Espanha, Uruguai, Arábia Saudita e Cabo Verde entram em campo neste domingo (21) carregando histórias muito diferentes no enfrentamento ao HIV, que vão de avanços históricos na prevenção a desafios relacionados ao estigma e aos direitos humanos.
A segunda rodada do Grupo H da Copa do Mundo de 2026 coloca frente a frente países separados por oceanos, culturas e modelos de sociedade. Neste domingo (21), às 13h (horário de Brasília), Espanha e Arábia Saudita se enfrentam em Atlanta. Mais tarde, às 19h, Uruguai e Cabo Verde duelam em Miami. Se a disputa dentro de campo vale pontos importantes na corrida por uma vaga nas oitavas de final, fora dos estádios as quatro nações revelam realidades igualmente distintas em outra partida global: o enfrentamento ao HIV.
De um lado, países que se aproximam das metas internacionais de diagnóstico e tratamento. Do outro, desafios que envolvem estigma, restrições migratórias, desigualdades de acesso à saúde e barreiras para populações vulneráveis. O contraste é tão grande que o Grupo H reúne desde um país que aguarda o reconhecimento da eliminação da transmissão vertical do HIV até outro que mantém restrições de residência para pessoas vivendo com HIV.
Juntos, Espanha, Uruguai, Arábia Saudita e Cabo Verde somam cerca de 190 mil pessoas vivendo com HIV, mas a distribuição da epidemia e a resposta dos sistemas de saúde variam significativamente entre eles.
Espanha busca confirmar favoritismo dentro e fora de campo
Atual campeã europeia e uma das favoritas ao título mundial, a Espanha chega à segunda rodada tentando encaminhar sua classificação para o mata-mata. Fora dos gramados, o país também é considerado uma referência internacional na resposta ao HIV.
Nas últimas décadas, a Espanha ampliou o acesso à testagem, ao tratamento e à PrEP, alcançando indicadores próximos das metas globais estabelecidas pelo Unaids. A estratégia de prevenção combinada e o acesso universal aos medicamentos ajudaram a reduzir significativamente as novas infecções, especialmente quando comparadas aos níveis observados nas décadas de 1980 e 1990.
Apesar dos avanços, o país ainda enfrenta desafios relacionados ao diagnóstico tardio, sobretudo entre pessoas mais velhas e migrantes, além da necessidade de ampliar o acesso à prevenção para populações mais vulneráveis.
Arábia Saudita combina bons indicadores clínicos e forte estigma
Adversária da Espanha, a Arábia Saudita apresenta um cenário que chama atenção pelos contrastes.
Segundo o Unaids, cerca de 13 mil pessoas vivem com HIV no país. Destas, 94% conhecem seu diagnóstico, 98% recebem tratamento antirretroviral e 98% alcançaram supressão viral, números comparáveis aos de muitos países de alta renda. Em 2024, foram registradas aproximadamente 1.400 novas infecções.
Por outro lado, organizações internacionais apontam preocupações relacionadas ao estigma e à transparência dos dados epidemiológicos. Trabalhadores estrangeiros podem enfrentar restrições migratórias relacionadas ao HIV, incluindo exigência de testagem para determinados vistos e limitações para obtenção de residência.
Outro tema frequentemente citado por entidades de direitos humanos é a criminalização das relações homoafetivas no país, fator que pode dificultar o acesso de populações-chave aos serviços de prevenção e diagnóstico. A PrEP ainda possui disponibilidade limitada e não é amplamente ofertada pelo sistema público de saúde.
Uruguai avança com políticas inclusivas
No segundo confronto da rodada, o Uruguai entra em campo carregando não apenas tradição futebolística, mas também uma das respostas mais avançadas da América Latina ao HIV.
O país se destaca por políticas públicas voltadas à inclusão social e à garantia de direitos, incluindo legislações voltadas à população LGBTQIA+ e pessoas trans. Essas iniciativas ajudaram a fortalecer o acesso aos serviços de saúde e às estratégias de prevenção.
Nos últimos anos, o Uruguai ampliou a oferta de tratamento e prevenção, consolidando uma resposta considerada referência na região. Ainda assim, especialistas apontam a necessidade de ampliar o diagnóstico precoce e reduzir desigualdades que afetam populações mais vulneráveis.
Dentro de campo, a Celeste tenta utilizar sua experiência em Copas do Mundo para dar mais um passo rumo às oitavas de final. Bicampeão mundial, o país segue entre as seleções mais respeitadas do torneio.
Cabo Verde sonha com classificação e celebra avanços históricos
Estreante em Copas do Mundo, Cabo Verde também vive um momento importante na resposta ao HIV. O país registra aproximadamente 3.900 pessoas vivendo com o vírus. Cerca de 80% conhecem seu diagnóstico, 82% recebem tratamento e 69% apresentam supressão viral. Em 2025, foram registrados cerca de 500 novos diagnósticos.
Uma das notícias mais positivas veio no início de 2026, quando o governo solicitou à Organização Mundial da Saúde a certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV. Segundo as autoridades, o país não registrou casos de transmissão de mãe para filho nos dois anos anteriores ao pedido.
Os desafios, contudo, permanecem. A condição insular do arquipélago dificulta a distribuição de serviços de saúde entre as diferentes ilhas, enquanto o estigma ainda afasta parte da população da testagem e do tratamento. A PrEP começou a ser introduzida gradualmente a partir de 2020 e ainda não está disponível em toda a rede pública do país.
Nos estádios de Atlanta e Miami, os resultados ajudarão a definir o futuro das seleções na Copa. Fora deles, a luta contra o HIV continua sendo uma disputa de longo prazo, em que prevenção, diagnóstico, tratamento e combate ao preconceito seguem tão importantes quanto qualquer vitória em campo.
Redação da Agência de Notícias da Aids



