Procedimento inédito realizado nos EUA amplia as possibilidades de transplante para pacientes HIV positivos e pode ajudar a reduzir a escassez de órgãos disponíveis
Um homem de 56 anos que vive com HIV (vírus da imunodeficiência humana) tornou-se a primeira pessoa do mundo a receber um transplante de pulmão retirado de um doador também HIV positivo. A cirurgia, considerada um marco na medicina de transplantes, foi feita em 21 de março por especialistas do centro médico NYU Langone Health, nos Estados Unidos, e pode abrir novas perspectivas para pacientes com HIV que necessitam de transplantes de órgãos em estágio avançado de doença. O anúncio do transplante aconteceu nesta sexta-feira (19).
O receptor foi Bertrand Nelson, morador de Nova Jersey que convive com o diagnóstico de HIV há mais de duas décadas. Ele recebeu simultaneamente dois pulmões (um deles do doador soropositivo) e um fígado de um doador falecido que também tinha o vírus. O procedimento foi bem-sucedido, e Nelson já retornou para casa após passar cerca de dois meses internado para recuperação.
Especialistas avaliam que a conquista pode ampliar significativamente o número de órgãos disponíveis para transplante. Até então, pessoas vivendo com HIV podiam receber órgãos de doadores sem o vírus, mas nunca havia sido realizado um transplante pulmonar entre dois indivíduos soropositivos. Em um cenário de escassez global de órgãos, a novidade representa uma potencial nova fonte de doações para pacientes que aguardam na fila para transplantes.
Avanço reflete mudanças no tratamento do HIV
Para especialistas, o caso representa décadas de avanços no tratamento da infecção pelo HIV. Graças aos medicamentos antirretrovirais, muitas pessoas conseguem manter a carga viral em níveis indetectáveis — ou seja, tão baixos que não são detectados pelos exames convencionais — e levam uma vida longa e saudável.
“É um marco por vários motivos”, afirma Sapna Mehta, diretora clínica do Instituto de Transplantes da NYU Langone e uma das responsáveis pelo protocolo que possibilitou o procedimento, em entrevista à revista Scientific American. “É uma verdadeira prova do quanto avançamos no tratamento de pacientes com HIV. Eles estão vivendo vidas longas e podem ser doadores de órgãos.”
Com o aumento da expectativa de vida, cresce também a incidência de doenças associadas ao envelhecimento entre pessoas que vivem com o vírus. Problemas cardíacos, hepáticos e pulmonares graves podem levar à necessidade de transplantes, elevando a demanda por órgãos compatíveis.
Lei abriu caminho para o transplante
O transplante só foi possível graças à Lei HOPE (HIV Organ Policy Equity Act), aprovada nos Estados Unidos em 2013. Antes dessa legislação, o transplante de órgãos provenientes de pessoas com HIV era proibido em âmbito federal.
A norma permitiu que órgãos de doadores soropositivos fossem destinados a receptores também infectados pelo vírus. Inicialmente, os transplantes de rins e fígados ocorreram apenas dentro de protocolos de pesquisa. Posteriormente, as autoridades de saúde norte-americanas flexibilizaram as regras para esses órgãos, embora procedimentos envolvendo pulmões e corações ainda sejam considerados experimentais.
Nesse contexto, a cirurgia realizada pela equipe da NYU Langone representa um passo importante para ampliar o acesso a transplantes entre pacientes soropositivos e aumentar o número de órgãos disponíveis para doação.
Do diagnóstico à recuperação
Nelson foi diagnosticado com HIV e sarcoidose em 2000. A sarcoidose é uma doença inflamatória que provoca o acúmulo anormal de células do sistema imunológico em diferentes órgãos, principalmente nos pulmões. Após tratamento, a condição permaneceu em remissão por cerca de duas décadas.
A situação mudou em 2021, quando ele contraiu a doença do legionário, uma forma grave de pneumonia causada pela bactéria Legionella sp. A infecção desencadeou uma nova manifestação da sarcoidose e provocou um rápido comprometimento da função pulmonar, levando-o a depender de oxigênio suplementar.
Em 2024, diante da piora do quadro clínico, Nelson precisou entrar na fila de transplantes. Depois de ter seu pedido recusado por um programa de transplantes da Pensilvânia, procurou o NYU Langone, onde foi submetido a uma extensa avaliação médica antes de ser aceito na lista de espera.
Poucos meses depois, recebeu a notícia de que havia um conjunto compatível de pulmões e um fígado disponíveis para transplante. No entanto, a cirurgia foi marcada por complicações. Durante o procedimento, Nelson sofreu uma parada respiratória e precisou ser reanimado pela equipe médica.
Após a operação, o homem ainda permaneceu internado por 67 dias até receber alta hospitalar. Mesmo com as limitações físicas decorrentes do longo período hospitalizado, sua recuperação emocional tem sido positiva. O próximo passo será iniciar a fisioterapia para recuperar a força muscular perdida ao longo dos últimos meses.
Para ele, a relevância do transplante vai além do aspecto médico. Ele espera que sua história ajude a combater o estigma que ainda cerca o HIV e incentive mais pessoas a considerarem a doação de órgãos. “Pessoas com HIV precisam saber que são elegíveis para serem doadoras de órgãos e que podem salvar a vida de uma ou até mesmo de várias pessoas”, destaca. Ele também deixou uma mensagem para aqueles que vivem com o vírus e aguardam por um transplante: “Vocês são importantes”.




