
Na tarde desta quinta-feira (14), o Unaids Brasil promoveu o webinário “Brasil e o Poder de Transformar: experiências nacionais no Relatório Global sobre Aids 2025”, reunindo especialistas, pesquisadores, representantes do governo e da sociedade civil. O encontro buscou compartilhar informações do relatório global lançado em julho, apresentar experiências brasileiras citadas no documento e debater os principais desafios para cumprir a meta de acabar com a aids como ameaça à saúde pública até 2030.
O Relatório Global sobre Aids 2025 acende um alerta: a rápida queda no financiamento internacional ameaça reverter avanços conquistados ao longo de décadas. Entre 2010 e 2024, a América Latina e o Caribe registraram aumento de 13% nas novas infecções por HIV — na contramão de outras regiões. El Salvador, Guatemala, Peru, Venezuela e o próprio Brasil registraram crescimento consistente desde 2015. Outro dado preocupante: 26% das novas infecções na região ocorrem entre jovens de 15 a 24 anos, sendo 77% entre homens jovens.
No Brasil, o documento cita duas experiências de destaque: o projeto piloto Trans Amigas, que mostrou que mulheres trans acompanhadas por outras mulheres trans tiveram 40% mais chance de permanecer em tratamento para HIV após nove meses; e o estudo sobre o impacto do Bolsa Família, que revelou redução de 41% na incidência e 39% na mortalidade por aids entre beneficiários.
Equidade e combate ao estigma

A diretora e representante do Unaids no Brasil, Andrea Boccardi Vidarte, destacou o papel do país na defesa de políticas baseadas em direitos humanos e alertou para a persistência do estigma.
“Globalmente, ocorreram interrupções em toda a resposta a HIV, em função do recorte de financiamento internacional para a resposta de aids. Dito isso, seis países relataram quedas no número de pessoas que iniciaram ou reiniciaram a terapia antirretroviral, o que é um indicador da interrupção dos serviços. Muito preocupante.
Felizmente, no Brasil, o SUS garante por lei que todas as pessoas tenham acesso a prevenção, diagnóstico, tratamento e serviços especializados para HIV. Isso demonstra como o Brasil pode inspirar outros países, colocando os direitos das pessoas no centro da resposta. Podemos ainda ter um caminho muito desafiador pela frente, em especial para confrontar o preconceito, estigma e discriminação.”
Cenário global e regional: crise de financiamento e oportunidades

A diretora regional do Unaids para América Latina e Caribe, Luiza Cabal, apresentou o panorama da região e destacou o papel histórico do Brasil.
“Lamentavelmente, vivemos hoje uma tormenta a nível mundial: recortes de financiamento, uma crise de prevenção com aumento de novas infecções, que se somam às barreiras estruturais históricas na nossa região, tais como desigualdades, estigma, discriminação, racismo e violência de gênero, que cobram vidas tanto quanto o HIV.
Mas, no meio de tantos desafios, há também ferramentas, soluções e caminhos possíveis que nos permitem vislumbrar a transformação e a oportunidade histórica que devemos assumir para mudar o caminho até 2030. O informe mais recente do Unaids nos lembra que, no final de 2024, o mundo estava avançando: as novas infecções por HIV tinham caído 40% e as mortes relacionadas à aids, 56% desde 2010. Mas a rápida queda no financiamento global lançou uma crise.
Na nossa região, essa crise pode reverter duas décadas de avanços, especialmente nas áreas que dependiam de recursos externos, como prevenção para populações-chave e serviços para imigrantes. Temos um aumento de 13% de novas infecções desde 2010 em países como México, Peru e Brasil.
Os avanços em prevenção, como a PrEP e, especialmente, os injetáveis de longa duração, representam uma oportunidade inegável, mas só serão efetivos se forem acessíveis. Isso exige decisões políticas firmes. O Brasil já nos mostrou, no passado, como tomar ações valentes para garantir acesso a medicamentos, e precisamos de sua liderança para impulsionar mudanças.
Sem as comunidades, não estaríamos aqui. Durante a Covid-19, quando os sistemas colapsavam, foram elas que garantiram a continuidade do tratamento. Hoje, essas respostas estão em perigo por falta de financiamento, pouca integração formal e persistência do estigma. Populações-chave representam 66% das novas infecções na América Latina, e temos que dar resposta a esta pandemia de discriminação.”
Desafios nacionais: defender o SUS e reduzir desigualdades

