Ameaça a pessoas com aids mostra o quanto os republicanos caíram, analisa Financial Times

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Como retorno de Trump coloca sob risco corte de juros do Fed e inflação global | CNN Brasil

Passados dez dias do governo Trump, é difícil dizer o que é pior – a disseminação direcionada de medo pelas operações contra trabalhadores imigrantes e indígenas americanos ou a destruição imoral causada pela suspensão fortuita dos programas de auxílio internacionais do país.

Nesta semana, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, precisou se apressar para emitir uma medida de alívio temporária para as 20 milhões de pessoas, incluindo meio milhão de crianças, atualmente sendo mantidas vivas por medicamentos antirretrovirais sob o programa Pepfar (Plano Emergencial do Presidente para Alívio da Aids), em especial, na África. Algumas pessoas, segundo notícias, chegaram a ter os medicamentos contra a aids negados pelo decreto que suspendeu o auxílio internacional, e o futuro do Pepfar ainda continua em dúvida.

O Pepfar ajudou a tornar uma pandemia que assolava grande parte do continente em apenas mais um problema de saúde pública a ser administrado. Chama a atenção que seu criador tenha sido George W. Bush, assim como Trump, um presidente conservador que, em outras questões, piorou a reputação dos EUA no exterior e destruiu a probidade fiscal em casa.

O entendimento convencional a respeito de atos como cortar a ajuda é que são tolos, mesmo sob a ótica de um interesse próprio pragmático, porque diminuem o chamado poder suave dos EUA no exterior. Isso, possivelmente, é verdade, mas o Pepfar e a Conta do Desafio do Milênio (MCA, na sigla em inglês), um programa de ajuda separado criado por Bush na mesma época, não foram simples tentativas grosseiras de comprar influência. Eles provaram ser uma ruptura, genuína e de boa-fé, com as décadas de esforços cínicos de ajuda americanos que mantiveram clientes da política externa como Paquistão e Egito no lado dos EUA, mas pouco fizeram para melhorar a vida das pessoas lá.

Na época, como repórter cobrindo ajuda e desenvolvimento em Washington, levei algum tempo, em meio às dissimulações do governo sobre a guerra do Iraque e sobre muito mais, para perceber que as iniciativas de auxílio de Bush eram reais. Depois de certo tempo, tornou-se óbvio, e até ocasionalmente divertido conforme os planos avançavam, ver que os EUA estavam, para valer, criando programas de ajuda. O MCA foi anunciado de forma triunfal antes de uma reunião de cúpula de desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU) no México em 2002. Em seguida, precisou ser “esclarecido” alguns dias depois para revelar que o orçamento era duas vezes maior do que o divulgado de início. A peculiar história que circulou na época foi a de que a Casa Branca simplesmente havia entendido mal seus próprios números.

Bush anunciou o Pepfar em um discurso sobre o Estado da União em 2003. Disse que replicaria em outros países africanos o bem-sucedido modelo ugandense de “administração de antirretrovirais” (ARVs), por meio de uma rede de centros médicos com unidades-satélite de distribuição. Deixando de lado a ironia de que o governo Bush tenha encorajado um modelo socialista de saúde pública centralizada, o plano voltou a precisar de algumas poucas alterações – um de seus principais arquitetos foi o imunologista Anthony Fauci, famoso pela pandemia de covid-19 – quando se percebeu que a maioria dos países receptores não tinha a estrutura institucional de Uganda.

O Pepfar não apenas funcionou bem, como também desafiou a ortodoxia do desenvolvimento. Em vez de construir penosamente sistemas de contas públicas e saúde, o plano simplesmente injetou dinheiro em um problema específico e obteve resultados. A crença geral era que a terapia em massa com ARVs não seria possível. O Pepfar mostrou que era. Os EUA também superaram sua desconfiança intrínseca em relação a iniciativas multilaterais e encabeçaram o financiamento de um novo “Fundo Global” para combater a aids, tuberculose e malária, criado em 2002. Estimativas confiáveis indicam que o Pepfar salvou 26 milhões de vidas.

O lobby que superou a tradicional resistência visceral dos EUA à ajuda externa também conseguiu desencavar reservas de compaixão, até então inesperadas, no Congresso, muitas vezes ligadas à religiosidade. Na época, conversei com parlamentares republicanos que pareciam ter apenas a mais vaga ideia de como a ajuda ao desenvolvimento funcionava, mas haviam recebido visitas do astro do rock Bono, confiavam nele e, portanto, estavam dispostos a gastar o dinheiro dos contribuintes americanos para ajudar a África.

De forma notável, Bono persuadiu o senador da Carolina do Norte, Jesse Helms, o republicano conservador linha-dura que costumava dizer que a ajuda se esvaia por “buracos de rato” no exterior, a financiar o alívio da dívida e o tratamento de HIV/aids em países em desenvolvimento. Helms ficou sensibilizado, em particular, pela situação de bebês nascidos com HIV, indiscutíveis vítimas inocentes. A tática geral de semear cada campanha de desenvolvimento com uma celebridade capaz de despertar emoções tornou-se tediosa, mas este foi um trabalho impressionante.

No entanto, os programas de ajuda não passaram a fazer parte de uma mentalidade internacionalista geral. A tradição isolacionista republicana permaneceu forte – e foi explorada por Trump em relação à guerra do Iraque de Bush durante a campanha para a indicação presidencial em 2016. De fato, o próprio Bush permitiu que o Iraque se afundasse no caos após a invasão desastrosa. Ele, basicamente, não era um construtor de nações.

A rodada global de negociações comerciais de Doha efetivamente desmoronou durante o governo Bush, pois os EUA (entre outros países) não estavam dispostos a fazer os sacrifícios necessários para fazê-la funcionar. Apesar do Pepfar, a influência relativa dos EUA na África continuou a diminuir, como vinha ocorrendo desde o fim da Guerra Fria. Os anos 2000 foram a década em que a presença chinesa, em vez da americana, se expandiu pelo continente.

O Pepfar e os outros programas de ajuda simplesmente refletiram um momento em que ativistas deram um jeito de encontrar um veio de decência em um governo republicano e entre os integrantes do Congresso. O fato de nesta semana ter sido ameaçado de destruição, de forma casual, mostra até que ponto a decência se esvaiu da Casa Branca. Se ela ainda existe entre os republicanos no Congresso, está se escondendo de forma muito eficaz. Isso tornou o mundo mais sombrio.

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