?
Sim, o HIV pode ocorrer pelo sexo oral, mas o risco é bem pequeno. Alguns estudos estimam que varia de 0 a 0,04% por ato. Mas esse risco pode aumentar se:
• A pessoa tiver machucados na boca (tipo aftas ou sangramento na gengiva);
• Houver ejaculação na boca;
• A pessoa com HIV não estiver em tratamento e com carga viral alta;
• Existirem outras ISTs;
Por que dizem que a comunidade LGBT é a maior receptora da AIDS e HIV?
Dizem isso porque, infelizmente, a comunidade LGBT ainda enfrenta mais dificuldades para se proteger e acessar o cuidado de saúde. São vários motivos:
• Maior exposição a relações sem proteção devido à falta de acesso à informação e serviços de saúde adequados;
• Discriminação e estigma, que dificultam o acesso a testes, tratamento e prevenção;
• Violência e exclusão social, que colocam essas populações em situações de risco;
• Fatores biológicos, como o sexo anal receptivo (mais comum entre homens que fazem sexo com homens), que tem maior risco de transmissão do HIV;
• Histórico da epidemia, que desde os anos 80 afetou duramente a população LGBT, o que aumentou a vigilância sobre esses grupos;
Segundo dados do Ministério da Saúde e da UNAIDS, a taxa de infecção entre homens que fazem sexo com homens (HSH) e mulheres trans ainda é desproporcionalmente maior do que em outros grupos — mas isso não significa que outras pessoas estejam imunes. É fundamental lembrar: o HIV pode atingir qualquer pessoa, independentemente da orientação sexual ou identidade de gênero. O que muda são as condições sociais e de acesso à prevenção.
Qual é o tratamento mais eficaz contra AIDS e HIV?
O tratamento mais eficaz é a terapia antirretroviral. Consiste no uso de medicamentos que impedem a multiplicação do HIV no organismo.
Esse remédio não cura o HIV, mas ele impede o vírus de se espalhar no corpo e protege o sistema de defesa (imunológico). E o melhor: esse tratamento é de graça pelo SUS!
A pessoa deve fazer consultas regulares com infectologista (geralmente a cada 3 a 6 meses), onde são feitos exames de carga viral e CD4, para acompanhar se o vírus está indetectável e como está o sistema imunológico.
Se a carga viral ficar indetectável (tão baixa que nem aparece no exame), a pessoa não transmite HIV nem mesmo no sexo sem camisinha. Isso é o que chamam de “indetectável=intransmissível” ou atualmente “indetectável=0”

