
Natural de Pernambuco, Lucas Pereira de Melo foi diagnosticado em 2015 e mora em Ribeirão Preto, SP, onde se dedica a lutar por direitos de pacientes como ele.
Quando recebeu o diagnóstico de HIV positivo em 2015, Lucas Pereira de Melo decidiu viver com o segredo na tentativa de se blindar contra o preconceito. Aos poucos, percebeu que esconder a verdade causaria mal a ele e que poderia estar contribuindo para que outras pessoas como ele levassem uma espécie de vida clandestina perante a sociedade.
Foi então que Lucas decidiu assumir o HIV publicamente e fazer dele uma bandeira. Hoje, o enfermeiro, professor e cientista social faz da doença sua linha de pesquisa na USP em Ribeirão Preto (SP), desenvolvendo estudos que podem ajudar pacientes a saírem da marginalização.
“Como que a gente pode se curar das narrativas na Aids, desse estigma da culpa? O meu processo de pesquisa tem a ver muito com a produção desses processos de cura não só para mim como também para as pessoas com quem eu trabalho nas pesquisas.”
Diagnóstico
Nascido em Pernambuco (PE), o diagnóstico do HIV em 2015, surgiu quando ele tinha 32 anos e lecionava na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), na cidade de Caicó.
A data de quando recebeu o resultado do exame nunca foi esquecida, assim como detalhes da ocasião.
“Era 30 de maio de 2015, no evento que eu estava organizando junto com outros colegas professores lá na universidade. A gente fazia um conjunto de ações na feira em variadas áreas, inclusive a gente convidava a equipe do município do serviço de atenção especializada em HIV”.
Melo decidiu fazer o teste depois que soube, dias antes, do diagnóstico positivo de um amigo próximo. Por ser homossexual, a sexualidade era como uma profecia. “Você vai ser gay, gay tem Aids”.
O diagnóstico, nas palavras do professor, foi como ‘uma confirmação do destino’, principalmente por causa da vulnerabilidade e da homofobia que homossexuais enfrentam.
Com receio do preconceito, Melo passou um ano e meio guardando segredo sobre a doença. Ele decidiu fazer o tratamento em Natal (RN), já que em Caicó era uma figura conhecida e a cidade era muito pequena.
Na época, por trabalhar em um curso de medicina, foram os amigos mais próximos, médicos, psiquiatras e psicólogas que cuidaram e deram todo o apoio no momento que mais precisou.
“Eu fiquei muito, muito mal, porque quando você é diagnosticado vem uma narrativa de culpa sobre você, sobre suas práticas, seus afetos e do medo também”.
Ainda que do meio acadêmico e da saúde, o estigma que o HIV carrega assustou o professor.
“Aquela imagem que a mídia produziu ali nos anos 80, 90, da peste gay, a imagem do Cazuza na capa da revista, isso tudo vem com muita força e é muito pesado”.
A escolha de compartilhar
A decisão de esconder essa parte da sua vida por 18 meses não foi fácil. “Me incomodava muito não poder falar abertamente sobre isso, o medo do estigma, o quanto isso ia influenciar nas minhas relações afetivas e sexuais”.
Foram alguns meses até absorver todas as informações, se adaptar ao remédio, que felizmente, no caso dele, não ocasionou efeitos colaterais e o deixou indetectável muito rápido, já que o diagnóstico veio muito no início.
Em 2016, o professor resolveu estudar sobre a Aids, a questão da doença com gênero e sexualidade e foi dos estudos que surgiu a ideia de projetos voltados a essa temática.
“A gente fazia a exibição de filmes sobre Aids em espaços públicos de Caicó, convidávamos pessoas da cidade, principalmente pessoas LGBT, para comentar os filmes”.
Foi nesse período que o professor entendeu como o processo de deixar em segredo tem dois lados. O primeiro é de se proteger dos estigmas, da violência, do preconceito que tira vidas, empregos e parceiros.
“Por outro lado, eu comecei a observar que manter em segredo poderia ser uma forma de nos tornarmos invisíveis socialmente. Quando isso acontece, primeiro que nos apagam da cena, as pessoas não nos veem e isso também tem um impacto muito forte sobre o estigma”.
