Hepatite B: novos caminhos para a cura funcional são apresentados no 19º Hepatoaids

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Simpósio satélite da GSK discutiu avanços terapêuticos que buscam ir além da supressão viral e aproximar pacientes de um novo paradigma no tratamento da infecção pelo vírus da hepatite B

O tratamento da hepatite B vive um momento de transformação, com pesquisas voltadas não apenas para controlar a replicação do vírus, mas para alcançar a chamada cura funcional, quando ocorre a perda do antígeno de superfície do vírus da hepatite B (HBsAg), reduzindo riscos de complicações da doença. Esse foi o tema central do simpósio satélite “Transformando o Paradigma do Tratamento da Hepatite B: Da Supressão à Cura Funcional”, realizado em 11 de junho durante o 19º Hepatoaids.

Conduzida por Dr. Mário Pessoa, a mesa destacou os avanços recentes no desenvolvimento de novas terapias e os desafios ainda existentes para eliminar os impactos da hepatite B. O especialista explicou que, atualmente, os medicamentos disponíveis conseguem levar a maioria dos pacientes à supressão do HBV-DNA, deixando a carga viral indetectável, mas não eliminam completamente a presença do vírus no organismo.

Segundo Dr. Mário Pessoa, o principal objetivo das novas estratégias é alcançar a cura funcional, definida pela perda do HBsAg, mesmo sem necessariamente ocorrer a eliminação completa do material viral presente no núcleo das células do fígado. A cura completa continua sendo considerada um desafio porque o vírus mantém estruturas persistentes, como o DNA circular covalentemente fechado (cccDNA), além da possibilidade de integração do DNA viral ao genoma do hospedeiro.

O especialista ressaltou que os tratamentos atuais, como os análogos nucleos(t)ídeos, possuem alta eficácia para tornar o HBV-DNA indetectável, mas apresentam baixas taxas de perda do HBsAg ao longo dos anos. “Nós queremos a perda do HBsAg porque não estamos felizes apenas com a indetectabilidade”, explicou durante a apresentação, destacando que a negativação do marcador está associada a melhores desfechos clínicos.

Dados apresentados durante a sessão mostraram que pacientes que alcançam a perda do HBsAg apresentam menor risco de complicações, como cirrose e carcinoma hepatocelular. Em estudos populacionais discutidos na mesa, essa resposta esteve associada à redução do risco de desenvolvimento de câncer de fígado e de descompensação da doença hepática.

Nova classe terapêutica busca estimular resposta imunológica

A apresentação abordou uma nova estratégia terapêutica baseada no bloqueio da produção de proteínas virais, com o objetivo de reduzir o excesso de antígeno circulante e permitir que o sistema imunológico volte a reconhecer e controlar o vírus.

O medicamento discutido atua sobre o RNA viral, reduzindo a produção de diferentes proteínas do vírus, incluindo o HBsAg. No estudo de fase 2 apresentado, a terapia levou à perda do HBsAg em cerca de 28% a 32% dos participantes durante o tratamento, dependendo do grupo avaliado.

Já os estudos de fase 3, chamados de Bewell 1 e 2, avaliaram pacientes com HBV-DNA indetectável em tratamento antiviral contínuo. Após 24 semanas de terapia, aqueles que atingiram a negativação do HBsAg interromperam os medicamentos e passaram a ser acompanhados para avaliar a manutenção da resposta.

Os resultados apresentados apontaram uma taxa global de cura funcional próxima de 20% nos pacientes que receberam a nova abordagem terapêutica, enquanto não houve resposta semelhante no grupo placebo. Entre aqueles com níveis mais baixos de HBsAg antes do tratamento, as taxas de resposta foram ainda maiores.

Brasil participa de estudos internacionais

Durante o debate, pesquisadores destacaram a participação brasileira nos estudos clínicos. O país contribuiu com aproximadamente 90 pacientes recrutados em uma pesquisa internacional que reuniu participantes de diversos centros no mundo.

A mesa também discutiu a importância de avaliar diferentes populações, incluindo pessoas com diferentes genótipos do vírus e pacientes com características específicas, como aqueles com coinfecções ou doença hepática avançada.

Outro ponto debatido foi o acompanhamento de pacientes após a interrupção do tratamento. O especialista ressaltou a necessidade de monitoramento próximo, especialmente em pessoas com cirrose, devido ao risco de reativação viral e complicações graves.

Ao final da sessão, Dr. Mário Pessoa reforçou que a hepatite B continua sendo um grande desafio global, apesar da existência de vacina eficaz e terapias capazes de controlar a replicação viral. A busca por medicamentos que levem mais pacientes à cura funcional representa uma nova etapa na resposta à doença

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

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