O coordenador-geral de HIV e Aids do Ministério da Saúde, Artur Kalichman, fez um alerta sobre ameaças políticas e estruturais.
“Estamos vivendo um momento muito difícil e desafiador. Há muito tempo não víamos uma situação tão ruim para garantir a resposta à aids. Ou os países financiam sua própria resposta ou enfrentaremos um cenário trágico”, afirmou.
Segundo. o gestor, “o SUS é fruto da redemocratização e garante o direito à saúde, mas há forças políticas que atacam dois pilares: o financiamento e o combate à discriminação. Nosso desafio é garantir que novas tecnologias, como a PrEP injetável, cheguem a quem não está sendo alcançado pela PrEP oral. As desigualdades não são tecnológicas, são sociais.”
Dr. Arthur reconheceu que apesar dos avanços, “temos desigualdades regionais profundas. A média nacional de 4 pessoas em PrEP para cada novo diagnóstico de HIV esconde realidades no Norte e Nordeste abaixo de 3 para 1. É fundamental inovar para que quem não consegue chegar ao SUS consiga ser alcançado, e para que ninguém fique para trás.”
Experiência comunitária: Trans Amigas

A pesquisadora Maria Amélia Veras, da Santa Casa de São Paulo, apresentou os resultados do projeto Trans Amigas.
“Travestis e mulheres trans vivem altas prevalências de HIV e enfrentam múltiplas barreiras, como discriminação, instabilidade econômica e desigualdade no acesso ao cuidado. O projeto piloto Trans Amigas usou a navegação por pares com enfoque na afirmação de gênero.”
A especialista contou que as participantes que receberam a navegação tiveram 40% mais chance de permanecer em tratamento após nove meses. “Houve alta satisfação, com relatos de apoio emocional e fortalecimento da autoestima. Mas barreiras estruturais, como violência de gênero — vivida por mais de 80% das participantes — e dificuldades socioeconômicas, ainda impactam a adesão.”
Para ela, “programas culturalmente adaptados são viáveis e podem melhorar o estado de saúde dessa população. A afirmação de gênero é um determinante de saúde e deve ser integrada ao cuidado.”
Impacto social: Bolsa Família

Andréa Ferreira da Silva, da Universidade Regional do Cariri e da Fiocruz, apresentou o estudo sobre o Bolsa Família. “Entre beneficiários, a taxa de incidência de aids foi 41% menor, a mortalidade 39% menor e a letalidade 25% menor do que entre não beneficiários. O impacto foi maior no quartil mais pobre e entre mulheres negras com maior escolaridade.”
A pesquisadora explicou que o “Bolsa Família não é só transferência de renda, mas também condicionantes que ampliam o acesso a serviços de saúde e educação. Programas de transferência de renda condicionada têm potencial para reduzir vulnerabilidades e desigualdades associadas ao HIV.”
O papel da sociedade civil
Durante o encontro, diversos participantes reforçaram a importância da sociedade civil na adaptação e aplicação do relatório global em nível local, destacando o papel crucial das comunidades na tradução dos dados e na articulação com diferentes setores — como saúde, educação e justiça.
Houve também críticas à falta de recursos e à necessidade de estratégias mais eficazes para alcançar populações vulnerabilizadas, como pessoas em situação de rua e usuários de álcool e outras drogas.
O coordenador-geral de HIV e Aids do Ministério da Saúde, Artur Kalichman, comentou sobre a responsabilidade compartilhada na definição e monitoramento de recursos:
Segundo ele, a definição de recursos e o monitoramento dependem também de instâncias estaduais e municipais, e não há solução única para ampliar o acesso e a prevenção, sendo essencial o compromisso com o SUS e políticas de transferência de renda.
Na parte final, Veriano Terto, vice-presidente da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids) fez um desabafo contundente:
“Embora seja importante celebrar avanços, não é possível sustentar o discurso de que a epidemia de aids será encerrada até 2030 diante da gravidade das crises e cortes de financiamento. Isso pra mim é esquizofrênico.”
Ele alertou que “faltam recursos, há fechamento de serviços e problemas estruturais graves” e criticou o uso superficial da expressão a sociedade civil é importante sem garantia de recursos para sua atuação. “A nossa história é uma evidência científica”, reforçou, destacando que o relatório “não é só pra informar, ele deve servir pra mobilizar”.
Veriano afirmou que é preciso falar claramente sobre os retrocessos, pois “avanços sem sustentabilidade estão em risco”. Ele lembrou que, em 1999, “ataques externos só foram superados graças à mobilização” e concluiu defendendo que, neste momento, “mobilização e enfrentamento são indispensáveis para avançar”.
O encontro deixou claro que, apesar dos avanços reconhecidos internacionalmente, o Brasil e a América Latina vivem um momento decisivo na resposta ao HIV. Entre dados preocupantes, experiências inspiradoras e alertas contundentes, o recado foi unânime: sem financiamento adequado, enfrentamento ao estigma e fortalecimento do SUS, as metas para 2030 correm sério risco. A história já mostrou que a mobilização social é capaz de transformar cenários críticos — e, como reforçaram os participantes, esse é o momento de unir forças para que ninguém seja deixado para trás.
Redação da Agência de Notícias da Aids
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