Em dezembro de 2016, durante o simpósio que Melo organizou na universidade sobre a falta de visibilidade de pessoas que vivem com Aids, ele decidiu não ter mais sua condição como segredo.
O evento discutia a precarização dos serviços especializados na área, inclusive em Caicó, que funcionavam em uma única sala, sem a garantia de privacidade do paciente e que muitas vezes não eram suficientes para atender o caso médico.
“Foi aí que eu decidi: eu vou usar minha posição de privilégio aqui na universidade, vou falar publicamente sobre isso e fiz isso nesse evento”.
Relações afetivas
Ainda que não se esconder ajude Melo na luta de pessoas que vivem com Aids, a sinceridade, por vezes, gera feridas e inseguranças que não se apagam.
“As pessoas desenvolvem depressão, ansiedade, transtorno afetivo bipolar. A vida afetiva delas se acaba. Muitas vezes a gente não consegue um namorado, uma namorada”.
Por viver em uma cidade muito pequena na época do diagnóstico e por ser uma pessoa conhecida, a notícia da sua sorologia se espalhou rapidamente.
“Foi em abril, maio de 2016. Eu tinha conhecido um rapaz que a gente ficou por um tempo, só que eu vivia em segredo. Então eu sondei muito ele e eu saquei que ele não ia dar conta de todo o meu combo”.
A técnica de sondar um possível companheiro ou companheira é bastante comum entre pessoas que vivem com HIV, já que é uma oportunidade de descobrir o que aquela pessoa pensa sobre o assunto.
Com a reação do rapaz, Melo achou melhor se afastar e não contar sobre essa parte da sua vida, em especial porque eles não tiveram relações sexuais. Mas, após sua sorologia não ser mais um segredo na cidade, o rapaz mandou uma mensagem com medo de ter sido ‘contaminado’.
“Eu falei assim pra ele: fulano, eu queria te lembrar que a gente não teve nenhum tipo de contato e que, portanto, não tem risco nenhum. É muito importante já que você está com essa dúvida que você procure um serviço de saúde e faça um teste, mas não porque você me beijou e me abraçou, mas porque todo mundo tem que fazer”.
Em 2022, outra situação marcou sua vida afetiva. Depois de conhecer um rapaz em um aplicativo de namoro, no dia seguinte ao primeiro encontro o professor o convidou para a exibição de um filme que estava organizando com a temática da Aids.
“Ele foi ao outro dia assistir o filme e aí quando começou o debate e eu me coloquei publicamente, a figura nem terminou o evento. Foi embora e nunca mais conversou comigo”.
Universidade e ativismo
O estudo que fez Melo compartilhar sua sorologia também o inspirou a pesquisar sobre o tema na universidade. A dicotomia de autor e objeto faz com que o professor escreva de uma perspectiva mais pessoal e detalhista.
“A gente tenta fazer uma pesquisa que se coloca ao lado dessas pessoas, então a gente não faz pesquisa sobre elas, mas com elas, pra gente, enquanto pesquisador, conseguir escrever o que essas pessoas pensam, quais as suas perspectivas, como elas produzem conhecimento e entendem a violência que sofrem”.
O lugar de privilégio dentro da academia é uma exceção na representatividade de pessoas que vivem com Aids e, por isso, Melo continua suas pesquisas e suas contribuições sobre o assunto.
Foi durante os estudos ainda em Caicó que o professor conheceu a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP) por meio de um amigo ativista.
Criada em 1995, a Rede possui atualmente núcleos em todos os estados brasileiros e é reconhecidamente uma parceira no enfrentamento da Aids junto ao governo. O lema do grupo é um encontro com a história do professor: ‘Antes no escondíamos para morrer, hoje nos mostramos para viver’.
Ao se mudar para Ribeirão Preto em 2018, Melo se transferiu para a RNP São Paulo e desde 2022 compõe a diretoria estadual. Ele intensificou sua participação na rede e começou a participar dos eventos nacionais.
“Esse ano, agora em novembro, eu fui eleito pra Secretaria Nacional Executiva. Fiquei bastante feliz, porque primeiro é um reconhecimento e é também uma coisa atípica, um professor que está com o pé no chão, no mundo, dialogando com as pessoas”.



