Hepatoaids: ‘Infecções oportunistas ainda são obstáculo no enfrentamento da aids’, afirmam especialistas

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Uma em cada duas hospitalizações de pessoas vivendo com HIV é causada por infecções oportunistas, como tuberculose, criptococose e citomegalovírus. O alerta foi feito por especialistas durante a 19ª edição do Hepatoaids, em São Paulo, que reuniu médicos, pesquisadores e ativistas para discutir os desafios atuais do enfrentamento da Aids no Brasil.

Além do impacto direto na mortalidade, essas infecções também estão associadas a complicações neurológicas graves, especialmente entre pessoas diagnosticadas tardiamente ou que chegam aos serviços de saúde com imunossupressão avançada.

Para os especialistas, acelerar o diagnóstico e fortalecer o acompanhamento dos pacientes são medidas fundamentais para reduzir internações e mortes evitáveis.

Durante o evento, o médico infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, José Vidal, apresentou dados que apontam um aumento de alterações neurocognitivas entre pessoas vivendo com HIV, incluindo pacientes com a infecção controlada por meio da terapia antirretroviral.

“Fizemos uma pesquisa pelo Instituto Emílio Ribas que apontou um aumento considerável de pacientes com HIV que apresentaram alterações neurocognitivas, assintomáticos ou não. Isso aconteceu principalmente entre os pacientes diagnosticados há mais tempo, incluindo aqueles que já têm a infecção sob controle. Muitos apresentaram problemas de memória, lentidão de raciocínio e dificuldades de concentração”, afirmou Vidal.

O estudo reuniu cerca de mil pessoas em estágio avançado da aids. Entre as infecções mais registradas após as internações estavam tuberculose, candidíase e citomegalovírus.

“Existe cada vez mais evidência de que cargas virais altas no plasma podem influenciar graves doenças neurológicas. A gente sabe que o SUS tem uma estrutura fantástica, é um modelo mundial, mas isso não significa que não haja coisas para melhorar. Essa é uma delas. Encontrar maneiras de acelerar os diagnósticos, especialmente entre as pessoas com alta carga viral, é fundamental para vencermos essa luta”, disse Vidal.

Mediador das apresentações, o professor de infectologia da Unifesp, Paulo Abrão, afirmou que as infecções oportunistas continuam sendo um dos principais obstáculos no enfrentamento da aids.

“Nós temos um levantamento de 115 óbitos, nos últimos cinco anos, de pessoas vivendo com HIV no Hospital São Paulo. Das infecções que chamamos de oportunistas, a mais frequente nesses casos foi citomegalovírus. A gente precisa olhar para isso com mais atenção. Porque a aids é tratável. O diagnóstico não é simples, é verdade, não basta apenas ter a carga viral detectável ou indetectável, é preciso saber interpretar essa carga viral, mas eu acho que é importante a gente lembrar desses dados porque, à medida que a gente vai rastreando as demais (infecções) e tendo um controle de diagnóstico melhor, a gente acaba caminhando para essas (infecções) que muitas vezes são subdiagnosticadas”, disse Paulo Abrão.

Além do citomegalovírus, a criptococose também afeta de forma significativa as pessoas que vivem com HIV. Segundo José Vidal, a doença criptocócica é responsável por 13% das mortes relacionadas à aids em todo o mundo. Classificada como uma micose sistêmica, ela é atualmente a principal causa de meningite oportunista associada ao HIV no Brasil.

Como resposta a esse cenário, a epidemiologista Lillian Moura, técnica do Ministério da Saúde, apresentou as Ofertas de Cuidado Integrado (OCI), estratégia criada pela pasta em 2024 para acelerar diagnósticos e qualificar o atendimento de pacientes com quadros complexos.

“Do ponto de vista neurológico, a gente tem duas etapas do OCI. Na primeira, fazemos uma punção lombar, que a gente identificou como uma grande lacuna no nosso sistema de saúde, e também tomografia de crânio, além dos exames básicos disponíveis. Na progressão, elencamos também a ressonância magnética de crânio e a ressonância do neuroeixo. Nessas duas OCIs estão disponíveis todos os exames complementares para uma avaliação diagnóstica completa”, comentou Lillian.

