Sessão plenária mostrou que a ciência já oferece um amplo arsenal de prevenção, mas alertou que decisões políticas serão determinantes para alcançar as metas de eliminação da AIDS até 2030.
A sessão plenária “O Futuro da Prevenção ao HIV”, realizada na AIDS 2026, reuniu pesquisadores e lideranças comunitárias para discutir os próximos passos da resposta global ao HIV. Em comum, as apresentações apontaram que o conhecimento científico avançou de forma inédita nas últimas duas décadas, mas que o sucesso da prevenção dependerá da ampliação do acesso às tecnologias disponíveis, do desenvolvimento de uma vacina eficaz e da garantia de direitos para populações historicamente excluídas.
Ao abrir a sessão, Dra. Quarraisha Abdool Karim, do CAPRISA, na África do Sul, lembrou que o mundo registrou 1,2 milhão de novas infecções por HIV em 2025, reforçando que a prevenção continua sendo essencial para que a meta de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 seja alcançada. Ela destacou que somente uma resposta envolvendo ciência, governos, indústria e comunidades poderá produzir resultados duradouros.
Para a pesquisadora, os avanços obtidos com a terapia antirretroviral, a prevenção da transmissão vertical, o conceito de Indetectável=Intransmissível (I=I) e a profilaxia pré-exposição (PrEP) representam marcos históricos. “A ciência é apenas o primeiro passo”, afirmou. Segundo ela, eliminar o HIV exigirá, no futuro, uma combinação entre prevenção biomédica, vacina, cura e enfrentamento do estigma, da discriminação e das desigualdades de gênero. Dra. Karim também ressaltou que “a menos que incluamos a todos e não deixemos ninguém para trás, e até que trabalhemos com as comunidades e não de forma isolada, não alcançaremos nossas metas para 2030, nem acabaremos com a AIDS.”

Ciência entregou, mas a política ameaça os avanços
Na apresentação “PrEP 2026: State of the ART”, Dr. Raphael Landovitz, da Universidade da Califórnia (UCLA), defendeu que a ciência da PrEP já cumpriu sua missão.
“A PrEP funciona. Ponto final”, afirmou.
De acordo com o pesquisador, o principal obstáculo para o controle da epidemia deixou de ser científico e passou a ser político. Ele mostrou que os cortes no financiamento internacional, especialmente após o desmonte de programas como o PEPFAR e a redução de investimentos em pesquisas, ameaçam reverter décadas de progresso na prevenção do HIV.
Dr. Landovitz destacou que a PrEP de longa duração transformou o cenário da prevenção. “Um medicamento que se toma duas vezes por ano não é apenas ‘uma molécula melhor’, é uma relação completamente diferente com a prevenção”, afirmou. Para ele, medicamentos administrados apenas duas vezes por ano mudam completamente a relação das pessoas com a prevenção, aproximando-se da eliminação das infecções incidentes observadas nos estudos clínicos.
O pesquisador explicou, entretanto, que esse sucesso traz novos desafios para a pesquisa. “Não podemos mais realizar ensaios de prevenção controlados por placebo de forma ética; temos muitas coisas que funcionam”, ressaltou, explicando que, diante desse cenário, os pesquisadores passaram a desenvolver novas metodologias para avaliar futuras tecnologias preventivas.
Outro desafio apontado é o diagnóstico da infecção pelo HIV entre usuários de medicamentos de longa duração. Segundo ele, esses produtos podem retardar a detecção da infecção, exigindo testes mais sensíveis e maior vigilância.
“Precisamos urgentemente de testes rápidos mais sensíveis, acessíveis e com cadeia de suprimentos estável”, afirmou.
Apesar desses desafios, Dr. Landovitz apresentou um pipeline robusto de novas tecnologias em desenvolvimento, incluindo comprimidos semanais, injetáveis de duração ainda maior, inserções tópicas, adesivos de microagulhas e anticorpos amplamente neutralizantes. Segundo ele, o futuro da prevenção será marcado pela ampliação das opções disponíveis.
O pesquisador destacou resultados do estudo SEARCH, realizado no Quênia e em Uganda, que mostrou zero novas infecções quando os participantes puderam escolher livremente entre diferentes estratégias preventivas.
“A escolha, por si só, é uma intervenção”, resumiu.
Ao encerrar, fez um alerta contundente. De acordo com Dr. Landovitz, a ciência já produziu ferramentas suficientes para reduzir drasticamente a epidemia, mas sua implementação depende de financiamento, acordos de acesso, programas públicos e vontade política.
“Esta não é mais uma questão científica. É uma questão moral.”

