Governos regressivos e a ameaça ao enfrentamento do HIV/aids: ativistas reagem ao alerta das médicas Beatriz Grinsztejn e Birgit Poniatowski, da IAS

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O artigo assinado pelas doutoras Beatriz Grinsztejn e Birgit Poniatowski para a Folha de S.Paulo, trouxe um alerta contundente sobre os riscos que a ascensão do populismo e de governanças regressivas representam para a resposta global ao HIV/aids. O enfraquecimento de políticas públicas, o corte de investimentos e o ataque a direitos fundamentais criam um cenário de ameaça real aos avanços conquistados nas últimas décadas.

Ativistas brasileiros da luta contra a aids repercutiram a análise do artigo, reforçando a necessidade de nomear com precisão os retrocessos políticos e suas consequências para populações historicamente marginalizadas. Alessandra Nilo, Rodrigo Pinheiro e Harley Henriques apontam que não se trata apenas de uma questão ideológica, mas de um movimento sistemático que compromete a ciência, a equidade no acesso à saúde e os direitos humanos.

Diante desse contexto, a mobilização da sociedade civil e a luta por financiamento adequado tornam-se ainda mais urgentes para evitar um retrocesso monumental na resposta global ao HIV/aids.

Confira a seguir:

Alessandra Nilo, co -fundadora da Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero:

“Eu acho que no caso dos EUA, a questão está um pouco longe dessa perspectiva do populismo. Não me parecer ser isso o definidor de água. Nós temos várias experiências em governos populistas que não negaram a ciência, que não eliminaram os programas de HIV/aids, que não cortaram recursos de cooperação e é muito importante que a gente faça essa distinção. Não é o fato de América Latina, por exemplo. Temos vários exemplos aqui na América Latina, inclusive domesticamente. Agora a questão que me parece mais grave, são as políticas fascistas e que precisamos dar esses nomes. Governo Trump não é um governo populista e não deveria ser chamado de um governo populista. Ele deveria ser chamado de um governo fascista e de um governo que é, realmente, uma apropriação de tudo de interessante que também existe que nos Estados Unidos se criou, incluindo um programa importantíssimo para enfrentar o HIV/aids, que é o PEPFAR que funciona dentro do sistema de cooperação de externo americano que se estabelece. Então a questão não é se o governo é ou não populista, mas que esse governo é um governo fascista, de tendência discriminatória, um governo que nega a ciência, portanto é um governo negacionista e não é também uma relação direta. Não é uma relação direta. Nesse caso, o que eu acho que é muito importante desse artigo é ressaltar como a pandemia já está sob ataque e também reforçar o aspecto essencial que é o da participação da sociedade civil no processo de construção dessas respostas. Então, no caso dos Estados Unidos, a sociedade civil organizada tem feito muitas medidas de judicialização contra o governo Trump e é nessa estratégia de judicialização e de campanhas que denunciam a apropriação desse governo por um grupo de bilionários que, na verdade, não têm o menor compromisso com nenhuma política pública que interesse as pessoas e tem apenas interesse com as políticas que podem lhes dar algum ganho material. E é manter esse nível absurdo. Desigualdade e concentração de riqueza na mão dessa classe de bilionários que já é muito pequena e que já tem causado historicamente uma danos enormes para a vida do planeta como um todo. Então é importante também dizer que não é só o programa de aids que está ameaçado com essa nova política neo-fascista do governo americano. Mas na verdade o que está ameaçado ainda mais é todo um esforço que se construiu para garantir avançar minimamente com a concessão com o alcance de um desenvolvimento que seja sustentável que inclui o direito à saúde e à cuidade de gênero o reconhecimento das populações mais historicamente marginalizadas que ao longo da nossa história sempre ficaram para trás. Então, para mim, a questão do governo americano não é que é um governo populista, de forma alguma. Inclusive, tem características que nem se assemelham a isso, mas é que é um governo realmente fascista.”

Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum de ONGs/Aids de São Paulo:

“Eu concordo absolutamente com tudo o que foi colocado neste artigo. A diminuição de investimento no enfrentamento da aids já vinha ocorrendo há alguns anos e ele já vinha se agravando agora com esse corte de financiamento pelo governo americano no combate, vai dificultar muito as questões de ações, de combate ao enfrentamento, de acesso ao tratamento, principalmente nos países africanos. Essa questão ideológica de enfrentamento nas questões de gênero, principalmente com as populações LGBTQIA+, vai gerar um impacto também no trabalho de prevenção e tratamento no enfrentamento à aids, isso a nível mundial. O que eles precisam perceber. Transcrição – Estamos vendo esse retrocesso muito maior partindo dos Estados Unidos, mas aqui no Brasil também a gente já está tendo alguns reflexos em relação a isso, principalmente em algumas câmaras municipais, o pessoal da direita vindo com projetos de leis de enfrentamento, principalmente nas questões de gêneros, a gente precisa de uma mobilização local, para ver as especificidades locais, enquanto aqui no Brasil, enquanto base também, porque tem muitas questões específicas nas bases, mas também a sociedade civil e o governo aqui no Brasil, participar também de ver uma resposta para esse enfrentamento a nível mundial.”