Jennifer Souza, 22 anos, Estudante
Quais estratégias uma pessoa com HIV pode utilizar para abordar o tema com parceiros sexuais ou românticos?
Falar sobre o diagnóstico de HIV com um parceiro é uma decisão muito pessoal e não existe uma fórmula única que funcione para todo mundo. É importante lembrar: a pessoa que vive com HIV tem o direito à privacidade (não existe obrigatoriedade de contar), mas também é importante promover relações baseadas no cuidado e no diálogo honesto.
Algumas estratégias que sugiro no atendimento incluem:
• Escolher o momento certo, em um ambiente seguro, íntimo e sem pressa;
• Verificar o conhecimento da pessoa, falando sobre o tratamento, o uso da TARV e explicar que, estando com o HIV indetectável, ela não transmite o vírus (I=I);
• Levar material informativo, compartilhar vídeos ou campanhas que explicam o que é viver com HIV hoje;
• Buscar ajuda de profissionais de saúde ou grupos de apoio, que podem orientar e até acompanhar esse momento;
Hoje, muitos influenciadores e ativistas ajudam a normalizar a conversa sobre HIV, mostrando que é possível viver, amar, transar, casar e ser feliz com HIV.
Como as pessoas que vivem com HIV lidam com o conceito de ‘sexo seguro’ no dia a dia?
Pessoas que vivem com HIV podem ter uma vida sexual ativa, saudável e segura — inclusive sem transmitir o vírus. Isso é possível graças a avanços no tratamento.
O principal conceito é o I=I (Indetectável=Intransmissível): quem vive com HIV, faz tratamento corretamente e mantém a carga viral indetectável, não transmite o vírus por via sexual, mesmo sem camisinha. É um dado científico reconhecido por instituições como a OMS, CDC e Ministério da Saúde.
Mas a ideia de sexo seguro vai além do HIV, por isso muitas vezes indicamos outros métodos da prevenção combinada
Ou seja, o sexo seguro não é só sobre não transmitir HIV, mas também sobre prazer com responsabilidade, escolha, consentimento e respeito mútuo.
Como é o tratamento pelo SUS?
Você vai ao posto de saúde ou ao centro de referência, faz os exames e, se confirmar o diagnóstico, já pode começar o tratamento. O tratamento do HIV no Brasil é oferecido gratuitamente pelo SUS e inclui:
• Medicamentos antirretrovirais (TARV);
• Consultas médicas regulares normalmente a cada 3 a 6 meses, para acompanhar a saúde da pessoa e ajustar o tratamento, se necessário;
• Exames de rotina: para avaliar se o vírus está controlado e como está o sistema de defesa do corpo;
• Apoio multiprofissional;
• Distribuição de insumos de prevenção;
Já observei quando trabalhei no Instituto da Mulher e Gestante que grande incidência de casos são de jovens adolescentes infectadas pelos seus parceiros em relações extraconjugais. Como podemos lidar com tais situações e minimiza-las?
Relações extraconjugais podem aumentar o risco de transmissão do HIV e outras ISTs. Para lidar e minimizar esses riscos, o fundamental é investir em:
• Educação sexual ampla e sem tabus, para saber como se proteger e conversar com os parceiros;
• Uso de métodos combinados de prevenção, como camisinha, PrEP para pessoas em maior risco, e TARV para quem vive com HIV (indetectável=intransmissível);

Jean de Souza, 28 anos, Auxiliar Operacional
Há algum outro modo de transmissão do HIV sem ser pelo ato sexual?
Sim, o HIV pode ser transmitido por outras formas além do sexo, mas todas envolvem o contato direto com fluidos corporais infectados, como sangue, sêmen, fluidos vaginais e leite materno.:
• Compartilhamento de seringas, agulhas ou outros materiais cortantes contaminados (exemplo: uso de drogas injetáveis);
• Transfusão de sangue ou transplante de órgãos que não foram testados adequadamente;
• Durante a gestação ou parto se não estiver em tratamento;
• Durante aleitamento materno;
Importante: O HIV não é transmitido por beijo, abraço, aperto de mão, suor, saliva, tosse, espirro ou uso compartilhado de utensílios domésticos. Também não se transmite por insetos, como mosquitos.
Quais os primeiros sintomas que se apresentam quando se contrai o HIV?
Nos primeiros dias ou semanas após a infecção, podem surgir sintomas semelhantes aos de uma gripe, como febre, dor de garganta, cansaço e manchas vermelhas na pele. Esse período é chamado de infecção aguda. Muitas pessoas podem não apresentar sintomas na fase inicial ou sintomas leves que não percebem.

