7/2/2007 – 16h50
Uma cartilha sobre sexualidade elaborada pelos mnistérios da Saúde e Educação será distribuída para 400 mil estudantes. A reportagem está na edição desta quarta-feira, 7, do jornal Folha de S.Paulo. O impresso inclui uma lista para ser preenchida com as melhores “ficadas” e compara o beijo ao chocolate por liberar endorfinas, mas ao contrário deste, queima calorias. O ministério da Saúde anunciou que pretende ampliar a distribuição de camisinhas nas escolas públicas. Leia na íntegra
CARTILHA ESCOLAR COMPARA BEIJO A CHOCOLATE
Impresso elaborado pelos ministérios da Saúde e da Educação será distribuído para 400 mil estudantes de 13 a 19 anos
Material inclui espaço para os adolescentes relatarem suas melhores “ficadas”, além de sugestões de músicas, filmes e leituras
O governo federal elaborou e vai distribuir para estudantes de escolas públicas de 13 a 19 anos uma “agendinha” com dicas sobre beijo, sedução, masturbação e saúde. Polêmica, a cartilha inclui até uma lista a ser preenchida com as melhores “ficadas” -relacionamentos-relâmpago entre jovens.
Na parte sobre beijos, a cartilha orienta que “beijar muitos desconhecidos numa única noite não é tão bom assim”, pelo risco de doenças. Mas compara o beijo ao chocolate, por “aguçar todos os sentidos” e “liberar endorfinas”, com a vantagem de ainda “queimar calorias”, ao contrário do doce.
O material faz parte do programa Saúde e Prevenção nas Escolas – Atitude para Curtir a Vida e aborda temas variados que vão dos efeitos colaterais do aumento de peso (espinha e preguiça) até homenagem ao cantor Cazuza, morto por Aids.
A cartilha foi elaborada pelos ministérios da Saúde e da Educação ao longo de 2006 e testada com alunos do Distrito Federal. A primeira tiragem teve 40 mil exemplares e o governo pretende encomendar 400 mil cópias adicionais.
Um item que pode instigar polêmica entre pais são as duas páginas dedicadas às “ficadas”. Em uma delas, há espaço para o aluno preencher os detalhes das mais espetaculares de sua vida -com o esclarecimento de que a “ficada” compreende várias coisas: beijar, namorar, sair e transar.
Nas páginas sobre o uso da camisinha, o caderninho ensina a colocar o preservativo sob o título “O pirata de barba negra e de um olho só encontra o capuz emborrachado”.
Entre os cinco motivos para usar camisinha há a “sedução”, além da “proteção”: “Colocar o preservativo pode ser uma excelente brincadeira a dois. Sexo não é só penetração. Seduza, beije, cheire, experimente!”. Há também os motivos “proteção” (da gravidez, da Aids, de doenças sexualmente transmissíveis e “do frio”) e “segurança”, para o dia seguinte ser “só boas lembranças”.
No final da página, existe uma ponderação sobre resistir a pressões externas e aguardar preparado o “momento certo” de transar. “Ter uma camisinha não é sinal de sem-vergonhice ou de segundas intenções.” Na parte de masturbação masculina, há a desmistificação sobre criar cabelos ou calos ou ficar com esperma “ralo”. Sobre a masturbação feminina, considerações higiênicas e dicas para uma exploração “tranqüila e relaxada”.
“O foco é o jovem, não a eventual censura que possa vir de um pai”, explica a diretora do Programa Nacional DST/Aids, Mariângela Simões. “A realidade é essa, “ficar” hoje é parte da vida de muitos jovens e o caderno é para anotações pessoais”, disse. A cartilha se chama “O caderno das coisas importantes – Confidencial”.
Para Mariângela, é inválida a crítica de estimulação precoce da sexualidade, bandeira de setores que se opõem à política de saúde e promoção dos direitos reprodutivos do governo. “Se a gente fosse considerar que uma cartilha ou um caderno fosse influenciar tanto o comportamento sexual das pessoas, não teríamos mais Aids no país.”
Segundo ela, é papel do Estado laico facilitar informações. As dicas de livros e filmes, que fogem do escopo técnico, foi, segundo ela, uma escolha subjetiva para explorar os temas. Estão lá “Filadélfia” e “A Gaiola das Loucas”, entre outros.