Harley Henriques, do Fundo Positivo:

“Sem dúvida, dos grandes desafios que a epidemia de aids tem na atualidade é o tema do acesso. Se nós tivemos a ciência que nos trouxe grandes avanços na prevenção, como agora com o medicamento injetável a cada seis meses, ou no tratamento a pessoas que vivem com HIV de um comprimido ao dia, o que a gente percebe é que esses avanços da ciência são ainda para determinados grupos, territórios, já que a gente tem com esses avanços uma situação de uma morte a cada minuto no mundo. Então, como lidar com essa dualidade? É a questão do acesso. E trabalhar com acesso é trabalhar a aids na perspectiva dos direitos humanos universais e globais. Não dá para trabalhar a aids apenas como uma questão de saúde pública, mas saúde pública é ligada a direitos humanos. E sim nos preocupa quando a gente já tinha que vencer esse grande desafio de um acesso universal para conseguir chegar aos 90, 90, 90 da Unaids, como agora diante de situações aonde. Se tem uma maior retração de recursos por parte de governos mais conservadores que estão diminuindo o investimento global. Então, sim, nos preocupa que avanços ou que desafios se tornem ainda maiores a partir do que vem sendo implementado nesse começo de 2025.”

Marta McBritton, presidente do Instituto Cultural Barong:

“Penso que nós já retrocedemos e isso é assustador. Quantas ONGs Aids estão ativas no Brasil? Qual a situação das que sobreviveram? O próximo Congresso Brasileiro de HIV Aids que acontecerá no RJ ( após muitos anos) terá um espaço para as ONGs apresentem suas experiências de resistência durante a covid-19 e Governo Bolsonaro? Se somos parte da resposta e não há dúvida em relação a isso pq até agora não houve um debate profundo sobre nossa atual situação? Nossa atual invisibilidade cria um terreno fértil para as raízes do totalitarismo. Precisamos debater com urgência a política Trump tendo no radar que ela já nos afeta e o futuro não é promissor.”

Veriano Terto Jr., vice-presidente da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids):

“O artigo das doutoras Beatriz e Birgit ressalta aspectos políticos e sociais extremamente relevantes para respondermos à aids na atualidade e, por que não dizer, sempre. Nos últimos anos, os avanços biomédicos e as evidências cientificas, parecem ter pautado a resposta global e local à aids, muitas vezes deixando de lado as condições políticas que conformam a produção destes avanços e evidências. Ao longo deste mesmo tempo, a ABIA em conjunto com algumas poucas ONGs, tem chamado a atenção para este abandono dos aspectos políticos na conformação da resposta. No ano passado, em conjunto com a própria IAS, na Conferência Mundial da Aids em Munique, voltamos a chamar atenção sobre a ameaça que o populismo e autoritarismo crescentes no mundo poderiam trazer para os avanços obtidos na luta contra a aids. Infelizmente, éramos poucos a sinalizar este perigo eminente, mas que passou a se concretizar e se agravar com a posse de Trump em 20 de janeiro de 2025. É muito importante que a direção da IAS, entre outras instituições de apoio à resposta a aids, volte a pautar as dimensões políticas e sociais que determinam o passado, o presente e o futuro da resposta à aids no planeta. Neste sentido, o artigo é muito bem-vindo e é um passo fundamental para voltarmos a mobilizar e participar politicamente para a defesa, sustentabilidade e ampliação dos bons resultados obtidos até hoje na luta contra a pandemia.”

Eduardo Barbosa, coordenador do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra Aids: 

“Estamos, na atualidade, diante de duas vertentes que se chocam no enfrentamento do HIV/aids. Se, por um lado, avançamos e temos tecnologias capazes de melhorar a prevenção e oferecer maior qualidade na assistência, por outro, ainda não alcançamos o que desejamos: a cura. A ciência tem sido fundamental nesse processo. Por outro lado, a sociedade, mundialmente, tem mostrado seu lado mais conservador e distante de políticas inclusivas, que respeitem os direitos humanos, sem discriminação ou estigmatização. Essa postura social impede que mais pessoas tenham acesso à informação, saiam da invisibilidade e promovam a saúde.”

Dicas de entrevista

Gestos PE

www.gestos.org.br

@gestospe

FOAESP

www.forumaidssp.org.br

forumongsp@forumaidssp.org.br

Fundo Positivo

fundopositivo.org.br

@fundopositivo

Instituto Cultural Barong

Instagram: @institutoculturalbarong

ABIA

Tel.: (21) 2223-1040

Saiba mais 

“Por que o HIV pode estar à beira de um retorno monumental”, Dra. Beatriz Grinsztejn e Dra. Birgit Poniatowski deixam claro que a ascensão do populismo e de governanças regressivas ameaça desfazer ganhos duramente conquistados em relação à Aids e à saúde pública, artigo na Folha de S.Paulo

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