Médico especialista explica formas de transmissão, testagem, tratamento, indetectabilidade e os avanços mais recentes na prevenção, com destaque para PrEP, PEP e a importância do preservativo.
A desinformação sobre HIV ainda circula com força, especialmente após períodos de maior exposição, como o Carnaval. Dúvidas sobre transmissão, sintomas, diferença entre HIV e aids, testagem e possibilidades de ter filhos seguem aparecendo nos consultórios e nas redes sociais.
Para esclarecer mitos e organizar informações confiáveis, a Agência Aids conversou com o médico infectologista e professor de infectologia da Faculdade de Medicina do ABC, Juvencio Furtado, que detalha o cenário atual da infecção, os avanços no tratamento e os cuidados que continuam sendo fundamentais.

Juvencio Furtado é ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (2008-2010). Possui experiência docente e em pesquisa clínica, tendo como áreas principais HIV/Aids, hepatites virais, imunizações e antimicrobianos.
O que realmente configura risco?
Segundo o especialista, é preciso separar risco real de medo exagerado.
“A principal forma de transmissão do HIV hoje é sexual. Sexo anal e vaginal são as duas principais formas de transmissão.”
Ele explica que o compartilhamento de seringas ainda é uma forma possível de transmissão, embora menos frequente atualmente. Já a transfusão de sangue é considerada extremamente segura.
“O banco de sangue hoje é um local bastante seguro em relação à transfusão de sangue.”
Sobre sexo oral, tema que frequentemente gera insegurança, ele pondera:
“Não há descrição de transmissão de HIV por sexo oral exclusivamente. Teoricamente é possível, mas na prática a gente vê isso quase nunca.”
Isso significa que o risco isolado é considerado muito baixo, especialmente quando comparado às práticas com penetração anal ou vaginal.
Já o compartilhamento de copos, talheres e objetos de uso cotidiano não transmite HIV.
“Não existe nenhum relato na literatura ou no mundo de transmissão por fômitos. Essa forma de transmissão não existe.”

Não há risco em contrair HIV compartilhando itens como copos e talheres
Sintomas: o que pode acontecer após a infecção
Nem toda pessoa recém-infectada terá sintomas, mas existe uma manifestação inicial possível, conhecida como fase aguda.
“Existe uma manifestação inicial, chamada HIV agudo, que pode ocorrer de 15 a 20 dias depois do contato.”
Ele descreve:
“Febre baixa, mal-estar, presença de linfonodos aumentados no pescoço, aumento pequeno do baço e alterações no hemograma. É o que a gente chama de síndrome mono-like, semelhante à mononucleose infecciosa.”
Sem tratamento, ao longo dos anos pode ocorrer comprometimento do sistema imunológico, com redução dos linfócitos TCD4. Isso pode abrir espaço para infecções oportunistas.
“A destruição dos linfócitos TCD4 progressivamente leva a uma redução significativa da resposta imunológica.”
Entre as possíveis doenças associadas estão pneumocistose, tuberculose reativada e meningite por criptococo.

Mulher se queixa de mal-estar
Quando testar e a confiabilidade dos exames
Hoje, os testes conseguem detectar a infecção de forma precoce.
“O teste de quinta geração pode detectar muito precocemente, 15, 20 dias depois do contato.”
Ele também cita os testes moleculares:
“Esses testes moleculares podem detectar pelo menos 15 dias depois, às vezes até menos do que isso.”
Além disso, há testes rápidos disponíveis nos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) e nas unidades de saúde, inclusive com possibilidade de testagem anônima.
“Quando dá positivo, se recomenda que procure um sistema de saúde para acompanhamento e iniciar o tratamento imediatamente.”