Desigualdade social e abandono da terapia antirretroviral

Os especialistas que participaram do Hepatoaids convergem em um ponto: a desigualdade social permanece como uma das principais barreiras no combate ao HIV. Questões como o acesso insuficiente à prevenção, a ausência de profissionais de saúde mental em parte da rede pública e as dificuldades de vinculação aos serviços de saúde ajudam a explicar muitos dos desafios observados na assistência.

A infectologista Denize Lotufo, da Coordenação de IST/Aids do Estado de São Paulo, apresentou um caso hipotético para ilustrar falhas ainda frequentes na linha de cuidado.

O exemplo retrata uma mulher preta, de 56 anos, viúva, hipertensa, diabética e natural do Piauí, que havia se mudado recentemente para São Paulo. Após perder peso de forma acentuada, ela procurou uma Unidade Básica de Saúde (UBS), realizou um teste rápido de HIV e recebeu resultado positivo. Encaminhada ao Serviço de Atenção Especializada (SAE), só conseguiu realizar a coleta de exames e iniciar a terapia antirretroviral (TARV) 45 dias depois. Um ano mais tarde, voltou a apresentar emagrecimento e episódios de diarreia.

“Ela não poderia demorar 45 dias para chegar ao SAE. Não existe essa prática de apenas fazer um diagnóstico e encaminhar a pessoa. É necessário acompanhamento contínuo até que a pessoa esteja efetivamente vinculada ao serviço. Para isso, é preciso ter psicólogos nas unidades de saúde, psiquiatras, assistentes sociais. Não podemos dar um diagnóstico nas mãos da pessoa e deixar ela se virar sozinha, sem informação, sem orientação”, comentou Denize.

A infectologista também destacou a importância do Simc (Sistema de Monitoramento Clínico das Pessoas Vivendo com HIV/Aids), ferramenta do SUS que permite identificar e acompanhar pessoas diagnosticadas que ainda não iniciaram a terapia antirretroviral ou apresentam lacunas no tratamento.

“As pessoas precisam ter conhecimento sobre o Simc. É uma ferramenta muito importante e que vai ajudar muita gente. É nosso papel, também, levar as pessoas ao Simc. Por isso, o Ministério da Saúde tem feito oficinas no país inteiro”, disse Denize.

Prevenção e capacitação profissional

Apesar dos avanços alcançados pelas políticas brasileiras de enfrentamento ao HIV/aids, os participantes do Hepatoaids avaliam que ainda existem lacunas importantes na prevenção, no diagnóstico e no cuidado continuado.

Após as apresentações, o público questionou os especialistas sobre a necessidade de ampliar a oferta de testagem gratuita, expandir o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP) e fortalecer a capacitação dos profissionais de saúde.

Lillian Moura explicou que a distribuição dos testes é realizada pelo Ministério da Saúde a partir de critérios técnicos definidos previamente.

“O Ministério da Saúde disponibiliza testes para que os estados possam alocar de acordo com os critérios pré-estabelecidos. Alguns dos critérios se referem à demanda e ao número de usuários e pacientes em determinado município. De fato, é necessário identificar quais são os locais prioritários”.

Ao encerrar o debate, Paulo Abrão ressaltou a necessidade de aproximar o conhecimento científico da prática cotidiana dos serviços de saúde.

“É muito importante falar com os clínicos que atendem urgência e emergência, porque muitas vezes essas pessoas chegam a esses lugares. Os profissionais dos pronto socorros, das UPAS, até das UBS com seus médicos de família, deveriam ter conhecimento profundo sobre HIV. Porque acontece exatamente o que a Denize comentou, eles entregam o diagnóstico na mão do paciente e o largam”, afirmou Abrão.

Artur Garcia, especial para a Agência de Notícias da Aids

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