Gana protege pessoas com HIV; Panamá enfrenta epidemia entre indígenas: as histórias por trás da estreia no Mundial

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Enquanto a bola começa a rolar no Grupo L da Copa do Mundo de 2026, Gana e Panamá chegam ao gramado do BMO Field, em Toronto, carregando histórias que vão muito além do futebol. Nesta quarta-feira (17), às 20h (horário de Brasília), africanos e centro-americanos fazem sua estreia no Mundial em um duelo que coloca frente a frente dois países marcados por realidades bastante diferentes no enfrentamento ao HIV.

De um lado, Gana abriga uma das maiores populações vivendo com HIV da África Ocidental e possui uma legislação considerada avançada na proteção dos direitos das pessoas vivendo com HIV. Do outro, o Panamá enfrenta uma crise silenciosa que atinge principalmente suas populações indígenas, onde a aids já se tornou uma das principais causas de morte entre jovens.

Se dentro de campo o objetivo é avançar para as oitavas de final, fora dele a corrida é contra uma epidemia que continua produzindo desigualdades, estigma e desafios de acesso à saúde.

Gana protege pessoas com HIV, mas mantém perseguição à população LGBTQIA+

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Com aproximadamente 330 mil pessoas vivendo com HIV, Gana continua entre os países mais impactados pela epidemia na África Ocidental. Em 2024, foram registradas cerca de 15 mil novas infecções, número inferior ao observado dois anos antes, quando o país notificou 17 mil casos.

A trajetória recente é positiva. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que Gana reduziu em 38% o número de novas infecções desde 2010. Ainda assim, a prevalência do HIV permanece em 1,5% entre adultos de 15 a 49 anos, índice considerado elevado quando comparado à média global.

A transmissão sexual responde pela ampla maioria dos casos registrados no país. Desde 2008, o governo ganês mantém uma parceria estratégica com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), que auxilia no monitoramento epidemiológico e na implementação de políticas públicas de prevenção.

Um dos marcos mais importantes ocorreu em 2016, quando o parlamento aprovou a Ghana AIDS Commission Act. A legislação transformou Gana em uma das poucas nações africanas a estabelecer proteção legal explícita contra a discriminação de pessoas vivendo com HIV.

A lei prevê penas de até três anos de prisão para quem discriminar alguém por causa do diagnóstico positivo. Também proíbe a exigência de testes para contratação, a demissão de trabalhadores soropositivos, a negativa de acesso à educação e serviços de saúde e a divulgação do estado sorológico sem consentimento.

Mas o avanço em relação ao HIV convive com uma contradição profunda.

Embora proteja legalmente pessoas vivendo com o vírus, Gana continua criminalizando relações entre pessoas do mesmo sexo. Atualmente, atos homossexuais podem resultar em até três anos de prisão.

Em 2024, o parlamento chegou a aprovar uma legislação ainda mais rígida, conhecida como Lei de Direitos Sexuais e Valores Familiares, que ampliava as penas para até dez anos de prisão. O texto acabou não entrando em vigor após o então presidente Nana Akufo-Addo se recusar a sancioná-lo. Com a mudança de governo, a proposta foi arquivada, mas voltou a ser apresentada por parlamentares conservadores em 2025.

Para organizações internacionais, a criminalização da população LGBTQIA+ dificulta o acesso aos serviços de prevenção e tratamento, alimenta o estigma e cria barreiras adicionais para o controle da epidemia.

O fantasma de 2010 ainda move os Estrelas Negras

A seleção ganesa chega à sua quinta Copa do Mundo carregando uma das histórias mais emocionantes da história recente do torneio.

Em 2010, na África do Sul, Gana esteve a poucos centímetros de se tornar a primeira seleção africana a alcançar uma semifinal de Mundial. No último minuto da prorrogação contra o Uruguai, Asamoah Gyan teve nos pés a cobrança de pênalti que poderia mudar a história do futebol africano.

A bola explodiu no travessão.

Poucos minutos depois, os ganeses seriam eliminados na disputa por pênaltis. A cena se transformou em uma das imagens mais marcantes das Copas do Mundo.

Dezesseis anos depois, os Estrelas Negras voltam ao torneio tentando escrever um novo capítulo.

No Panamá, HIV avança entre indígenas e expõe desigualdades históricas

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Se em Gana o principal desafio é reduzir novas infecções em uma epidemia generalizada, no Panamá a preocupação está concentrada em regiões específicas onde o vírus continua avançando em ritmo alarmante.

O país possui aproximadamente 31 mil pessoas vivendo com HIV e registra cerca de 1.500 novas infecções por ano. A prevalência nacional é de 0,7%, uma das mais altas da América Central. Mas os números nacionais escondem uma realidade dramática.

A situação mais preocupante está no território indígena de Ngäbe-Buglé, região montanhosa e isolada onde vivem cerca de 225 mil pessoas. Embora represente apenas 5% da população panamenha, o território concentra aproximadamente 2.500 pessoas vivendo com HIV.

As autoridades de saúde classificam a epidemia local como fora de controle.

Em 2022, a aids tornou-se a principal causa de morte na região, sendo responsável por 7% de todos os óbitos registrados. Entre pessoas com menos de 29 anos, Ngäbe-Buglé respondeu sozinha por 30% das mortes relacionadas à doença em todo o país.

Os indicadores continuam piorando. Somente nos dez primeiros meses de 2024 foram identificados 258 novas casos de HIV e aids na região, uma taxa de incidência quase quatro vezes superior à observada nas áreas urbanas do Panamá.

A explicação passa por uma combinação de pobreza extrema, isolamento geográfico e dificuldade de acesso aos serviços de saúde.

Cerca de 64% da população local vive em situação de extrema pobreza. Muitas comunidades só podem ser alcançadas por barco ou após horas de deslocamento por estradas precárias e áreas montanhosas.

Embora o tratamento antirretroviral seja gratuito, o Panamá possui apenas 16 clínicas especializadas distribuídas por todo o país. Para muitos moradores de Ngäbe-Buglé, chegar até uma unidade de referência pode significar uma viagem de até seis horas.

O acesso à PrEP também permanece limitado. Atualmente, apenas três cidades oferecem a profilaxia gratuitamente: Cidade do Panamá, Colón e David.

A seleção que aprendeu a celebrar mesmo na derrota

A história do Panamá nas Copas é muito mais recente. A estreia ocorreu apenas em 2018, na Rússia, após uma classificação histórica que levou o país inteiro às ruas.

Naquele Mundial, os panamenhos perderam os três jogos da fase de grupos e sofreram uma goleada por 6 a 1 para a Inglaterra. Ainda assim, o momento que entrou para a história aconteceu justamente nessa partida.

Quando Felipe Baloy marcou o primeiro gol do Panamá em uma Copa do Mundo, os jogadores comemoraram como se tivessem conquistado o título. A cena correu o planeta e transformou aquela seleção em símbolo da paixão que move o futebol.

Agora, oito anos depois, os panamenhos voltam ao maior palco do esporte tentando conquistar algo que escapou em 2018: sua primeira vitória em uma Copa do Mundo.

Muito além dos três pontos

Quando Gana e Panamá entrarem em campo em Toronto, estarão representando muito mais do que duas seleções em busca da classificação.

De um lado, um país africano que protege legalmente pessoas vivendo com HIV, mas ainda criminaliza parte de sua população. Do outro, uma nação que oferece tratamento gratuito, mas convive com profundas desigualdades que deixam comunidades inteiras à margem da resposta à epidemia.

Noventa minutos decidirão quem larga na frente no Grupo L. A luta contra o HIV, porém, continuará muito depois do apito final.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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