A Secretaria de Saúde de Guarulhos apresentou nesta segunda-feira (29) os números da execução orçamentária do segundo quadrimestre de 2025, durante audiência pública de prestação de contas realizada no plenário da Câmara Municipal. O secretário de Saúde, Márcio Chaves Pires, expôs que a cidade dispõe de R$ 5,04 bilhões para ações e serviços públicos de saúde, com despesas já executadas na ordem de R$ 1,13 bilhão.
Apesar da apresentação de receitas e despesas detalhadas, a audiência foi marcada por denúncias em relação ao AME Pro Trans de Guarulhos, onde a ausência de psiquiatra e endocrinologista vem comprometendo o atendimento da população trans da região. A partir dessas falas iniciais, o secretário ampliou sua resposta para tratar também das críticas ao Serviço de Atenção Especializada (SAE) e ao Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) Ubiratan Marcelino dos Santos. Pacientes, ativistas e coletivos denunciaram falta de especialistas, situação que, segundo eles, coloca em risco o atendimento de milhares de pessoas que dependem dessas unidades, referências regionais para o tratamento de HIV/aids e para a saúde integral da população trans.
Voz da comunidade trans
Representando a população trans e se referindo ao AME Pro Trans de Guarulhos, Lukka Valente denunciou a falta de especialistas no serviço:
“Há mais de um ano estamos sem psiquiatra e há nove meses sem endocrinologista. Centenas de pessoas estão com seus tratamentos interrompidos, correndo risco de automedicação, complicações e até suicídio. Não é atraso burocrático, é uma ameaça direta à vida da população trans de Guarulhos e do Alto Tietê”, afirmou.
Na mesma linha, Jaden Lima, de Itaquaquecetuba, reforçou que a negligência não atinge apenas Guarulhos, já que o AME Pro Trans é referência regional:
“O AME Pro Trans é o único serviço de referência da região, atendendo cidades como Mogi e Suzano. Não pedimos privilégios, exigimos direitos. A ausência de médicos ameaça vidas reais que dependem do SUS para viver com dignidade.”
Secretário responde denúncias
Após ouvir os questionamentos, o secretário Márcio Chaves Pires dedicou boa parte de sua fala à situação do SAE/CTA.
“As denúncias apresentadas serão devidamente averiguadas e apuradas. Com relação ao que o Luca falou e também ao que o Jarden trouxe, vou considerar como a mesma denúncia ou a mesma colocação. Na última audiência essa mesma questão foi levantada e vou responder da mesma forma, mas agora com mais informações.
Outro dia mesmo o vereador Mesquita me encaminhou um vídeo de uma paciente do CTA dizendo que não estava tendo acesso ao atendimento. A nossa situação é delicada porque, às vezes, as pessoas fazem denúncias nas redes sociais e aquilo vira uma verdade absoluta. Nem sempre a Secretaria pode rebater a altura, porque envolve sigilo do paciente. Pois bem, puxei a ficha dessa paciente e, nos últimos seis meses, ela passou 12 ou 14 vezes pelo CTA com equipes multiprofissionais, inclusive infectologista. Eu liguei para essa paciente, pessoalmente. E sabe qual foi a resposta? Ela disse que queria que um infectologista específico voltasse, porque estava em primeiro lugar no concurso. Ou seja, não era falta de infectologista, mas preferência por um profissional.
A denúncia tem que ser feita de forma correta. O pleito justo é termos um quadro permanente de concursados, mas simplesmente dizer nas redes que não há profissional, quando há equipe multiprofissional e infectologista atendendo, não é verdade.
Quero ressaltar: o CTA tem equipe multiprofissional atendendo. Temos infectologistas. Esse debate precisa ser claro. O CTA, inclusive, está desvirtuado em sua função e no espaço onde está hoje. Estamos discutindo um novo modelo de ambulatório, voltado tanto para HIV/Aids quanto para a população trans. Estamos, inclusive, recebendo uma emenda parlamentar para isso.
Não existe nenhuma possibilidade de fechamento do serviço. É um equipamento de referência regional e recebe recursos para sua manutenção. Mas vamos reorganizar o atendimento.
