Grupo B da Copa reúne países que vão da transparência na resposta ao HIV ao desafio dos dados invisíveis

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A segunda rodada do Grupo B da Copa do Mundo de 2026, nesta quinta-feira (18), pode começar a definir os rumos da chave. Após os empates na estreia — Canadá 1 a 1 Bósnia e Herzegovina e Catar 1 a 1 Suíça — as quatro seleções chegam separadas por apenas um ponto, transformando os confrontos Suíça x Bósnia e Canadá x Catar em partidas decisivas para a classificação.

Mas, longe dos gramados, o Grupo B também reúne algumas das realidades mais distintas da resposta global ao HIV. Enquanto Suíça e Canadá figuram entre os países com sistemas de vigilância epidemiológica robustos e amplo acesso à prevenção, Bósnia e Catar enfrentam desafios relacionados à subnotificação, ao estigma e à dificuldade de conhecer a verdadeira dimensão da epidemia.

Juntos, os quatro países somam cerca de 84 mil pessoas vivendo com HIV. Mais do que os números absolutos, porém, a principal diferença entre eles está na capacidade de identificar quem vive com o vírus e garantir acesso à prevenção e ao tratamento.

Suíça x Bósnia: eficiência contra incerteza

O duelo da tarde (16h – horário de Brasília) coloca frente a frente duas seleções europeias que vivem momentos opostos tanto no futebol quanto na resposta ao HIV.

A Suíça chega à segunda rodada após empatar com o Catar e mantendo o favoritismo para avançar às oitavas. Presença frequente em Copas do Mundo, a equipe tenta repetir dentro de campo a regularidade que demonstra há anos em sua política de saúde pública.

Com cerca de 18 mil pessoas vivendo com HIV, o país está próximo de atingir integralmente as metas globais do Unaids. Cerca de 92% das pessoas conhecem seu diagnóstico, 98% têm acesso ao tratamento e 99% alcançam supressão viral. Em 2023, foram registrados apenas 352 novos diagnósticos.

A aposta suíça combina testagem ampla, acesso facilitado ao tratamento e forte expansão da PrEP. No fim de 2023, pelo menos 5.750 pessoas utilizavam a profilaxia pré-exposição, principalmente homens gays e outros homens que fazem sexo com homens, grupo que concentra quase 70% dos casos registrados no país.

Do outro lado estará uma das maiores incógnitas epidemiológicas do grupo.

A Bósnia registra oficialmente apenas 490 pessoas vivendo com HIV, mas especialistas acreditam que o número real possa ser pelo menos três vezes maior. O principal problema não é necessariamente a transmissão do vírus, mas a ausência de dados suficientes para compreender a epidemia. O próprio UNAIDS não dispõe de informações consolidadas sobre o país.

A baixa adesão à testagem é um dos principais obstáculos. Embora existam 19 centros de aconselhamento e diagnóstico, o número de pessoas testadas permanece reduzido. O envelhecimento populacional, a intensa emigração e as dificuldades estruturais herdadas do período pós-guerra também afetam a vigilância epidemiológica.

Se a Suíça representa uma resposta baseada em evidências e monitoramento constante, a Bósnia ilustra um desafio ainda presente em vários países: combater uma epidemia que nem sequer é plenamente conhecida.

Canadá x Catar: dois modelos opostos de enfrentamento

À noite (19h – horário de Brasília) , o Canadá enfrenta o Catar em um confronto que coloca frente a frente duas visões bastante distintas sobre prevenção e acesso ao HIV.

O Canadá chega embalado pelo empate diante da Bósnia e pelo crescimento de sua seleção no cenário internacional. Sede da Copa pela primeira vez, o país tenta alcançar também avanços em sua resposta à epidemia.

Atualmente, cerca de 65 mil pessoas vivem com HIV no território canadense. Aproximadamente 89% conhecem seu diagnóstico, 85% das pessoas diagnosticadas recebem tratamento e 95% atingem supressão viral. O país oferece ampla rede de prevenção, distribuição de preservativos, programas de redução de danos para usuários de drogas e acesso à PrEP.

Apesar dos avanços, persistem desafios importantes. Homens que fazem sexo com homens respondem por metade das infecções, enquanto cresce a participação das mulheres nos novos diagnósticos. Autoridades canadenses associam parte desse aumento aos impactos da pandemia de Covid-19 sobre os serviços de prevenção e testagem.

O cenário catariano é muito diferente.

Com cerca de 960 pessoas vivendo com HIV, o Catar apresenta uma das menores epidemias entre os participantes da Copa. Entretanto, organizações internacionais alertam que os números podem não refletir totalmente a realidade devido ao estigma social, às limitações na divulgação de dados e às restrições impostas a pessoas vivendo com HIV.

O dado mais preocupante é que aproximadamente 71% das pessoas soropositivas não sabem que vivem com o vírus. Embora 95% daqueles que recebem tratamento alcancem supressão viral, a dificuldade está em identificar quem precisa ser tratado.

Além disso, o país mantém políticas migratórias frequentemente criticadas por organizações de direitos humanos. Estrangeiros diagnosticados com HIV podem enfrentar restrições de residência ou deportação, e a testagem faz parte de processos obrigatórios para determinados vistos.

Muito além da classificação

Se a primeira rodada mostrou equilíbrio dentro de campo, a realidade do HIV no Grupo B revela diferenças profundas.

De um lado estão Canadá e Suíça, países que investem em vigilância epidemiológica, prevenção combinada, PrEP e acesso universal ao tratamento. Do outro, Bósnia e Catar convivem com obstáculos relacionados à produção de dados, à baixa testagem e ao estigma, fatores que dificultam conhecer o verdadeiro tamanho da epidemia.

A tabela da Copa mostrará quem avança às oitavas. Os números do HIV, porém, revelam outra disputa em andamento: a capacidade de cada país de transformar informação, prevenção e acesso à saúde em ferramentas para controlar uma epidemia que continua presente, mesmo em nações consideradas de baixa prevalência.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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