HIV e envelhecimento: os desafios da prevenção e de viver com o vírus na terceira idade

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O número de idosos vivendo com HIV cresce no Brasil e no mundo, desafiando preconceitos e exigindo mais atenção da saúde pública. Entre 2011 e 2021, o total de pessoas com mais de 60 anos que testaram positivo para o vírus quadruplicou. Nesse período, foram 12.686 novos casos de HIV, 24.809 diagnósticos de Aids e 14.773 mortes nessa faixa etária, segundo dados do Ministério da Saúde.

Para entender melhor as dificuldades enfrentadas por essa população, a Agência Aids conversou com a dra. Gisele Gosuen, infectologista pelo Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Ela trabalha como infectologista na Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e também no CRT – Centro de Referência e Treinamento em ISTs do Estado de São Paulo. Além disso, atua com pessoas vivendo com HIV e aids há cerca de 25 anos.

“O número só vem aumentando, infelizmente. Muito pela falta de conhecimento das pessoas e pela redução das campanhas de prevenção. É como se a doença não existisse mais, ou não tivesse importância. Mas isso não é verdade. Ainda há pessoas morrendo de aids quando não há adesão ao tratamento e acompanhamento adequado”, avalia a médica.

A Dra. Gisele Cristina Gosuen

O envelhecimento com HIV

O fenômeno é mundial: 13% das pessoas vivendo com HIV têm mais de 50 anos, o que corresponde a 4,2 milhões de indivíduos, de acordo com o Unaids. No Brasil, essa realidade tem duas faces: idosos que contraíram o HIV ainda jovens e envelheceram com o vírus, e aqueles que receberam o diagnóstico já na terceira idade.

“Temos dois cenários: aqueles que adquiriram o HIV mais jovens e sobreviveram até a velhice, e aqueles que descobrem a infecção já mais velhos. Para os primeiros, o desafio é lidar com as doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão e diabetes, que antes nem chegávamos a ver porque as pessoas não sobreviviam tanto tempo. Já para os que recebem o diagnóstico mais tarde, o problema é a dificuldade de diagnóstico precoce: ninguém desconfia de HIV em um idoso, e quando ele chega ao hospital, muitas vezes já está em estágio avançado da doença”, explica Gosuen.

Ela também chama atenção para o estigma, que pesa mais nessa fase da vida:

“Você imagina uma pessoa que já se sente isolada e descobre um diagnóstico extremamente estigmatizante. Muitos têm medo de serem reconhecidos na unidade de saúde perto de casa e buscam atendimento em locais distantes. Mas aí surge a dificuldade de locomoção, de transporte, de custo. Isso só complica ainda mais a adesão”, acrescenta.

No ambulatório que coordena, Gisele encontrou uma forma de acolher:

“Montei um ambulatório específico para envelhecimento com HIV, em 2010, pensando em como eu gostaria de ser atendida na idade deles. Sirvo café da tarde, estimulo a convivência, trago familiares e amigos. Esse acolhimento faz diferença. As pessoas deixam de se sentir segregadas”, conta.

Foto no Dia Mundial de Luta contra Aids, no Ambulatório onde tudo começou

Família, redes de apoio e saúde mental

Além do tratamento clínico e do autocuidado, a presença de uma rede de apoio é determinante para o envelhecimento saudável com HIV. O acolhimento de familiares, cuidadores e amigos ajuda a reduzir o isolamento, favorece a adesão ao tratamento e garante suporte em momentos de fragilidade.

“Não dá para viver sozinho com um diagnóstico desses, principalmente na velhice. É fundamental ter alguém de confiança para dividir o diagnóstico, alguém que possa ajudar quando houver dificuldade de mobilidade, de alimentação, de banho. Essa rede faz toda a diferença”, ressalta Gosuen.

Ela destaca que o estigma e o preconceito interno também impactam a saúde mental. Muitos pacientes sentem vergonha e se isolam, o que pode levar à depressão. Por isso, o diálogo aberto, o acompanhamento psicológico e o estímulo a atividades sociais são peças-chave para a qualidade de vida.

“O idoso já é muito segregado na nossa sociedade, e com HIV isso se intensifica. A saúde mental precisa ser tratada como parte do cuidado. É preciso acolher, ouvir e mostrar que ninguém está sozinho”, afirma.

