Considerada o principal encontro mundial sobre HIV e aids, a Aids 2026, a 26ª Conferência Internacional de Aids, reunirá pessoas pesquisadoras e gestoras públicas, organismos internacionais, movimentos sociais, lideranças comunitárias e organizações da sociedade civil para debater os rumos da resposta global à epidemia. O evento será de 26 a 31 de julho, no Riocentro, no Rio de Janeiro.
A edição deste ano da conferência acontece em um contexto particularmente desafiador. Nos últimos anos, a resposta internacional ao HIV tem enfrentado um cenário de redução do financiamento global, reconfiguração da cooperação internacional, avanço de agendas antidireitos e enfraquecimento de mecanismos multilaterais de proteção dos direitos humanos.
Ao mesmo tempo, a recente aprovação da nova Declaração Política sobre HIV e Aids pelas Nações Unidas renovou compromissos internacionais para os próximos cinco anos, reforçando que o enfrentamento da epidemia depende da implementação efetiva de políticas públicas baseadas em direitos humanos, participação comunitária e financiamento adequado.
É nesse cenário que a participação da Gestos ganha relevância. Com mais de três décadas de atuação na defesa dos direitos das pessoas vivendo com HIV e das populações em situação de vulnerabilidade, a organização chega à Aids 2026 contribuindo para fortalecer a incidência política da sociedade civil, especialmente da América Latina e do Caribe, e para ampliar o debate sobre os desafios que atravessam a resposta global ao HIV.
Confira aqui a programação completa da Gestos na Aids 2026.
Para Juliana Cesar, coordenadora de Articulação Política, Relações Internacionais e Comunicação da Gestos, a conferência é um espaço estratégico para conectar produção científica, formulação de políticas públicas e experiências das comunidades. “O que buscamos é garantir que as demandas e reivindicações da sociedade civil, especialmente do Sul Global, estejam presentes nas discussões e confrontem a realidade dos desafios que vivemos hoje”, afirma.
Além de integrar a coorganização da conferência, a Gestos atua para que os debates incorporem questões que vão além da dimensão biomédica da epidemia, considerando os determinantes sociais da saúde, as desigualdades, a sustentabilidade do financiamento e a garantia dos direitos humanos como elementos centrais para qualquer resposta efetiva.
Na avaliação de Juliana, o momento exige que governos e organismos internacionais avancem na formulação e na efetiva implementação de compromissos. “O que falta, neste momento, não é saber o que fazer. Já temos evidências, compromissos e normas suficientes para acabar com a epidemia. O que falta é responsabilidade política para garantir os recursos necessários e transformar esses compromissos em ações concretas”, argumenta.
Entre os temas que a Gestos levará para a Aids 2026, estão a defesa do financiamento sustentável da resposta ao HIV, o fortalecimento da cooperação internacional, a proteção dos direitos humanos e a garantia da participação efetiva das comunidades nos espaços de decisão.
A organização também defende que pessoas vivendo com HIV e populações historicamente afetadas ocupem um papel central na construção das políticas públicas. “As comunidades precisam estar sentadas à mesa de decisão. Nada pode ser feito sem elas, e sua participação não pode ser apenas simbólica. As decisões precisam incorporar esse protagonismo de forma efetiva”, destaca Juliana.
Para Thiago Jerohan, assessore de projetos da Gestos, membre do Comitê Organizador da Aids 2026 e Co-chair da Global Village, a conferência representa um momento decisivo para o futuro da política global de HIV e aids: “A Aids 2026 acontece em um momento muito importante da história política do HIV. Estamos vivendo um processo global de desfinanciamento e fortalecimento de forças antidireitos. Essa conferência será um espaço fundamental de articulação e pressão política sobre os rumos da resposta global”.
A realização da conferência no Brasil também reforça esse papel estratégico. Internacionalmente reconhecido pela construção de políticas públicas de acesso universal ao tratamento e pela histórica participação da sociedade civil, o país sedia, pela primeira vez, os principais espaços de debate sobre HIV e aids justamente em um período de redefinição das prioridades globais.
Para Thiago, a presença das organizações comunitárias é condição para que as respostas continuem sendo construídas a partir das necessidades reais das populações afetadas. “Nada do que foi conquistado na resposta ao HIV aconteceu sem a pressão, a organização e a luta das pessoas vivendo com HIV e das populações-chave. Se as comunidades não protagonizarem este momento, outras pessoas irão desenhar essa resposta por nós”, defende.
Além da incidência política, a conferência também será um espaço de intercâmbio de conhecimentos científicos e fortalecimento de redes internacionais. “Esperamos aprender com as pesquisas mais recentes sobre tratamento, prevenção e cura, mas também fortalecer a articulação entre organizações da América Latina, do Caribe e de outras regiões. Esse diálogo é fundamental para reorganizar e fortalecer a sociedade civil diante dos desafios atuais”, espera Thiago.
Como parte do processo preparatório para a conferência, a Gestos coordenou, nos últimos meses, uma série de sessões informativas e de mobilização voltadas à sociedade civil da América Latina e do Caribe. Os encontros contribuíram para ampliar a participação das organizações da região, compartilhar informações sobre a Aids 2026 e fortalecer a construção coletiva de estratégias de incidência política antes do início da conferência.