Sobre psiquiatras, até dois meses atrás, a cidade toda carecia de profissionais. Mas ampliamos a rede de atenção psicossocial. Então, se alguém no CTA precisa de psiquiatra, pode ser atendido rapidamente pela rede. Com endocrinologistas, ocorre da mesma forma: temos profissionais atendendo no SAE Carlos Cruz, no CTA e na rede assistencial.
Uma queixa recorrente era a dificuldade de agendamento. Então determinei que o sistema de marcações fosse aberto até 31 de dezembro, e não mês a mês. Já redimensionamos o atendimento com os mesmos profissionais. Ninguém que procura o CTA fica sem assistência. Mas quero chamar a atenção: 50% das pessoas que marcam consulta não comparecem. Esse absenteísmo é alto.
Com relação às denúncias, vamos agendar uma conversa com a gerência da unidade para verificar possíveis problemas de fluxo. O que posso garantir é que a equipe multiprofissional está lá e atende. Existe infectologista, existe psicólogo, existe acolhimento. E para casos que exigem psiquiatra ou endocrinologista, a rede está preparada.
Além disso, estamos preparando uma série de contratações via concurso, conforme o orçamento for recomposto até o final do ano. Então reforço: o atendimento existe, está acontecendo, e a equipe está trabalhando. Agora, precisamos também que as denúncias sejam feitas de forma correta, sem distorções.”
Angélica Torquato, usuária do serviço e responsável pelas denúncias, rebate secretário
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As declarações do Secretário Márcio Chaves Pires geraram forte reação. Pelas redes sociais, a técnica de enfermagem Angélica Caetano Torquato, paciente do CTA há quase 20 anos e uma das principais denunciantes do colapso no atendimento, afirmou que o secretário mentiu ao citá-la na audiência e violou seu direito de sigilo ao expor detalhes de seu prontuário.
“O secretário nunca me ligou para conversar, como disse. E mais grave: expôs quantas vezes eu estive no CTA, quebrando meu direito ao sigilo do prontuário. Eu nunca disse que queria um médico específico. O que denuncio é a falta de infectologistas efetivos desde dezembro de 2024. Hoje há apenas uma médica concursada e três PJs, muitos nem infectologistas são, apenas clínicos gerais. Isso não garante atendimento contínuo e de qualidade.”
Segundo Angélica, todas as vagas para consultas com infectologistas estão esgotadas até o fim do ano. “Quem precisa de consulta agora só consegue vaga para 2026”, afirmou.
Ela também contestou a justificativa sobre pacientes faltarem nas consultas:
“O secretário disse que muita gente falta às consultas, mas não explicou o real motivo. Nós precisamos de vínculo com o médico. Não adianta marcar hoje com um profissional e no retorno ser outro. Essa rotatividade desestimula e prejudica a adesão ao tratamento.”
Angélica relatou que a carga horária de infectologistas despencou nos últimos meses — de 154 horas para 58 horas no CTA e de 76 para 52 horas no SAE Carlos Cruz.
“Eu mesma continuo em acompanhamento, mas luto por quem não tem voz, por medo do estigma. Muitas pessoas não conseguem se expor. Denuncio porque sei que a falta de especialistas está sobrecarregando a equipe e colocando vidas em risco. O que o secretário falou na Câmara é mentira. Ele distorceu a nossa luta.”
A ativista também informou que acionou o Ministério Público e pretende continuar denunciando:
“Estamos há 10 meses sem solução. Já dei entrada no Ministério Público, estou aguardando retorno. Enquanto a situação não for resolvida, não vou me calar. Saúde pública de qualidade é um direito de todos nós.”
Entenda o caso: denúncias foram feitas em agosto de 2025

Em agosto, a Agência Aids revelou que o SAE/CTA de Guarulhos enfrenta colapso no atendimento após a saída de seis infectologistas em dezembro de 2024. Apenas uma médica concursada permaneceu, incapaz de atender sozinha as pessoas acompanhadas pelas unidades, informaram ativistas.
Pacientes relataram que as consultas foram reduzidas à renovação de receitas e exames como carga viral e CD4 deixaram de ser realizados. A ONG Marinatti de Direitos Humanos alertou que a falta de atendimento ameaça não apenas vidas individuais, mas também a saúde coletiva, ampliando o risco de novas infecções pelo HIV.
Redação da Agência de Notícias da Aids
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Angélica Caetano Torquato
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