Gilead não aceita preço proposto pelo Brasil e acordo para levar lenacapavir ao SUS como PrEP não avança

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Em entrevista exclusiva à jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência Aids, diretor do Dathi, Draurio Barreira, revela que Ministério da Saúde ofereceu US$ 400 por pessoa ao ano à farmacêutica. Reunião com participação do ministro da Saúde terminou sem acordo para uso do medicamento como prevenção injetável

Uma reunião realizada nesta quinta-feira (31), em Brasília, entre o Ministério da Saúde e representantes da Gilead terminou sem o acordo esperado para viabilizar a incorporação do lenacapavir ao Sistema Único de Saúde (SUS) como profilaxia pré-exposição (PrEP). A informação foi revelada com exclusividade à Agência Aids pelo diretor do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi), Draurio Barreira.

Segundo o diretor, o próprio ministro da Saúde participou da negociação. O governo brasileiro colocou sobre a mesa uma proposta de US$ 400 por pessoa ao ano para a aquisição da tecnologia. O mesmo valor, segundo Draurio, foi apresentado à GSK/ViiV para o cabotegravir de longa duração. Uma das empresas aceitou a proposta brasileira; a outra, não.

Apesar do impasse para o uso do lenacapavir como PrEP injetável, Draurio afirmou que existe a perspectiva de discussão da incorporação do medicamento como opção de resgate no tratamento de pessoas vivendo com HIV.

Em entrevista à Agência Aids durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), no Rio de Janeiro, o diretor também fez uma avaliação contundente sobre o acesso às novas tecnologias. Para ele, o Brasil poderia ter chegado a acordos para os dois medicamentos injetáveis ainda no ano passado e estar na vanguarda de sua implantação desde 2025.

Draurio afirmou ainda que a prioridade do SUS será fazer as novas tecnologias chegarem justamente às populações que hoje encontram maiores barreiras para acessar ou aderir à PrEP oral — entre elas pessoas trans, travestis, profissionais do sexo, jovens e populações socialmente mais vulnerabilizadas.

A seguir, confira a entrevista:

Agência Aids – O Ministério da Saúde teve uma reunião nesta quinta-feira com representantes da Gilead em relação ao lenacapavir. Avançou alguma coisa?*

Draurio Barreira – Relativamente. Eu acho que nós conversamos com todas as grandes empresas farmacêuticas que produzem medicamentos para HIV e Aids. Como eu já disse, avançamos no memorando de entendimento com a Merck, conseguimos um pré-acordo, agora vamos discutir a incorporação do cabotegravir. E com a Gilead, ontem tivemos uma reunião, o próprio ministro participou para discutir a questão do lenacapavir, mas nada imediato.

Acho que há uma perspectiva até de incorporar o lenacapavir como uma droga de resgate para tratamento, é importante, mas, como PrEP injetável, no curto prazo, não chegamos a um acordo em relação aos preços.

Agência Aids – O governo ofereceu US$ 400 por pessoa ao ano?

Draurio Barreira – O preço da empresa eu não sei. Eu sei o preço que o Brasil oferece. E o Brasil ofereceu às duas empresas, tanto à GSK/ViiV quanto à Gilead, US$ 400 por pessoa ao ano. Essa proposta foi aceita por uma, mas não foi aceita por outra.

Agência Aids – O que você acha da postura da Gilead neste momento? A empresa está perdendo o bonde da história?

Draurio Barreira – Eu acho que nós já poderíamos ter tido um acordo com as duas empresas desde o ano passado e poderíamos estar na vanguarda da implantação das duas drogas injetáveis desde 2025. Então, eu acho que quem não entrou está perdendo e estará perdendo muito mais, porque a gente vai fazer uma implantação muito rápida.

E queremos fazer chegar, justamente pela questão da equidade, essa nova tecnologia para aquelas pessoas que não têm conseguido adesão ao tratamento oral, especialmente as pessoas transgênero, travestis, as profissionais do sexo, os jovens.

A gente tem tido um problema da adesão da juventude à PrEP oral. E todas as pessoas mais excluídas. A gente tem aqui camadas de exclusão, e a gente observa que quanto mais excluída, mais pobre. A questão também da raça, cor, é superimportante.

