A segunda rodada do Grupo I da Copa do Mundo de 2026 acontece nesta segunda-feira (22) e coloca em campo algumas das seleções mais interessantes da competição. Às 18h (horário de Brasília), a vice-campeã mundial França enfrenta o Iraque no Lincoln Financial Field, na Filadélfia. Mais tarde, às 21h, Noruega e Senegal se enfrentam no MetLife Stadium, em Nova Jersey, em um duelo que pode embaralhar a disputa pelas vagas nas oitavas de final. Mas além do futebol, o Grupo I também chama atenção por reunir países que representam extremos na resposta ao HIV: de iniciativas que buscam acabar com a epidemia até legislações que ainda criminalizam populações mais vulneráveis ao vírus.
Enquanto França e Noruega figuram entre os países mais avançados da Europa em prevenção, tratamento e qualidade de vida para pessoas vivendo com HIV, Iraque e Senegal enfrentam desafios relacionados ao estigma, à criminalização e ao aumento recente de novas infecções.
França enfrenta Iraque em duelo de realidades opostas
Favorita à classificação, a França chega à segunda rodada carregando não apenas tradição futebolística, mas também uma das respostas mais consolidadas da Europa ao HIV.
O país foi um dos pioneiros na implementação de políticas de prevenção combinada, acesso universal ao tratamento e ampliação da PrEP. Nas últimas décadas, os franceses conseguiram reduzir significativamente as novas infecções e avançaram rumo às metas globais do Unaids, tornando-se uma referência internacional no enfrentamento da epidemia.
Do outro lado estará o Iraque, país que vive uma realidade bastante diferente.
Atualmente, cerca de 3.400 pessoas vivem com HIV em território iraquiano. Embora a prevalência permaneça baixa, o número de novas infecções vem crescendo rapidamente. Em 2022 foram registrados 500 novos diagnósticos; dois anos depois, esse total chegou a 740, um aumento de 48%.
Especialistas alertam que os números podem ser ainda maiores devido à baixa cobertura de testagem e à forte estigmatização das populações mais vulneráveis.
A situação tornou-se ainda mais preocupante após a aprovação, em 2024, de uma lei que criminaliza relações entre pessoas do mesmo sexo, com penas que podem chegar a 15 anos de prisão. A legislação também prevê punições para pessoas trans e para quem promover direitos LGBTQIA+.
Segundo organizações internacionais, políticas desse tipo dificultam o acesso aos serviços de prevenção, testagem e tratamento, especialmente entre populações-chave para o controle da epidemia. Atualmente, apenas 70% das pessoas diagnosticadas com HIV no país recebem tratamento antirretroviral. A PrEP ainda não foi incorporada ao sistema público de saúde.
Noruega e Senegal: avanços científicos e desafios sociais
O segundo confronto da rodada reúne dois países com trajetórias muito diferentes na resposta ao HIV.
A Noruega é reconhecida internacionalmente por seus elevados investimentos em saúde pública e por seus indicadores de qualidade de vida. Em 2022, Oslo tornou-se a segunda cidade nórdica a aderir à iniciativa Fast-Track Cities, do Unaids, comprometendo-se com a meta de eliminar a Aids como ameaça à saúde pública até 2030.
O país também ganhou destaque no início de 2026 após a divulgação do caso conhecido como “paciente de Oslo”. Um homem de 63 anos apresentou remissão do HIV após um transplante de medula óssea realizado para tratar um câncer hematológico, tornando-se um dos poucos casos documentados mundialmente de remissão prolongada do vírus.
Apesar dos avanços, a Noruega ainda convive com debates relacionados à criminalização do HIV. Historicamente, o país esteve entre aqueles com maior número de processos judiciais per capita envolvendo exposição ou transmissão do vírus, embora mudanças legislativas tenham reduzido significativamente essas possibilidades nos últimos anos.
Já o Senegal enfrenta um cenário mais desafiador.
O país abriga cerca de 48 mil pessoas vivendo com HIV e registrou um aumento de 36% nas novas infecções entre 2010 e 2024, tornando-se uma das poucas nações da África Ocidental e Central a apresentar crescimento nos diagnósticos durante esse período.
Embora a prevalência nacional seja relativamente baixa, de 0,3%, alguns grupos concentram taxas muito mais elevadas. Entre homens que fazem sexo com homens, por exemplo, a prevalência chega a 27,6%.
Nos últimos meses, o país ampliou as preocupações de organizações internacionais após aprovar uma lei que aumentou as penas para relações entre pessoas do mesmo sexo e criminalizou a chamada “promoção” da homossexualidade. O Unaids alertou que medidas desse tipo tendem a afastar populações vulneráveis dos serviços de saúde e dificultam uma resposta eficaz à epidemia.
Também em 2026, dezenas de pessoas foram presas em Dakar sob acusações relacionadas à homossexualidade e à suposta transmissão intencional do HIV. Segundo organizações de direitos humanos, o status sorológico passou a ser utilizado como critério para manutenção da prisão de parte dos detidos.
Nos estádios da Filadélfia e de Nova Jersey, os resultados ajudarão a definir o futuro das seleções na Copa do Mundo. Fora deles, porém, a disputa contra o HIV continua sendo travada diariamente — e os exemplos do Grupo I mostram que o sucesso depende tanto de avanços médicos quanto da garantia de direitos e do combate à discriminação.
Redação da Agência de Notícias da Aids




