18/01/2007 – 13h00
“O Brasil não sabe nem quantos são [os órfãos que tiveram os pais vitimados pela Aids], então como vai dar o tratamento adequado? Não sabemos onde estão, quem são ou quantos são”, esclarece o Padre Júlio Lancellotti, fundador da Casa Vida, local que cuida de crianças e adolescentes vivendo ou convivendo com Aids. “Não existe conhecimento desse público, não existe política pública para esse público. Isso é fato. Não existe política para os órfãos ocasionados pela Aids”, explica José Araújo, presidente da AFXB (Centro de Convivência para Crianças que vivem com HIV/Aids). Há 3,7 milhões de órfãos no Brasil, segundo dados divulgados na terça-feira (16/01) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Desses, quantos tiveram seu pai ou mãe (ou ambos) vitimados pela pandemia da Aids? Como a Agência de Notícias de Aids antecipou em matéria publicada no final da tarde de ontem (leia o texto na íntegra), ninguém sabe, pois não há dados oficiais sobre o assunto.
Padre Valeriano, fundador da Casa de Apoio Siloé, concorda com a opinião dos demais entrevistados. “Se o governo não conhece o número de órfãos, enfrenta muitos dificuldades no combate à epidemia. É como se esses jovens não existissem”, critica o religioso que, em 1994, fundou o local que atende crianças portadoras do HIV/Aids.
Nascido em dezembro de 1948 na cidade de Pontevico (norte da Itália), Valeriano avalia que, além do fato de as crianças e adolescentes já conviverem ou viverem com o HIV, eles também enfrentam os problemas comuns de todos os jovens brasileiros (sobretudo os carentes): ensino “degradante” e violência, exemplifica o clérigo. “O quadro geral enfrentado pela juventude é problemático”, lamenta o missionário.
Na opinião de José Araújo, presidente da AFXB (Centro de Convivência para Crianças que vivem com HIV/Aids), as políticas voltadas para esse público deveriam ter “começado ontem”. “Nós já perdemos uma grande oportunidade. São 25 anos de epidemia, muitas dessas crianças já são adolescentes, já são adultos e nada foi feito”, critica o ativista. Além disso, como não se tem dados oficiais sobre o perfil ou mesmo a condição sócio-econômica dessa parcela da população, é impossível avaliar se o tratamento dispensado aos jovens tem sido o “adequado”. “Não entendemos o mundo deles [dos órfãos que tiveram pais vitimados pela pandemia]. Nós não temos subsídios para oferecer um tratamento adequado. Nós nem temos como avaliar se estamos fazendo mais acertos do que erros”, explica Araújo.
Fundador da Casa Vida, o Padre Júlio Lancellotti concorda com a avaliação de José Araújo. Para o atendimento “global”, segundo o religioso, é “complicado”, pois não há dados sobre o assunto. Ele reclama da “burocracia excessiva” no momento de liberação de verbas, mas ressalta que o “dinheiro público” tem de ser tratado com cuidado e respeito. Padre Júlio, que fundou a primeira sede da Casa Vida em 1990 (hoje são dois os locais de atendimento), também lembra dos problemas inerentes da idade. “Nem todos os adolescentes aderem ao tratamento”, lamenta. Com isso, muitos perdem qualidade de vida e, às vezes, a própria existência.
Em comunicado divulgado na terça-feira (16/01), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) critica a falta de dados do governo brasileiro sobre “as crianças afetadas pela epidemia”. O texto explica que “não há dados sobre o número de crianças órfãs e vulneráveis por causa do HIV (crianças que têm pai ou mãe ou ambos vivendo com o HIV, por exemplo).” Ainda segundo a entidade, não haveriam nem mesmo “dados recentes sobre prevalência do HIV entre crianças e adolescentes.” O Programa Nacional de DST/Aids admite que não há “dados oficiais” sobre o assunto.
Léo Nogueira



