Quase 8 mil brasileiros com 50 anos ou mais receberam diagnóstico de aids em 2024, sendo 5.022 homens e 2.927 mulheres. O número não corresponde a novas infecções pelo HIV, já que a progressão para aids pode ocorrer anos após o contato com o vírus, mas revela um padrão que os dados epidemiológicos mais recentes tornam difícil de ignorar.
Entre 2014 e 2024, a proporção de mulheres com 50 anos ou mais entre os novos casos de infecção pelo HIV passou de 10,9% para 17,0%. Entre os homens da mesma faixa etária, o crescimento foi mais contido: de 7,6% para 9,0%. Na faixa de 60 anos ou mais, os casos de aids cresceram 46,2% no mesmo período, de 2.034 para 2.974.
Parte do problema tem raiz em um estereótipo clínico persistente. “Existe a ideia de que a função sexual desaparece com o envelhecimento. Ela pode mudar em intensidade e frequência, mas isso não significa que deixe de existir”, observa o Dr. Vinicius Borges, infectologista especializado em geriatria. Quando o profissional não pergunta sobre vida sexual, novos parceiros, uso de preservativos ou história de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), perde oportunidades de oferecer testagem, profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP), profilaxia pós-exposição (PEP) e outras medidas de prevenção combinadas.
Compreender o que está em jogo exige reconhecer que essa população não é homogênea. Nela estão sobreviventes dos primeiros anos da epidemia, expostos a longos períodos de replicação viral, imunossupressão grave e antirretrovirais mais tóxicos; pessoas que contraíram ou descobriram a infecção depois dos 50 anos; e adultos diagnosticados precocemente e tratados com os esquemas atuais.
“Não podemos reunir todas essas trajetórias em um único grupo. Uma pessoa que apresentou contagens muito baixas de [células] T CD4+ e usou medicamentos antigos por muitos anos é diferente daquela diagnosticada recentemente, tratada logo após a infecção e com pouco tempo de carga viral detectável”, diferencia a Dra. Mônica Gomes, presidente do Comitê Científico de HIV/Aids da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professora de infectologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Quem ainda pode ser infectado
“A dificuldade de conversar sobre sexualidade com pacientes mais velhos já é grande, mas costuma ser maior com as mulheres do que com os homens da mesma faixa etária”, aponta a Dra. Mônica. Após a menopausa, alterações hormonais, redução da lubrificação e mudanças na mucosa genital podem aumentar a vulnerabilidade à aquisição do HIV. Pessoas que passaram décadas em relações estáveis também podem retomar a vida afetiva após uma separação ou viuvez sem conhecer métodos de prevenção incorporados mais recentemente à assistência, como PrEP e PEP.
A consequência direta é que o risco passa sem ser investigado. No consultório, a história sexual precisa integrar a anamnese de pacientes mais velhos da mesma forma que integra a de qualquer outro. Questões sobre novos parceiros, métodos de prevenção e episódios recentes de ISTs ajudam a identificar exposições que muitas vezes não são relatadas espontaneamente. “Profissionais de saúde não devem presumir; devem perguntar. A sexualidade faz parte da história clínica e precisa ser abordada sem julgamentos”, resume o Dr. Vinicius.
Completar 50, 60 ou 70 anos não reduz, por si só, a indicação da PrEP. A avaliação deve considerar práticas sexuais, uso inconsistente de preservativos, ocorrência de ISTs, uso repetido de PEP, parceiros com HIV sem supressão viral e outros contextos que aumentem a possibilidade de exposição. “A idade não reduz a indicação. O que define a necessidade é a possibilidade de contato com o vírus e a estratégia de prevenção que melhor se adapta à vida daquela pessoa”, explica a Dra. Mônica.
O infectologista que acompanha a pessoa mais velha nem sempre é o primeiro ponto de contato. Consultas para controle da hipertensão, diabetes, vacinação ou acompanhamento ginecológico e urológico são oportunidades concretas para perguntar sobre exposição ao HIV, oferecer testagem e discutir prevenção. “É preciso procurar o paciente onde ele está. Em geral, essa pessoa não chega primeiro ao infectologista, mas aos profissionais que acompanham suas outras questões de saúde. Eles têm uma oportunidade valiosa de introduzir a prevenção sem associá-la a estereótipos”, ressalta a Dra. Mônica.
