Pelo sexto ano consecutivo o Município vêm testemunhando expressiva queda no número de novas infecções pelo HIV

A cidade de São Paulo, pelo sexto ano consecutivo, testemunha queda no número de novas infecções pelo HIV. Na última semana, os resultados foram compartilhados à quem marcou presença na 17ª edição do Hepatoaids.
A coordenadora da Coordenadoria de IST/Aids de São Paulo, Cristina Abbate, compartilhou o que tem sido eficaz e no que estão apostando para que o HIV deixe de ser uma preocupação na cidade e, consequentemente, em breve a cidade alcance a eliminação do vírus na maior metrópole da América Latina.
De acordo com a gestora, em 2018, o município iniciou a implantação da Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP), começando em cinco Centros de Testagem e Aconselhamento (CTAs) pilotos. A coordenadora conta que, na época, houve resistência por parte do Departamento de Aids, que questionou a decisão de dispensar a profilaxia nos CTAs, sugerindo que não seria uma ideia estratégica. Ela recorda: “Lembro de ter [defendido] colocar [a PrEP] em São Paulo, porque os CTAs estão localizados nas comunidades, nas regiões mais periféricas da cidade. Mesmo que os CTAs não tenham médicos, isso não pode ser um obstáculo. É um problema que a gestão precisa resolver. O usuário não pode ser penalizado por deficiências na gestão”.
“A partir de então, mudou-se um paradigma dos CTAs da cidade de São Paulo, todos passaram a ter o médico como um profissional. Naquela época, só o médico podia prescrever PrEP.”
Quando os pilotos começaram a funcionar, inicialmente a ideia era que, ao iniciar as atividades, concomitantemente a isso fosse ampliada a distribuição de preservativos fora dos serviços e espaços convencionais. A cidade passou então a ter espalhados diversos displays de preservativos internos e externos [femininos e masculinos] nas estações do metrô, terminais urbanos, via de ônibus, entre outros.
“Já em 2020, com todas as unidades CTA fazendo PEP e PrEP, passamos a incluí-las também na ‘Rede Sampa Trans’, que aqui em São Paulo, é um conjunto de unidades de saúde com equipes especializadas voltadas para olhar integral à saúde LGBT”, diz Cristina Abbate.
PrEP na Rua
No ano seguinte, lançou-se então o projeto ‘PrEP na Rua’. Este projeto tem como objetivo disponibilizar o medicamento de prevenção em locais de fácil acesso para as populações mais vulneráveis. A iniciativa surgiu ao perceber que muitas vezes aquelas populações que são, historicamente, mais distantes dos serviços de assistência à saúde, acabam por não acessá-los devido ao estigma, discriminação, falta de informação e diversas outras dificuldades de acesso que sofrem, mesmo em unidades especializadas. “Percebemos e entendemos que precisava haver um meio de levarmos este serviço a elas. Começamos então a propor na cidade de São Paulo um outro modelo, em que o profissional de saúde se movimenta e não o usuário”, destaca a coordenadora.
As atividades itinerantes parte do projeto ‘PrEP na Rua’, leva estruturas móveis para diferentes regiões da cidade, sempre em horários alternativos, durante a noite aos finais de semana, abrangendo locais de pegação gay, pegação trans, e outras áreas das mais variadas características, para que a prevenção seja feita onde quer que as pessoas estejam.
A partir do momento em que o paciente é testado, é realizada a avaliação de creatinina, como ocorre em qualquer consulta de uma unidade convencional, e, com o resultado em mãos, é possível realizar a prescrição e a retirada da medicação na mesma hora. Tudo acontece dentro de um micro-ônibus adaptado, funcionando de quinta a sábado, no final da tarde, das 16h às 21h, embora os horários possam variar ocasionalmente, a depender da necessidade.
Estação Prevenção
No ano passado [em 2023], a capital ganhou ainda mais duas novidades para somar à resposta da epidemia: a inauguração da Estação Prevenção Jorge Beloqui e o lançamento do aplicativo S-PREP.