No caso das indicações de “músicas que dão o seu recado” -Cazuza, Legião Urbana, O Rappa, Jota Quest etc.-, a seleção é subjetiva e busca uma mensagem de contestação e esperança, explica ela. Entre os livros estão indicados guias de sexo e “O Jardineiro Fiel”, de John le Carré.( Leila Suwwan, da Sucursal de Brasília)
Isolada, iniciativa é inútil, dizem especialistas
O Ministério da Educação precisa se preocupar mais em educar os jovens do que em “ser legal”. Para especialistas consultados pela Folha, a iniciativa da agenda com orientação sexual é boa, mas deve ser acompanhada de outras medidas e elaborada com cuidado.
“O primeiro problema é fazer o mesmo material para diferentes faixas etárias e diferentes realidades”, afirma a psicanalista Suely Gevertz, do Instituto Sedes Sapientiae. “Uma garota de 13 anos pensa e age de forma diferente de uma de 17. E um menino de Alagoas vive uma realidade distinta de um de São Paulo.”
Para a psicóloga Rosely Sayão, colunista da Folha, a agenda do MEC não tem sentido algum e erra ao querer ter linguagem forçosamente jovem. “É coisa de adulto querendo ser jovem, fica artificial. Não é preciso moralizar o estudante, assim como também não se deve entrar na vida privada dele.”
Ela acredita que a escola tem de dar orientação, falar de afeto, mas nunca invadir a intimidade dos alunos. “Não vejo nenhum sentido educativo.”
Envolvimento dos pais
Para Carlos Ramiro de Castro, presidente do sindicato dos professores estaduais de São Paulo (Sieessp), que deu aula para uma turma de segundo ano do ensino médio com 20 grávidas, não adianta entregar agendas se o professor não for preparado para falar sobre orientação sexual. “Tem de envolver até os pais, afinal a educação sexual começa em casa.”
Diretora-executiva do Instituto Kaplan-Centro de Estudos da Sexualidade Humana, Maria Helena Vilela afirma que o problema está no objetivo da proposta. “Materiais de órgãos oficiais precisam enviar mensagens com foco na educação, não nas atitudes. Não adianta ser legal e não educar”, diz.
Para ela, o conteúdo da agenda não chega a incentivar os jovens a beijarem mais. “Esses estímulos eles já têm. Alguns pais, de famílias mais religiosas ou conservadoras, até podem ficar chocados. Mas não é aí que está o problema, e sim na falta de um projeto de orientação sexual consistente.”(Daniela Tófoli)
Governo vai ampliar a distribuição de camisinha para jovens de escolas públicas
O Ministério da Saúde anunciou ontem que pretende ampliar a distribuição de camisinhas para jovens nas escolas públicas após uma pesquisa constatar que 45% dos estudantes ouvidos tinham vida sexual ativa e que 30% não haviam usado preservativo na sua mais recente relação.
O governo rejeita que exista uma estimulação sexual precoce com a medida e avalia, com base em pesquisa da Unesco, que é necessária uma política pública sobre o tema que não seja omissa. Hoje, o programa de DST/Aids tem como meta anual a distribuição de 100 milhões de camisinhas para a faixa etária de 13 a 24 anos.
Ainda não há previsão de quando e como será feita a distribuição, mas pelo menos uma das formas será por meio de máquinas eletrônicas -já existe um concurso para o desenho do equipamento nas escolas técnicas federais. “Já existe uma decisão concreta de expansão”, disse ontem o ministro da Saúde, Agenor Alvares.
Não há dados precisos sobre quantas escolas já distribuem preservativos. Segundo o Censo Escolar de 2005, das escolas de ensino básico que abordam DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis) e Aids, 8,7% das escolas do ensino fundamental e 16,9% das de ensino médio oferecem preservativos.
A pesquisa que motivou a decisão do governo foi feita com escolas públicas que já implantaram o programa “Saúde e Prevenção nas Escolas”. O estudo mostra que, nesse universo, 70% usaram preservativo na relação mais recente.
O principal motivo para não usar camisinha, declarado por cerca de 43% dos alunos, foi não ter um preservativo disponível “na hora H”. A confiança no parceiro (23%) e a redução do prazer (21%) foram as outras justificativas. (LS)
Fonte: Folha de S.Paulo