Você vê o perfil do usuário de PrEP no Brasil: a gente tem mais de 70% de homens gays, homens que fazem sexo com homens, brancos, de alta escolaridade, concentrados nos grandes centros urbanos, especialmente São Paulo e Rio.

Então, a gente quer chegar justamente aos mais excluídos, e essas tecnologias vão permitir que a gente expanda essa população.

Agência Aids – Estamos no século 21, com tantos avanços no enfrentamento ao HIV. Por que a indústria segue sendo tão intransigente quando a história está mostrando que o caminho é outro?

Draurio Barreira – Eu não vou responder pela indústria. Eu deixo aqui, eles respondam. Eu gostaria muito de ver realmente uma postura com preocupação mais social, que incluísse… E aí, na minha leiga lógica, eu acho que a escala é importante. Se a gente pode oferecer um produto bom a um preço acessível, nós teríamos muito mais gente. Aí é uma questão de escala, talvez, mas aí acho que é a lógica dos negócios. Eles devem responder.

“O acesso permanece sendo o grande desafio”

Agência Aids – O Dathi esteve muito presente nesta conferência e o governo brasileiro fez um grande esforço para trazer a AIDS 2026 para o país. Qual é a sua avaliação desta semana?

Draurio Barreira – Eu tenho uma avaliação muito positiva de tudo o que aconteceu e está acontecendo nessa conferência. Muito aliviado por estar chegando sexta-feira, ter sobrevivido. Foi uma agenda insana, mas plenamente bem-sucedida.

Nós passamos o último ano negociando a última tecnologia que nós precisávamos incorporar, que iríamos incorporar ainda nessa gestão, que era a questão da PrEP de longa duração, PrEP injetável. Agora já começamos a falar em PrEP oral de longa duração.

Houve assinatura de um memorando de entendimento entre a empresa Merck e a Fiocruz, com a participação do governo brasileiro acompanhando esse processo de desenvolvimento e futura negociação para incorporação aqui no SUS também.

Mas acho que a grande questão da conferência para nós sempre foi, desde o planejamento, colocar o acesso no foco das discussões. A gente sabia que a tecnologia seria pauta, a PrEP seria pauta, outras tecnologias seriam pauta, tecnologias duras, mas o acesso permanece sendo o grande desafio para o mundo todo e para a gente também.

Então, termos negociado ao longo do ano, termos conseguido chegar a um acordo e, na véspera, horas antes da abertura, termos fechado um acordo com a GSK e a introdução do cabotegravir… E é importante que se diga: já havia sido submetido o dossiê para incorporação na Conitec, que terá reunião na semana que vem em Brasília, dias 5 e 6.

Nós vamos, então, discutir a incorporação do cabotegravir no SUS e, a partir daí, tem todo o processo que nós conhecemos: consulta pública, uma nova reunião da Conitec para sacramentar a incorporação ou não.

Mas a gente espera que, por final de setembro, a gente já tenha definido a incorporação e o processo de aquisição ainda no ano de 2026. Esse é nosso objetivo, e a gente consegue terminar o ano entregando essa tecnologia que a gente vem há tanto tempo querendo e a sociedade civil vem demandando há tanto tempo dentro do Sistema Único de Saúde.

Fora isso, eu acho que o que pautou e pautará ainda nos próximos anos todas as discussões em torno da Aids é a questão do financiamento, a crise global de financiamento.

E o Brasil teve um papel, está tendo e terá, de muito destaque na conferência e na saúde global, pelo fato de não ser dependente de doações ou de financiamentos externos. O SUS é algo que todo mundo fica impressionado: como pode um país desse tamanho garantir a saúde como um direito humano, um direito universal e um dever do Estado?

Acho que aqui a gente colocou o Brasil nesse holofote, nesse lugar, sendo, ao mesmo tempo, um paradoxo, um desafio para os países ricos e uma inspiração para os países em desenvolvimento.

Então, acho que não vi… Sou uma pessoa suspeita para comentar, como co-host local, mas só vi elogios à organização, ao conteúdo, ao teor das discussões, aos participantes. E foram mais de 7 mil pessoas. Isso não é pouco para uma conferência organizada no Sul Global, em um país em desenvolvimento.