Isabela Roggero, 27 anos, Neuroeducadora
O que é a AIDS e como ela se relaciona com o HIV?
HIV é o vírus que causa a infecção no organismo. Quando uma pessoa contrai o HIV, o vírus começa a atacar as células do sistema imunológico, que são responsáveis por proteger o corpo contra doenças.
Se o HIV não for tratado, ele vai destruindo essas células e, com o tempo, o sistema imunológico fica muito fraco. Quando isso acontece, a pessoa pode desenvolver várias doenças oportunistas e é nessa fase que se diz que ela tem AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida).
Ou seja: O HIV é o vírus; e a AIDS é a doença que pode surgir quando o vírus não é tratado.
Onde posso fazer o teste de HIV?
O teste de HIV pode ser feito gratuitamente em muitos lugares pelo Brasil, principalmente:
• Unidades Básicas de Saúde (UBS);
• Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA);
• Centros de Referência em IST/AIDS;
• Hospitais públicos e clínicas especializadas;
• Ações extramuros, como campanhas em escolas, universidades, festas, centros comunitários e eventos de prevenção;
Como posso saber se tenho uma IST?
Muitas ISTs podem não apresentar sintomas nos primeiros dias ou semanas, por isso o jeito mais seguro de saber é passando por avaliação com profissional e as vezes realizando testagem. Alguns sinais que podem indicar uma IST são:
• Coceira, ardor ou irritação na área genital;
• Secreção diferente do habitual (corrimento, pus);
• Dor ou ardência ao urinar;
• Feridas, bolinhas, manchas ou lesões na região genital, anal ou na boca;
• Dor durante a relação sexual;
• Sangramento fora do período menstrual;
Existe vacina para alguma IST, tal qual para o HPV?
Além do HPV, existem vacinas para outras doenças que podem ser transmitidas sexualmente, como a hepatite B e hepatite A, que também é oferecida pelo SUS desde a infância. Para outras ISTs não existem vacinas.

Leonel Flores, 22 anos, Estagiário de Economia
Como é a rotina de alguém que vive com AIDS? Como a vida dessa pessoa pode ser diferente da vida de alguém que não tem AIDS?
Hoje, graças aos avanços no tratamento, muitas pessoas que vivem com HIV (mesmo as que já desenvolveram AIDS) conseguem levar uma vida normal, saudável e com qualidade. A rotina inclui:
• Tomar os medicamentos antirretrovirais (TARV) todos os dias, sem faltar, para controlar o vírus e manter a carga viral indetectável;
• Fazer consultas regulares com o médico para acompanhar a saúde e ajustar o tratamento, se necessário;
• Realizar exames periódicos para monitorar o funcionamento do organismo;
• Manter hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada, exercícios;
• Ter cuidados emocionais e apoio social;
Com o tratamento correto, a pessoa:
• Tem o vírus controlado a ponto de não transmiti-lo para outras pessoas;
• Pode trabalhar, estudar, namorar, casar e ter uma vida sexual ativa e segura;
• Pode gestar e ter filhos sem transmitir o vírus para o bebê, quando acompanhada adequadamente pelo serviço de saúde;
Como está, atualmente, o risco de contração das ISTs? Quais práticas sexuais são mais/menos favoráveis à contração?
HIV: Apesar dos avanços no tratamento e prevenção, o número de novas infecções ainda é significativo, especialmente entre jovens de 15 a 29 anos. A transmissão ocorre principalmente por via sexual, sendo o sexo anal receptivo a prática com maior risco.
Sífilis: Os casos de sífilis têm aumentado nos últimos anos, atingindo níveis preocupantes. A sífilis congênita, transmitida da mãe para o bebê, também é um problema de saúde pública. A transmissão se dá por contato direto com lesões, principalmente durante sexo vaginal, anal e oral sem proteção.
Fatores que aumentam o risco:
• Não usar camisinha regularmente e corretamente;
• Ter múltiplos parceiros sexuais;
• Falta de testagem e tratamento das ISTs;
Práticas sexuais e risco:
• Sexo anal: Apresenta o maior risco para transmissão do HIV devido à fragilidade da mucosa e maior chance de lesões;
• Sexo oral: Tem risco menor para HIV, mas pode transmitir outras ISTs, como sífilis, gonorreia, clamídia, HPV e herpes;

Emilly Alves, 18 anos
Quais das infecções sexualmente transmissíveis pode ser passada pelo sexo oral?
O sexo oral pode transmitir diversas ISTs: HIV, Sífilis, Gonorreia, Clamídia, Herpes simples (HSV-1 e HSV-2), HPV (Papilomavírus Humano), entre oturas.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Dr. Mateus Ettori Cardoso
E-mail: mateus.cardoso@crt.saude.sp.gov.br
Instagram: @mateus.cardoso43