Jorge Beloqui foi um matemático e ativista brasileiro, conhecido por seu trabalho na área do HIV/aids. Reconhecido nacional e internacionalmente, Beloqui teve papel fundamental na implementação de políticas públicas de prevenção e tratamento do HIV, além de ter sido uma figura importante na luta contra o preconceito e à favor das pessoas vivendo com HIV/aids.
“Nós inauguramos a unidade em junho [de 2023] e demos o nome de Jorge por toda a importância histórica que Jorge tem no movimento de aids”, compartilha a gestora ao esclarecer que o serviço funciona de terça a sábado, das 17 horas às 23 horas, e conta com cinco funcionários, três consultórios, um laboratório e uma sala de coleta, além da sala de recepção. A mesma está localizada na estação de metrô República, por onde circulam cerca de 100 mil pessoas por dia. A região é conhecida por ter alta concentração de público gay e trans.
Durante pouco menos de um ano completo, já foram realizados mais de 8 mil atendimentos, 5 mil cadastros de PrEP e 1.400 de PEP. Nos dias de funcionamento, a média de atendimentos é de 75 pessoas por dia.
S-PREP
Já o S-PREP, funciona de segunda a segunda, incluindo sábados, domingos e feriados. O canal que fica dentro do aplicativo E-SaúdeSP, e até o momento, registrou mais de 600 mil acessos. “Quando a pessoa acessa o aplicativo, em menos de oito minutos é atendida por alguma de nossas médicas. Após a teleconsulta, profissional avalia se é caso de PrEP ou de PEP. Se for o caso de PrEP, o usuário apresenta a foto de seu teste negativo e então a médica realiza a prescrição. O paciente recebe a receita com QR Code e pode se dirigir a qualquer unidade 24h de São Paulo, que já estão cadastradas para isso, para retirar o medicamento.”
“Este é um serviço digital absolutamente oficial, com profissionais médicos e com toda a legalidade e responsabilidade.”
Parceria com a sociedade civil
Sobre a mais recente iniciativa de prevenção, divide: “Agora em 2024, acabamos de lançar em parceria com o CRD Bruna Valim, começamos oferta de PrEP duas vezes por semana na ONG […]. Este instituto é dirigido pela ONG Pela Vidda SP, e é um local de referência bastante importante para a população trans, que sofre de altíssima vulnerabilidade [à infecção pelo HIV].”
“As iniciativas que a gente teve em São Paulo foram tomadas exatamente tomando consciência de que, nós todos estamos em uma era globalizada, as pessoas têm pressa…”.
Além isso, foram publicadas duas portarias no município que habilitam farmacêuticos, dentistas e enfermeiros a serem também prescritores de PrEP e PEP, o que segundo Cristina Abbate, é considerado um passo crucial, contribuindo para aumentar o acesso aos métodos de prevenção e, consequentemente, para a queda no número de novos casos de HIV, em São Paulo.
A partir de então, o território testemunhou aumento de mais de 500% de novos cadastros entre a população gay, que é a população com a mais alta prevalência. Além disso, desde 2018, houve um aumento de mais de 100 vezes na inserção de mulheres negras na PrEP. Houve também um aumento de 643% no número de cadastros de pessoas trans e travestis, e um aumento de 819% no número de cadastros de mulheres cis. Em 2022, de acordo com o último boletim epidemiológico, o município de São Paulo entrou no sexto ano consecutivo de redução de novas infecções pelo HIV, representando uma queda de 45% na população geral, 47% no grupo de gays e HSH (homens que fazem sexo com homens), e uma redução de 49% entre os jovens de 15 a 29 anos.
Resultados
“Quando saímos dos muros [do serviço] e vamos até as pessoas, evidentemente a gente melhora a inclusão de pessoas que talvez não estariam nesta estatística”, afirma a coordenadora Cristina Abbate e finaliza: “Não tem segredo. O segredo é a gestão. Boa gestão se faz com uma série de elementos: vontade política de um secretário de saúde, a confiança deste secretário de saúde no trabalho técnico, um conjunto de profissionais [comprometidos], etc. Isso faz toda a diferença!”.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Coordenadoria de IST/Aids de São Paulo
E-mail: comunicacao.istaids@prefeitura.org.br