A PrEP oral disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), composta por fumarato de tenofovir desoproxila + entricitabina, pode ser utilizada por pessoas mais velhas que preencham os critérios de indicação e não apresentem contraindicações ao esquema. O protocolo brasileiro recomenda monitoramento semestral da função renal a partir dos 50 anos e para pessoas com fatores de risco para doença renal, além de cautela diante do uso concomitante ou recente de medicamentos nefrotóxicos. “Não podemos partir da ideia de que toda pessoa mais velha terá disfunção renal ou osteoporose. A PrEP oral pode ser usada com segurança, desde que haja avaliação adequada e monitoramento”, pondera a Dra. Mônica.
Preservativos, lubrificantes, PEP e testagem regular compõem a prevenção combinada. Para pessoas vivendo com HIV em uso de tratamento antirretroviral (TARV), a manutenção da carga viral abaixo de 200 cópias/mL impede a transmissão sexual do vírus.
Quando o diagnóstico chega tarde
Mesmo com as ferramentas de prevenção disponíveis, parte dessa população recebe o diagnóstico com a doença já avançada. Em pacientes mais velhos, pneumonia recorrente, perda de peso, alterações cognitivas e linfonodos aumentados podem ser atribuídos ao envelhecimento ou às doenças crônicas preexistentes antes que alguém considere infecção por HIV como hipótese. “Às vezes, uma pneumonia é interpretada apenas como uma infecção comum da idade. Episódios repetidos, perda de peso sem explicação e outras alterações da imunidade precisam incluir o HIV no diagnóstico diferencial”, alerta o Dr. Vinicius.
O custo do diagnóstico tardio vai além do controle virológico. Um estudo apresentado no congresso anual da European Society of Clinical Microbiology and Infectious Diseases (ESCMID) em 2026 avaliou o envelhecimento biológico de pessoas vivendo com HIV por meio de relógios epigenéticos — marcadores baseados em padrões de proteínas no plasma sanguíneo que medem a idade biológica independentemente da cronológica.
Os resultados indicam que pessoas não tratadas apresentavam idade biológica mediana 10 anos acima da cronológica. Após cerca de um ano e meio de TARV, essa diferença diminuiu 3,7 anos e continuou a cair com maior tempo de tratamento. Os resultados reforçam o que a prática clínica já indica: quanto mais cedo o diagnóstico e o início do tratamento, menor o acúmulo de danos.
Envelhecendo com HIV
Para as pessoas que chegaram ao diagnóstico precocemente e mantêm o vírus suprimido há anos, o centro do cuidado foi se deslocando. O HIV continua presente, mas deixou de ser a principal ameaça à saúde. “Depois dos 50 anos, muitas vezes me preocupo mais com o risco cardiovascular do que com o vírus propriamente dito. Com o HIV controlado, passam a aparecer aterosclerose, resistência à insulina, esteatose hepática e outros problemas que exigem um olhar clínico mais amplo”, relata o Dr. Vinicius.
A supressão viral permanece indispensável, mas não é suficiente para garantir um envelhecimento saudável. O acompanhamento precisa incorporar manejo de risco cardiovascular, dislipidemia, diabetes e obesidade, além de saúde óssea, rastreamento de neoplasias e vacinação. Cognição, capacidade funcional, quedas e saúde mental completam um quadro que vai muito além do controle virológico.
A idade cronológica, por si só, diz pouco sobre quando uma abordagem geriátrica mais ampla deve ser incorporada. Fragilidade, declínio funcional, alterações cognitivas, multimorbidade e dificuldade para administrar tratamentos complexos ajudam a identificar quem mais pode se beneficiar dessa avaliação. “A idade, quando considerada sozinha, informa pouco. É necessário avaliar o que a pessoa consegue fazer, como mantém sua autonomia e quais são suas reservas para enfrentar um evento adverso”, explica o Dr. Milton Crenitte, geriatra e doutor em ciências pela Universidade de São Paulo (USP).
Instrumentos breves podem facilitar esse rastreamento no contexto da consulta habitual. O questionário FRAIL investiga fadiga, resistência, capacidade de caminhar, número de doenças e perda de peso. Para cognição, o 10-Point Cognitive Screener pode ser aplicado em poucos minutos. Resultados alterados não estabelecem diagnóstico, mas indicam a necessidade de avaliação mais aprofundada e de encaminhamento geriátrico ou gerontológico. Fragilidade não é sinônimo de velhice nem é necessariamente irreversível, mas representa maior vulnerabilidade diante de qualquer estressor e está associada a quedas, perda funcional, hospitalização e maior risco de morte.