Vacina continua sendo peça fundamental
Na sequência, Dra. Sandhya Vasan, da Henry Jackson Foundation, defendeu que vacinas e PrEP não competem entre si.
“Pelo contrário: funcionam em combinação e ampliam as opções de prevenção”, explicou.
A pesquisadora apresentou dados mostrando que apenas uma parcela das pessoas utiliza a PrEP de forma consistente, mesmo em estudos observacionais. Segundo ela, diferenças na adesão, na percepção de risco e no acesso reforçam a necessidade de uma vacina preventiva.
Ela reconheceu que o HIV continua sendo um dos vírus mais difíceis para o desenvolvimento de vacinas devido à sua elevada variabilidade genética, à capacidade de escapar da resposta imunológica e à existência de reservatórios virais. “O HIV apresenta desafios adicionais que podem ter feito nós, como vacinologistas, lutarmos para superá-los”, afirmou.
Ainda assim, destacou que “também temos motivos para esperança, e a esperança de que a proteção imunológica contra a aquisição do HIV é possível”. Segundo a pesquisadora, os avanços recentes em inteligência artificial, plataformas de mRNA, vetores virais, nanopartículas e novos imunógenos aceleram o desenvolvimento de candidatos cada vez mais promissores.
Dra. Vasan também ressaltou que os estudos atuais aproximam cada vez mais as áreas de prevenção, tratamento e cura funcional do HIV, permitindo que conhecimentos produzidos em uma área acelerem o desenvolvimento da outra.
Ao final, fez um alerta sobre o crescimento da hesitação vacinal.
Mesmo uma vacina com alta eficácia produzirá impacto limitado se parte significativa da população não confiar na ciência, afirma a pesquisadora: “Além da eficácia e durabilidade, a aceitação e o combate à hesitação são variáveis igualmente críticas para garantir o verdadeiro sucesso da implementação global de uma vacina contra o HIV”.
Para Dra. Vasan, fortalecer a comunicação e o engajamento comunitário será tão importante quanto os avanços laboratoriais. “A ciência como um bem público é realmente a nossa esperança para o futuro”, ressaltou, defendendo que é preciso tornar a ciência mais acessível, construir confiança e credibilidade para ampliar a adesão às vacinas.

Cuidados de afirmação de gênero são parte da prevenção
Encerrando a sessão, Amanita Calderón-Cifuentes, da organização TGEU, na Alemanha, defendeu que os cuidados de afirmação de gênero devem ser reconhecidos como elemento central da resposta ao HIV entre pessoas trans.
De acordo com a microbióloga, transfobia e cisnormatividade produzem impactos diretos sobre a saúde mental, o acesso aos serviços, a realização de testes e a adesão ao tratamento.
“Se queremos acabar com a AIDS até 2030 sem deixar ninguém para trás, os cuidados de afirmação de gênero são fundamentais”, afirmou.
A ativista apresentou dados mostrando que pessoas trans enfrentam maiores índices de depressão, ideação suicida, discriminação nos serviços de saúde, violência e exclusão social, fatores que comprometem a prevenção e o cuidado contínuo. “Isso nos impede de comparecer a consultas, de aderir ao tratamento e até de realizar testes”, afirmou. Também destacou que, enquanto houve redução global das novas infecções por HIV desde 2010, as infecções entre pessoas trans aumentaram no mesmo período, evidenciando que os benefícios da resposta global não têm sido distribuídos de forma equitativa. “Estamos deixando as comunidades trans para trás”, alertou.
Para ela, combater barreiras estruturais é tão importante quanto ampliar o acesso às tecnologias biomédicas, uma vez que “as barreiras estruturais são a principal limitação” para o acesso aos serviços de saúde e à prevenção.
Ao encerrar a sessão, os especialistas convergem em uma mesma avaliação: o futuro da resposta ao HIV dependerá menos da ausência de ferramentas científicas e mais da capacidade de garantir que elas cheguem às pessoas que mais precisam. A combinação de terapias, PrEP de longa duração, vacinas, novas tecnologias de prevenção e estratégias voltadas à cura funcional amplia as perspectivas para o controle da epidemia.
No entanto, os palestrantes alertaram que esses avanços só produzirão impacto se forem acompanhados de financiamento sustentável, vontade política, fortalecimento dos sistemas de saúde, combate ao estigma e participação ativa das comunidades.
A mensagem final foi de que ciência, equidade e compromisso coletivo continuam sendo os pilares para alcançar a meta de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