Teste para HIV em foto
Estar indetectável: o que isso realmente significa?
Um dos conceitos mais importantes no cenário atual é o da indetectabilidade.
“Com o início do tratamento, uma semana, duas, três, quatro semanas após o início, essa carga viral fica indetectável. Ou seja, não existe mais vírus circulando no sangue dessa pessoa.”
Ele explica que os exames têm um limite de detecção.
“Menos que 20 cópias é indetectável. Ou seja, essa pessoa não transmite o HIV de forma sexual.”
O tempo para atingir essa condição varia.
“Pode demorar duas semanas, pode demorar dois meses, três meses. Depende muito do indivíduo e da quantidade de vírus que ele possui.”
Imagem de divulgação do Ministério da Saúde
Como é o tratamento hoje?
O tratamento evoluiu de forma significativa nas últimas décadas.
“Nós temos hoje disponíveis no mercado em torno de 35 princípios ativos para utilização no tratamento.”
No Brasil, o esquema inicial mais utilizado inclui dois comprimidos diários.
“São remédios extremamente eficazes, com efeitos colaterais baixíssimos, quase nenhum efeito colateral. Fácil de tomar uma vez ao dia.”
Há ainda esquemas simplificados com um único comprimido diário, indicados em situações específicas.
“Existe simplificação terapêutica, é eficaz, mas tem que se saber para quem nós vamos simplificar.”

Os medicamentos antiretrovirais
PrEP, PEP e novas estratégias
A profilaxia pré-exposição, a PrEP, é indicada para quem não vive com HIV, mas pode se expor ao vírus.
“PrEP é profilaxia pré-exposição, ou seja, uma pessoa que não tem o vírus e que vai potencialmente se expor.”
Já a PEP é usada após uma possível exposição.
“Significa uma pessoa que se expôs ao vírus e toma medicamento por 28 a 30 dias, preferencialmente até no máximo 72 horas após a exposição.”
Ele destaca que os efeitos colaterais são geralmente leves.
“São baixíssimos os efeitos colaterais. É o mesmo remédio que a gente usa no tratamento.”
O médico também menciona a chamada DoxiPEP, voltada para redução do risco de sífilis, clamídia e gonorreia após exposição, mas faz um alerta sobre o uso indiscriminado.
“Se todo mundo que tiver uma relação desprotegida tomar doxiciclina, você passa a ter um grupo grande de pessoas tomando e pode subir no futuro a resistência bacteriana.”

Na imagem, a proifilaxia pré-exposição — PrEP.
HIV e aids: qual é a diferença?
“Isso é uma questão semântica.”
Ele explica que, hoje, utiliza-se “pessoas vivendo com HIV” para quem está em tratamento e com boa qualidade de vida.
“São pessoas saudáveis, que apenas tomam um comprimido por dia e têm uma vida absolutamente saudável.”
Já aids é o termo usado quando há imunocomprometimento e doenças oportunistas.
“A pessoa com aids é aquela pessoa que está doente, que tem infecções oportunistas.”
E pode haver reversão.
“É totalmente reversível, depende da doença associada e do tratamento adequado.”

O laço vermelho é o símbolo mundial da luta contra a aids
É possível ter filhos?
Sim.
Juvencio explica que, com carga viral indetectável, tanto homens quanto mulheres podem ter filhos com risco próximo de zero de transmissão.
“O casal tem que ter carga viral indetectável para poder pensar na possibilidade de procriação.”

Desde que mantenha-se a carga viral indetectável, mães e/ou pais podem ter filhos normalmente
O preservativo continua sendo importante
Apesar dos avanços, o infectologista faz um reforço final.
“Apesar de todo o arsenal de tratamento e prevenção, o preservativo ainda é uma medida protetiva muito importante.”
Ele lembra que há preservativos com maior sensibilidade e conforto.
“Existem preservativos extremamente bem feitos e que permitem uma sensibilidade sexual muito grande.”

O médico reforça a importãncia do uso dos preservativos externos ou internos sempre que possível dentro da realidade dos indivíduos
E conclui:
“Não pode ser esquecido o preservativo. Deve ser utilizado sempre que possível.”
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista:
Dr. Juvencio Furtado
Instagram: judualibe




