Hepatoaids: Dr. Érico Arruda destaca novas terapias contra o HIV e alerta para comorbidades no futuro da epidemia

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O professor Érico Arruda, médico especialista em doenças infecciosas, participou na sexta-feira (13) do Hepatoaids e abordou as inovações na prevenção do HIV e os novos rumos no cuidado das pessoas que vivem com o vírus.

Durante sua palestra, Dr. Érico destacou a evolução do tratamento ao longo dos anos. “A medicina já passou por uma fase em que o principal foco era melhorar a sobrevida dos pacientes, reduzindo a mortalidade, especialmente diante de diagnósticos tardios”, afirmou. Segundo ele, os desafios atuais envolvem o cuidado com outras condições de saúde que surgem com o envelhecimento da população que vive com HIV: “O presente e o futuro nos apontam as questões das comorbidades”.

Entre os avanços discutidos, o infectologista destacou os medicamentos de ação prolongada, como as injeções que podem ser aplicadas a cada dois ou até seis meses. Essas novas tecnologias, segundo ele, representam uma alternativa importante para pessoas com dificuldade de aderir ao uso diário de comprimidos.

Dr. Érico citou pesquisas recentes que indicam uma boa aceitação das novas opções: “Pacientes relatam preferência por terapias injetáveis bimestrais”. No entanto, também fez um alerta sobre um possível obstáculo: “Ainda existe a questão da resistência ao medicamento”, observou, explicando que, apesar da preocupação, “a chance de resistência no segmento é de 1,4%”.

Outro medicamento de ação prolongada citado foi o lenacapavir, que pode ser aplicado a cada seis meses.

“Atualmente, o custo anual gira em torno de 44 mil dólares por pessoa, o que é bastante proibitivo”, alertou. Em seguida, projetou um cenário mais acessível com a entrada de genéricos: “Isso poderá chegar a 35 a 46 dólares por ano por paciente, tornando o tratamento mais acessível”.

Sobre a preferência das pessoas, ele citou um estudo que perguntou: “O que você prefere? Um comprimido por semana, duas injeções por mês ou dois implantes a cada seis meses?”. Embora a maioria tenha optado pelo comprimido semanal, Érico apontou: “Um percentual significativo dizia não se preocupar em tomar injeções”.

Ele também apresentou dados de uma pesquisa mais recente: “Em 2023, uma pesquisa mais detalhada mostrou que, quando eu digo que não vai doer, que não tem agulha e é uma medicação oral, a maioria prefere esse caminho em vez das medicações injetáveis de depósito”.

Entre os principais desafios para implementação dessas terapias, o médico reforçou: “Vamos ter que ter agenda para aplicar medicamentos em nossos pacientes. Como vamos instituir isso nos nossos serviços?”

Ele também apontou que ainda há dados limitados sobre segurança dessas medicações em gestantes, lactantes e adolescentes, além de obstáculos ligados ao acesso em países com desigualdades.

Por fim, Érico destacou a necessidade de priorizar grupos com maior dificuldade de adesão: “Precisamos escolher algumas populações para o tratamento, certamente aquelas populações de mais difícil adesão”, citando a importância de garantir o acesso contínuo à terapia para grupos vulneráveis, como “a população de rua”.

Mesmo reconhecendo o avanço dessas tecnologias, ele alertou: “Essas medicações de longa atividade são muito importantes para uma realidade que vai assumir uma importância maior nos próximos anos”, mas ponderou que “os custos deverão permanecer mais altos do que as terapias orais” e que, provavelmente, “as opções de terapia oral, uma vez por semana, serão mais úteis num contexto global do que essas medicações injetáveis a curto prazo”.

Alto custo

Na sequência, a gerente da Assistência Integral à Saúde do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids-SP, Denize Lotufo, reforçou o alerta sobre os custos dos novos medicamentos e seu impacto direto no acesso:

“Custo é acesso. Se o valor é abusivo, a população fica fora. O caso do fostemsavir é emblemático: foi incorporado sem nenhuma redução pela indústria. Custa quase 12 mil e baixou só cinco centavos na consulta pública. Isso precisa ser registrado”, afirmou.

Ela também cobrou mais transparência nos acordos de transferência de tecnologia, como no caso do cabotegravir: “É um contrato sob segredo de justiça. A gente nem sabe o que está sendo negociado.”

Para a gestora, a luta por preços mais justos é política — e precisa ser assumida como tal: “Estamos aqui fazendo política com nossos corpos. O SUS é a maior máquina de equidade do mundo, e a gente precisa defendê-lo. Não dá pra naturalizar a lógica de mercado num debate que é, acima de tudo, sobre vida.”

Por fim, ela lembrou que a discussão sobre preços não é nova — e citou o caso da hepatite C como exemplo de vitória da mobilização social:

“Foi assim no passado e continuará sendo. O futuro vai exigir tecnologias mais modernas, e a gente não pode abrir mão delas. Mas é preciso garantir que cheguem a quem mais precisa.”

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo, na Agência Aids.

Edição: Talita Martins

Dica de entrevista

Dr. Érico Aruda

Instagram: @drericoarruda

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