19/08/2014 – 19h
O Grupo Pela Vidda/São Paulo está em festa para celebrar os 25 anos de sua fundação, que acontece nessa quinta-feira (21). A comemoração será na próxima quinta (28), não por acaso, na sede do Centro de Referência da Diversidade (CRD). Trabalhar com a diversidade é, desde o início, um dos propósitos principais da ONG. “Fazer o evento ali é uma demonstração do nosso compromisso em tornar menos vulnerável a população que esse projeto contempla”, diz Mário Scheffer, ex-presidente do Pela Vidda/SP.
O CRD nasceu de uma parceria do Pela Vidda/SP, que significa Valorização, Integração e Dignidade do Doente de Aids, com a prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS). É um espaço público de acolhimento e inclusão social da população lésbicas, gays, homossexuais, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT).
Seu endereço é estratégico: um sobrado na região da Praça da República, local de maior frequência do público LGBT. A ideia é que as portas estejam abertas para os que trabalham, vivem ou simplesmente passam por ali. Mas pessoas de outras regiões também chegam em busca de atendimento psicossocial, orientações e encaminhamentos jurídicos, apoio à saúde ou para fazer uma das oficinas de capacitação profissional.
Focalizar sem discriminar
Scheffer conta que a prevenção voltada para os homossexuais é uma das mais fortes identidades do grupo. “O Pela Vidda nunca deixou de assumir a vulnerabilidade dos gays. Acompanhamos de perto a discussão da não discriminação desse público sem deixar de reconhecer que ele é imensamente mais vulnerável e, portanto, tem de ser contemplado com ações específicas. Nosso lema é focalizar sem discriminar.”
Também desde o seu surgimento, no fim dos anos 80, conta Scheffer, a ONG tem o propósito de lutar pelo direito civil, combatendo o preconceito por vias jurídicas. “Numa época em que a mortalidade por HIV era altíssima, a opção por denunciar a morte civil antes da morte física foi um dos nossos diferenciais”, continua o ativista e professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.
Outra marca fortíssima foi imprimida nos "Cadernos Pela Vidda", publicações históricas de informação sobre HIV/aids, direitos e cidadania, que podem ser lidas aqui .
“O primeiro caderno era um boletim de quatro páginas, com notícias sobre o AZT”, lembra Mário Scheffer. “Informar-se era questão de sobrevivência. A gente acompanhava cada passo, de cada descoberta, traduzia o material e publicava nos cadernos, que eram distribuídos nas ONGs e nos serviços de saúde.”
Considerado fundador do Pela Vidda/SP, Mário Scheffer conta que entrou para o grupo na sua inauguração oficial, em 1991. “O Jorge Beloqui é fundador número zero. Ele estava na primeira reunião, do primeiro núcleo.”
Beloqui conta que era maio de 1989 e o Pela Vidda/Rio de Janeiro acabara de ser fundado pelo sociólogo e escritor Herbert Daniel. “Eu conhecia o Herbert do movimento gay e fiquei lá no Rio uns tempos, participando das atividades da fundação.”
De volta a São Paulo, num evento no Centro Cultural São Paulo, que contou com a presença de Herbert Daniel, eles tiveram a ideia de pedir a então secretária de Cultura da Prefeitura, Marilena Chaui, uma sala para abrigar um núcleo paulista do Pela Vidda.
De um espaço dentro de uma biblioteca no Centro Cultural até chegar como pessoa jurídica à atual sede na Rua General Jardim, no centro, a ONG funcionou na casa dos fundadores, numa sala comercial da Avenida Paulista e em outra do Grupo de Apoio à Prevenção da Aids (Gapa).
Para Beloqui, além do projeto "Cadernos Pela Vidda", a grande marca do grupo, desde a fundação, é a integração de pessoas convivendo, e não apenas vivendo, com HIV. “Também surgimos com o propósito de fazer ativismo, não assistencialismo, por entender que o esforço individual não dá conta do combate à aids”, diz o hoje ativista do Grupo de Incentivo à Vida (GIV), professor e pesquisador do Comitê Comunitário de Vacinas
anti-HIV.
Ser uma ONG que, além dos soropositivos, reúne também amigos, parentes e cônjuges desses contribui para quebrar o estigma e o preconceito que cercam as pessoas vivendo com HIV. É nisso que acredita Murilo Bezerra Duarte, tesoureiro, coordenador e militante do Pela Vidda/SP.
Faz uns dez anos que Murilo chegou à ONG. Foi acompanhar duas pessoas no Chá Positivo, um evento que acontece às quintas-feiras, das 19h às 22h, com o objetivo de acolher as pesssoas recém-diagnosticadas com HIV. “Gostei e fiquei. Hoje, eu coordeno o Chá”, diz Murilo.
No Chá, voluntários dão depoimentos aos que chegam, revelando como descobriram o diagnóstico, superaram o susto e a insegurança , enfim, como vivem com HIV.
“Quando cheguei na ONG, em 2001, o Chá era triste, havia muita gente chorando por causa do diagnóstico”, revela o voluntário Sílvio Fernandes, 63 anos. “Eu chorei demais, achava que não ia escapar. Me mostraram que eu estava errado. Fui melhorando e hoje eu faço pelas pessoas o que fizeram por mim. Mas já não há tanto choro. Atualmente, as pessoas chegam sabendo que a aids já não é uma sentença de morte.”
Outro projeto do qual os ativistas do Pela Vidda/SP se orgulham é a Festa dos Aniversariantes (foto à esquerda), no último sábado de cada mês, das 18 às 22h. É uma festa temática, com iluminação, som, pista de dança, bolo. “Só não servimos álcool”, conta Murilo. “E reunimos de 60 a 70 pessoas. É uma grande celebração.”
O Cinema Mostra Aids oferece uma ótima oportunidade para quem quer conferir as produções que retratam a pandemia no mundo. “O próximo vai fazer uma retrospectiva dos melhores filmes exibidos durante os nove anos do festival”, continua Murilo.
Outro trabalho pontual é a campanha Viaje Bem Com Camisinha — na sexta-feira de Carnaval, voluntários distribuem nas rodoviárias da capital camisinhas, gel e folhetos informativos sobre DST/aids. “É muito legal fazer essa interação com o público”, conta Murilo. “No último Carnaval, distribuímos mais de 50 mil preservativos. E eles acabaram muito rapidamente. Para o próximo, precisamos triplicar esse número.”
Há muitos outros projetos e histórias dos 25 anos do Pela Vidda, que voc ê pode conferir acessando o site do grupo.
Dica de entrevista:
Grupo Pela Vidda/SP
Tel.: (11) 3259-2149
(11) 3259-2149
Centro de Referência da Diversidade
Tel.: (11) 3151-5786
(11) 3151-5786
Fátima Cardeal (fatima@agenciaaids.com.br)