Autocuidado e qualidade de vida

Para a infectologista, o autocuidado vai além da adesão aos medicamentos.

“O primeiro preconceito que precisa ser quebrado é o próprio, interno. Não há vergonha em viver com HIV. É uma doença crônica como diabetes ou hipertensão. É importante ter alguém de confiança para compartilhar o diagnóstico, criar uma rede de apoio. Isso é fundamental para quando vierem dificuldades de mobilidade, de alimentação, de banho”, afirma.

Ela ressalta que o atendimento ao idoso com HIV exige mais tempo e escuta.

“Não dá para atender uma pessoa idosa que vive com HIV no mesmo tempo que se atende um jovem de 18 anos. A demanda é diferente, exige mais paciência, mais explicação, mais orientação. Eu tenho autonomia para deixar a consulta durar uma hora e meia, se for preciso. E deveria ser assim em todos os serviços”, defende.

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Prevenção esquecida

Apesar do aumento dos casos, a prevenção entre idosos segue invisibilizada. O uso de preservativos é baixo, e campanhas ainda têm foco quase exclusivo nos jovens.

“A ideia de prevenção está muito ligada à idade fértil, principalmente entre as mulheres. Muitos idosos pensam: ‘não corro mais risco porque não posso engravidar’. É uma ignorância achar que idoso não tem vida sexual. Muitos, após divórcios ou viuvez, têm relacionamentos tão frequentes quanto os jovens. Só que eles não se sentem em risco”, explica a infectologista.

Ela critica ainda as limitações da PrEP no Brasil:

“O protocolo só contempla alguns grupos considerados vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens e profissionais do sexo. Mas qualquer pessoa com comportamento de risco deveria ter acesso. E há ainda o problema do medicamento usado: o tenofovir pode afetar ossos e rins, o que não é adequado para idosos. A PrEP injetável já foi aprovada pela Anvisa, mas ainda não está disponível no SUS, e acredito que deve demorar por questões de custo”, alerta.

Por isso, ela reforça que a prevenção deve ser sempre combinada:

“A PrEP protege contra o HIV, mas não contra outras infecções como sífilis, clamídia ou HPV. Para essas, o preservativo ainda é fundamental. É preciso deixar claro que as estratégias se complementam, não se substituem”, completa.

Informação e testagem

Gosuen defende que a prevenção precisa chegar até onde os idosos estão.

“Seria importante levar o tema às unidades básicas de saúde, aos centros de referência do idoso, às igrejas, às rodas de conversa. Muitos nem sabem que podem pedir um exame de HIV, não sabem como funciona a prevenção. Quanto menos se fala, menos o idoso se sente incluído”, afirma.

Ela lembra de um episódio marcante no ambulatório:

“A parceira de um paciente não sabia o que era camisinha. Eu falava, explicava, e no fim ela perguntou: ‘o que é isso, doutora?’. Peguei preservativo masculino, feminino e uma banana para mostrar como se usava. É óbvio para muitos, mas não para todos. Esse tipo de orientação exige tempo e disponibilidade”, conta.

Preservativo externo (esquerda) e interno (direita) | Ilustração: Marta Pucci

Saúde integral e envelhecimento saudável

Além do tratamento, a infectologista destaca que envelhecer com qualidade envolve corpo, mente e ambiente.

“É preciso estimular o cérebro com leitura, palavras cruzadas, jogos; estimular o convívio social, porque isolamento adoece; incentivar a atividade física simples, como uma caminhada diária; e orientar sobre alimentação acessível, como aproveitar a xepa da feira para comer melhor. Também é importante adaptar a casa para evitar quedas e cuidar da saúde bucal”, orienta.

Ela explica que as mudanças devem ser feitas de forma paciente, sem imposição:

“É mostrar que aquela mudança vai ser melhor para ele, ir devagar, negociar, até que ele perceba os benefícios. É um trabalho de formiguinha, mas que dá resultado”, diz.

Uma mensagem final

Apesar dos desafios, a infectologista deixa um recado de esperança:

“É possível ter uma vida saudável vivendo com HIV. O importante é buscar informação de fontes seguras, perguntar sem vergonha, não acreditar em tudo que se lê. Informação é poder. Quanto mais informado o idoso estiver, mais condições terá de viver bem, com saúde e qualidade de vida”, conclui.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

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