09/09/2014 – 18h30
Explorar as condições de saúde do cotidiano da população na perspectiva do fortalecimento dos serviços e ir além dos números para melhor responder os desafios da saúde pública brasileira foram os temas centrais da sessão Epidemiologia nos 25 anos do Sistema Único de Saúde (SUS), uma das mesas redondas realizadas na segunda-feira (8), durante o 9º Congresso Brasileiro de Epidemiologia, em Vitória (ES).
A sessão, coordenada por Luis Eugenio de Souza, presidente da Abrasco, promotora do evento, contou com a participação de Luiz Augusto Facchini, epidemiologista da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e dos docentes da área da política, planejamento e gestão Gastão Wagner, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Jairnilson Paim, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Ferramenta para a transformação
Luiz Augusto Facchini falou dos debates da saúde quando da aprovação da Constituição Federal, que deu possibilidade para a constituição do SUS e trouxe como sua grande inovação a Atenção Primária em Saúde. A principal porta de entrada para o atendimento da população, construído seguindo princípios estabelecidos na década de 70 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), “que desmilinguiu esse conceito, fazendo dele atualmente apenas um discurso”, segundo ele. “Nesse aspecto, andamos para trás.”
Para Facchini, as complexidades da Atenção Primária trazem, pelos estudos epidemiológicos, as respostas para a melhor constituição das redes de serviço e para a disponibilidade de atendimento. Segundo ele, a partir do trabalho da epidemiologia, é possível fazer o levantamento das cargas de mortalidade. Esse trabalho, hoje, é marcado pelas doenças crônicas não-transmissíveis, pelas causas externas e mantém resquícios do quadro epidemiológico do início do século, “marcado pelas doenças infecto-contagiosas e negligenciadas, que têm no tracoma [doença inflamatória dos olhos] um dos seus tristes símbolos”.
Jairnilson Paim abordou a recomposição das ações da epidemiologia nos serviços de saúde ao longo da trajetória do Sistema Nacional do Saúde, num percurso que se confunde com a história da própria Abrasco e de seus congressos de epidemiologia. “Antes do SUS, a epidemiologia era uma categoria meio exótica, que dependia das afinidades dos pesquisadores com o tema e da aceitação de algumas instituições. Com o passar do tempo e a consolidação do SUS, o campo foi buscando outros referenciais, tomando para si a crítica ao social”.
Segundo o professor, dois eventos marcam essa mudança: o 2º Congresso Brasileiro de Epidemiologia, que trouxe pela primeira vez estudos de natureza mais crítica e a transformação do Centro Nacional de Epidemiologia (Cenep) em Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS). “Isso possibilitou uma aproximação progressiva dos trabalhos de vigilância com os serviços de atenção à saúde.”
Essa modificação de estruturas e a aproximação da academia dos serviços de vigilância transformaram a visão tradicional da notificação de doenças. “Essas mudanças permitiram jogar luz nas contradições de várias racionalidades envolvidas nos processos decisórios de políticas públicas, abrindo espaço para uma epidemiologia do cotidiano, que não está olhando para o norte, mas, sim, para o cruzeiro do sul”, disse Jairnilson.
Gastão Wagner fez uma fala crítica a algumas posições do campo epidemiológico. “A maioria dos estudos está baseado nas evidências e nos levantamentos, o que faz a epidemiologia ter certa hegemonia na distribuição dos fomentos. Acredito que temos um novo tempo, a partir desse congresso, que trouxe no seu nome a palavra ação, o que deve sinalizar uma aproximação da área com as ciências sociais em saúde”.
Gastão destacou a necessidade de repensar os paradigmas teóricos para avaliar a efetividade das políticas do SUS e da Atenção Primária em Saúde, que “não surgiu como conceito a partir da ideia da evidência, mas sim da realidade e das condições de vida da sociedade”.
Para Gastão, as ações em vigilância em saúde não podem apenas estar centradas nos modelos matemáticos, e sim na triangulação das relações entre dados, narrativas e situações de vida. “Mas, para fazer isso, tem de ter rebelião, e quem se rebela é punido”, alertou.
Homenagem
A Abrasco prestou homenagens a Gilson Carvalho, médico sanitarista de destacado papel na formulação do Sistema Único de Saúde (SUS), falecido em abril deste ano. Luis Eugenio convidou à mesa Cristina Carvalho, filha de Gilson, para receber a placa comemorativa. Emocionada, ela agradeceu a homenagem e lembrou o compromisso do pai com as políticas públicas até o final de sua vida.