Polifarmácia e a lógica do ‘menos é mais’
O acúmulo de doenças crônicas costuma ser acompanhado por prescrições cada vez mais extensas. Além de TARV, entram anti-hipertensivos, hipolipemiantes, hipoglicemiantes, antidepressivos, analgésicos e outros medicamentos, aumentando a complexidade do tratamento e o risco de interações e eventos adversos.
Uma análise com 1.018 pessoas vivendo com HIV atendidas pelo SUS entre 2020 e 2023 mostrou que 56,6% tinham 50 anos ou mais. Os resultados virológicos nesse grupo foram melhores do que nos mais jovens: cerca de 90% apresentavam carga viral indetectável, ante 83,3% dos adultos de 18 a 49 anos. A falha virológica foi menos frequente entre os mais velhos, 2,5% versus 10,1%, assim como a proporção de pacientes com contagem de T CD4+ abaixo de 350 células/mm3, de 7% vs. 13,3%.
A mesma análise mostrou que esquemas simplificados de TARV com dois medicamentos foram mais frequentes entre os participantes com 50 anos ou mais, especialmente as combinações de lamivudina + dolutegravir e lamivudina + darunavir/ritonavir. Os dados reforçam a importância de individualizar o tratamento considerando histórico terapêutico, resistência viral, comorbidades e contraindicações.
O raciocínio se estende a toda prescrição. “Precisamos reconhecer que, muitas vezes, na tentativa de tratar todas as doenças e sem um plano de prioridades, acabamos provocando novas complicações pela iatrogenia. Nem toda intervenção terá benefício relevante para um paciente com expectativa de vida reduzida ou comprometimento funcional importante”, adverte o Dr. Márcio de Figueiredo Fernandes, médico do Programa de Assistência Integral ao Portador de HIV/Aids do Instituto de Atenção à Saúde São Francisco de Assis da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro do Comitê de HIV/Aids da SBI.
A permanência de cada medicamento na prescrição merece ser reavaliada em cada consulta. “O uso contínuo de um medicamento não justifica, por si só, sua manutenção. Em cada consulta, precisamos confirmar se ainda existe uma indicação clara e se o benefício continua superior ao risco”, orienta o Dr. Milton.
O que os exames não mostram
Os números do laboratório são parte do quadro, mas existe um outro lado da história que não aparece na carga viral nem na contagem de células T CD4+. Pessoas mais velhas vivendo com HIV podem enfrentar estigma acumulado ao longo de décadas, perda de parceiros, afastamento familiar, insegurança sobre quem cuidará delas à medida que envelhecem e receio de que o diagnóstico seja revelado quando perderem autonomia. Transtornos depressivo e de ansiedade, isolamento social, dificuldades econômicas e moradia instável comprometem adesão, alimentação, prática de atividade física, cognição e capacidade funcional de formas que nenhum ajuste de esquema antirretroviral resolve sozinho.
O contexto epidemiológico torna esse olhar ainda mais urgente. Enquanto a taxa de mortalidade por aids caiu na última década em quase todas as faixas etárias, entre mulheres de 60 anos ou mais ela aumentou 14,8% entre 2014 e 2024, passando de 2,7 para 3,1 óbitos por 100 mil habitantes. Entre os homens da mesma faixa etária, o movimento foi o oposto: redução de 6,3% no mesmo período. O dado indica que o sucesso do tratamento ainda não chegou de forma igual a esse grupo etário e que há algo além da virologia que precisa de atenção.
“Combater o isolamento talvez seja uma das intervenções mais importantes. A solidão piora a saúde mental, reduz a atividade física, prejudica a adesão e pode contribuir para declínio cognitivo, fragilidade e sarcopenia. Precisamos criar pertencimento e retirar essas pessoas da invisibilidade”, afirma o Dr. Milton.
“O objetivo não é apenas prolongar a vida, mas preservar autonomia, vínculos e aquilo que tem significado para cada pessoa”, conclui o geriatra.
Daniela Barros