“Nós temos tudo, mas essa tecnologia não chega às pessoas que mais precisam”

Agência Aids – Alguma discussão da conferência chamou especialmente sua atenção?

Draurio Barreira – Eu vou pecar aqui pelo nome, pelo sobrenome do cientista, mas Rafael é o primeiro nome. Eu sou ruim de nomes. Mas ele falou da tecnologia dura e de todas as ferramentas de inovação para a eliminação do HIV e da Aids como problema de saúde pública. Me impressionou muito.

Óbvio, a gente já sabe, mas o apanhado de todas as tecnologias disponíveis hoje no mundo são mais do que suficientes para eliminar a Aids até 2030.

A questão, novamente colocada, e aí a mesa para mim foi importante nesse sentido, é você mostrar que nós temos tudo, mas essa tecnologia não chega às pessoas que mais precisam. A questão da equidade, que para a gente é um princípio.

Então, esse contraste entre a disponibilidade dos países ricos, terem todas as ferramentas, e a dificuldade de chegar a quem mais precisa é o grande marco para mim dessa conferência.

Mundo recebe nota 7; Brasil, 8,5

Agência Aids – De zero a dez, que nota você daria para a resposta que o mundo construiu no enfrentamento à Aids?

Draurio Barreira – Apesar de ser uma questão matemática da nota, ela é relativa também. Porque acho que o mundo avançou muito, nós temos todas as tecnologias, então, em termos teóricos, a gente poderia dar uma nota muito alta.

No entanto, a desigualdade, a disparidade regional, social, econômica, faz com que essa nota baixe. Especialmente no último ano, com essa crise global de financiamento, em que você vai ter, certamente, uma piora desse cenário epidemiológico em todo o Hemisfério Sul, especialmente na África, na Ásia, na América Latina talvez. Então, eu não daria mais do que 7.

Agência Aids – E para o Brasil?

Draurio Barreira – Bom, você sabe que eu sou muito suspeito, mas eu não sou ufanista. Eu acho que muita coisa precisa ser feita ainda.

Esse exemplo que eu dei do usuário de PrEP pode ser expandido também para o cuidado. A gente consegue oferecer o melhor do SUS para uma parcela muito significativa da população, mas não para todos.

Então, nós temos aí a população negra, a população indígena, quilombola, a população que vive longe dos centros urbanos, a população prisional, população em situação de rua, população trans.

Então, a gente ainda falha na oferta efetivamente universal na cascata de cuidado, desde a promoção até o tratamento. Eu diria que o Brasil está bem melhor do que o mundo de modo geral, mas eu daria 8,5.

“Está todo mundo falando do modelo brasileiro”

Agência Aids – Qual a importância de a Conferência Internacional de Aids acontecer no Brasil e na América Latina?

Draurio Barreira – Como eu comecei falando, eu acho que essa conferência cumpriu todos os objetivos que a gente esperava. E a gente sabia disso. A gente sabia que era uma oportunidade, podia ser um tiro pela culatra também. Mas a gente sabia que trazer o holofote para o Sul Global, e especialmente para um país que não depende de financiamento externo, era muito arrojado.

E isso tem sido… Não sou eu que estou dizendo, está todo mundo falando do modelo brasileiro.

Eu estava agora na sessão plenária, o orador, o mediador, estava falando do diferencial que você tem em um país da dimensão do Brasil, que consegue oferecer saúde universal, acesso universal.

Isso é muito importante, porque uma coisa é as pessoas ouvirem falar, alguém falar num congresso, outra é eles estarem aqui. Nós tivemos, não vou citar aqui por questões éticas, mas tivemos autoridade da saúde global que precisou de um atendimento e usou a rede SUS.

Então, comentando depois: que coisa maravilhosa você poder ser um estrangeiro, chegar aqui, passar mal e ter acesso. Claro que a gente sempre pode melhorar, mas o fato de as portas estarem abertas para toda a população, independentemente de serem brasileiros ou não, mas viverem no Brasil, isso é muito raro.

Agência Aids – Viva o SUS.

Draurio Barreira – Viva o SUS.

Agência Aids – Viva o combate à Aids no mundo.

Draurio Barreira – E vamos acabar até 2030.

Assista a entrevista

Redação da Agência de Notícias da Aids com informações

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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