20/07/2014 – 19h
Homens que fazem sexo com homens (HSH) de todo o mundo se reuniram nesse fim de semana para discutir o impacto da epidemia de HIV e as respostas específicas para esse grupo na pré-conferência do Fórum Global de
HSH (MSMGF, na sigla em inglês). O evento ocorre pela sexta vez como uma das muitas reuniões preparatórias para a Conferência Internacional de Aids, que começou neste domingo (20) em Melbourne, Austrália.
Um dos assuntos polêmicos foi a profilaxia pré-exposição (PrEP), ou seja, o uso de remédios antirretrovirais, por pessoas que não têm HIV, como forma de evitar a infecção. Os HSH são uns dos principais interessados em discutir o assunto, já que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendou a eles, em documento lançado na semana passada, o uso da PrEP.
Foram convidados a opinar ativistas e formuladores de políticas públicas de países com realidades muito distintas no que se refere à epidemiologia do HIV, ao empoderamento da comunidade de HSH e ao financiamento dos serviços de saúde.
Mathew Rodriguez é jornalista do site especializado em aids, Aids The Body, e vive em Nova York. Os Estados Unidos foram o primeiro país a recomendar a PrEP no começo do ano e, desde então, a comunidade gay vem discutindo intensamente o assunto. Mathew é soronegativo e, como grande parte dos americanos, utiliza serviços de saúde privados. Quem paga a conta de sua PrEPp, que chega a US$ 800 dólares (cerca de R$ 1.600) mensais é o plano de saúde.
Mas o estado de Nova York, que endossou a estratégia no fim de junho como parte de um ambicioso plano que pretende acabar com a epidemia até 2020, incluiu o serviço no Medicaid, o plano de saúde voltado para a população de baixa renda que é financiado com recursos públicos. Estando o acesso garantido, a discussão tem se dirigido para a esfera comportamental.
Mathew cita uma atitude estigmatizante em relação aos adeptos da PrEP, que têm sido citados como sexualmente irresponsáveis. Segundo ele, o termo depreciativo “Truvada whore” (prostituta do Truvada, que é o nome do remédio utilizado) tem sido ressignificado com o fim de destacar a autonomia do homem gay em decidir pelo método.
Outro assunto em debate é a chamada compensação de risco, ou seja, o possível abandono da camisinha pelos usuários da medicação.
Gus Cairns é britânico, trabalha para a organização NAM, de informação em HIV. Ele afirmou que o Centro de Controle de Doenças Europeu (ECDC, em inglês) esperará os resultados de duas pesquisas em andamento para avaliar se vai recomendar a estratégia. “Isso não vai acontecer tão cedo”, afirmou.
Caims publicou artigo ontem (leia aqui), ressaltando que questões de custo-efetividade e de uma racional alocação de recursos entre os diferentes métodos de prevenção devem ser analisadas em países em que a PrEP será financiada pelos sistemas públicos de saúde.
Brian Kanyemba é sul-africano e trabalha para a Desmond Tutu Aids Foundation. Segundo ele, na África do Sul a comunidade de HSH têm muita dificuldade de acessar a gama existente de métodos preventivos. Embora seja um dos poucos países da África onde camisinhas podem ser adquiridas gratuitamente, o alcance é limitado. O mesmo ocorre com o tratamento de doenças sexualmente transmissíveis, a testagem para HIV e o oferecimento de tratamento aos positivos. A profilaxia pós-exposição, uma estratégia de prevenção efetiva que consiste em oferecer um mês de remédios após uma exposição sexual de risco, se limita aos casos de estupro.
Brian questiona o papel da PrEP num contexto que ele considera de total negligência em relação aos antigos métodos preventivos. No entanto, não descarta a iniciativa e defende que o governo sul-africano inclua os HSH em estudo que será promovido sobre o método. Até o momento, só profissionais do sexo serão incluídos. A justificativa oficial é que, para esta categoria, o uso das medicações seria mais custo-efetivo, visto que se calcula que 20% das novas infecções são provenientes do sexo transacional.
Brian cita também o fato de que os profissionais do sexo têm um nível de organização maior do que os HSH.
A Nova Zelândia, que não também ainda não tem PrEP, apresenta uma das menores taxas de incidência (novas infecções) por HIV entre HSH no mundo. A prevalência na comunidade, de 6,5%, é relativamente baixa, quando comparada a outros países (em São Paulo, por exemplo, é de 14,7% na faixa de 25 a 34 anos.
Segundo Nick Laing, da Federação de Aids da Nova Zelândia, isso é resultado de uma efetiva estratégia de promoção do uso da camisinha que reduziu as novas infecções entre HSH em 12%. A delegação neozelandesa divulgará durante a próxima semana os seus resultados positivos, que são um contraponto ao pessimismo generalizado em relação aos métodos comportamentais.
A diminuição do uso de camisinha, que vem ocorrendo em várias partes do mundo, é um dos fatores que favorecem o entusiasmo com a PrEP. Bob Grant, um dos pesquisadores por trás dessa medida, estava lá para defendê-la. Grant minimizou os efeitos colaterais e questionou a tese de que só funciona para quem tiver uma adesão de 100% (ou seja, que nunca esqueça um comprimido).
Bob Grant também relativizou o sucesso das campanhas para uso de camisinha da Nova Zelândia, ao afirmar que os bons resultados do país se devem a fatores estruturais, como o bom nível educacional, a educação sexual e o bom funcionamento do sistema de saúde. Quando questionado sobre o alto custo dos medicamentos, respondeu que os preços podem ser negociáveis. E que, na África, já existem versões genéricas do medicamento (que também é usado para tratamento, não só para prevenção) por
US$ 6,7 dólares mensais.
No Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, já está recrutando para uma pesquisa que visa avaliar se seria viável administrar PrEP pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e qual seria a melhor forma de fazê-lo.
A Austrália, que após a emergência das estratégias de prevenção biomédica traçou metas para acabar com a epidemia, também já iniciou pesquisas.
Os ativistas consideram que a recomendação da OMS deve ser interpretada com cuidado. A realidade da epidemia, dos sistemas de saúde, o preço e os fatores estruturais afetando as populações mais vulneráveis podem definir a implementação da estratégia, de inegável eficácia. Assim como a conferência, o debate sobre PrEP está só começando. Cairns sinalizou o futuro da discussão com a frase: “a única medida que funciona para prevenir o HIV é: tudo junto”
Henrique Contreiras, médico colaborador da Agência Aids, de Melbourne (Austrália)
A Agência de Notícias da Aids cobre a Conferência na Austrália com o apoio do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais e do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo


