Hepatoaids 2024: ‘Desigualdade social tem levado muitas pessoas vivendo com HIV ao abandono do tratamento’,  afirmam especialistas 

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Na última semana, São Paulo foi palco do Hepatoaids, tradicional congresso que reúne médicos, enfermeiros, farmacêuticos, profissionais de saúde mental, estudantes, residentes, entre outros, para debater os mais recentes avanços e descobertas do mundo do HIV/aids e da infectologia em geral. Este ano, o evento trouxe discussões importantes, como o impacto que o estigma e discriminação têm na não-adesão e retenção do paciente vivendo com HIV/aids ao tratamento antirretroviral. A importância de um acompanhamento humanizado, inclusivo e centrado na pessoa desde o primeiro contato, também foi questão enfatizada pelos congressistas no encontro que contou com representação da sociedade civil, do governo federal, estadual e municipal.

Representando o Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, a Dra. Rosa Alencar, diretora-adjunta do CRT DST/Aids de São Paulo, destacou a relevância e influência que os paineis têm na construção efetiva das políticas de aids. “O Hepatoaids é um dos mais importantes fóruns de atualização, capacitação, compartilhamento de conhecimento, de melhores práticas e inovação do cuidado no campo das ISTs e HIV/aids dirigido aos profissionais de saúde. Ainda mais, contribui significativamente para a implementação e qualificação de políticas públicas inovadoras nas dimensões da gestão e do cuidado.”

Já em nome da Coordenadoria de IST/Aids de São Paulo, Cristina Abbate compartilhou a notícia de que a capital, pelo sexto ano consecutivo, apresenta redução de novos casos de infecção pelo HIV, e reforçou o compromisso de novas ações e esforços para manter a tendência de queda na cidade. “É uma honra estar presente na 17ª edição deste evento relevante  para os profissionais de saúde e para as pessoas vivendo com HIV, trazendo atualizações técnicas  tanto na prevenção quanto no tratamento. Considerando que a cidade de São Paulo tem visto uma redução consecutiva de novas infecções pelo vírus ao longo de seis anos, esperamos poder sempre agregar novos saberes para anunciar nas próximas edições que a capital alcançou a eliminação da transmissão do HIV.”

A infectologista Marcela Vieira, consultora do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi), no Ministério da Saúde (MS), em sua apresentação destrinchou que o estigma exerce influência direta na dificuldade de adesão ao tratamento, sendo fator indissociável dos problemas sociais latentes em nosso País. Problemas sociais estes que, segundo ela, geram incontáveis danos, inclusive à saúde mental. Por isso, a médica reconhece que o engajamento ativo da sociedade civil desempenha papel indispensável no processo de construção de políticas públicas que deem conta dos gaps.

Nesse sentido, foi discutida a falta de psicólogos e outros profissionais de saúde mental integrados às equipes multi. “Eu estive por alguns anos na Zona Oeste, aqui em São Paulo, trabalhando na assistência, e esse eu considero que seja um dos maiores gargalos do processo de retenção e muito relacionado a essa dificuldade de adesão, de abertura [por parte do paciente]. Estas são questões que a gente tem muita dificuldade de atuar de forma mais concreta e [muitas vezes] gera [no profissional de saúde] uma sensação de impotência diante daquele paciente”, compartilhou e continuou: “Mas, em relação especificamente à composição da equipe, o que nós [enquanto Ministério da Saúde] estamos fazendo é atuar na portaria 001, que é a portaria que define a composição e organização dos serviços de saúde […]. São inúmeros pontos que compõem a portaria 001 e um dos nossos objetivos é a inclusão de uma pessoa que seja uma espécie de navegador, que possa atuar nesse processo de vinculação de pacientes mais diretamente, pessoas que costumeiramente perdem o seguimento [da terapia]. Mas também é super importante que as Secretarias Estaduais de Saúde e as Secretarias Municipais estejam atentas à importância desses profissionais nas atividades”, afirmou.

Na sequência, a infectologista Denise Lotufo, da Coordenação de IST/Aids do Estado de São Paulo, apresentou alguns casos clínicos em que houveram falhas, para servir de exemplo e para traçar melhores intervenções. Um deles trata-se de uma paciente mulher, 56 anos, preta, viúva, hipertensa e diabética, natural do Piauí, que mudou-se recentemente para São Paulo, apresentou importante emagrecimento e procurou uma Unidade Básica de Saúde (UBS). A paciente passou pelo teste rápido de HIV e apresentou resultado positivo. Após o resultado, foi encaminhada para uma unidade SAE. Após 45 dias, realizou coleta de exames e deu início à Terapia Antirretroviral (TARV), com retorno agendado para três meses. Um ano após, a paciente retornou ao serviço com diarreia e piora do emagrecimento. “O que deu errado?”, questionou Dra Denise, provocando a plateia para a reflexão. Ela explicou: “Está bem claro que em diversos momentos do processo, houve falhas que resultaram nessa situação. Primeiro, ela demorou 45 dias para chegar ao SAE. […] Hoje, não existe mais essa prática de apenas fazer um diagnóstico e encaminhar a pessoa. É necessário monitorar e acompanhar até que a pessoa esteja efetivamente vinculada ao serviço. Não podemos abandonar o paciente.”

A especialista ainda compartilhou para entendimento do caso, que após o diagnóstico, a paciente demorou 45 dias para chegar [ao serviço], além de que foi feita uma anamnese totalmente incompleta. “Não havia praticamente nenhum dado sobre ela, inclusive de sua situação social, o que representa um grave problema, para além da questão biomédica. Trazer a questão social, a questão da vulnerabilidade é extremamente importante. Quer dizer, não é só você ter remédio. O Brasil é exemplo disso, há tantos anos temos remédio para todo mundo, mas ainda assim muita gente tem dificuldade de acesso”, afirmou.

“O tratamento precoce não só beneficia individualmente o paciente, mas também tem impacto na saúde pública, porque reduz a transmissão do vírus”, acrescentou.

Sociedade civil

Representando a sociedade civil, Juan Carlos Raxach, da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), endossou o que foi dito, defendendo a participação popular em todos os processos, mas afirmou que é preciso que as parcerias aconteçam de modo que estejam coordenadas e alinhadas para alcançar objetivos comuns. “É preciso realmente querer oferecer um serviço de qualidade!”

Raxach ainda destacou que, embora seja de suma importância a mudança de termo de “abandono de tratamento” por “interrupção de tratamento”, isso não dá conta e ainda mascara o verdadeiro problema do estigma e da discriminação ligados ao HIV/aids. “São 41 anos que vivo com HIV, 30 deles morando aqui no Brasil, e é triste ver que durante os últimos tempos muitas coisas foram perdidas. Recuperar [tempo perdido] é muito difícil. Para isso, o voluntariado profissional é extremamente necessário […].”

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

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