10/12/2006 – 15h20
Mais de 230 cientistas de todo o mundo, de cerca de 40 países, reuniram-se, de 3 a 6 de dezembro, em Bangkok, capital da Tailândia, no Fórum Mundial sobre Vacinas, organizado pela OMS. Entre balanços e avaliações das pesquisas e testes de diferentes vacinas, o destaque este ano é para a malária. Marie-Paule Kieny, diretora do Programa de Vacinas da OMS conta, em entrevista, os atuais desafios em termos de vacinas, inclusive a destinada a evitar uma pandemia de gripe do frango.
Em Bangkok, a diretora do programa de vacinas da OMS, Marie-Paule Kieny, anunciou oficialmente um itinerário a seguir, até 2025, quando provavelmente será comercializada a primeira vacina contra a malária.
Já em 2015, segundo indicam os atuais testes, deverá haver uma vacina capaz de diminuir em 50% as infecções e mortes por paludismo na África. Neste período também poderá surgir a possibilidade de uma primeira vacina contra a Aids, pois os testes de terceira fase, atualmente na Tailândia, são prometedores.
Enquanto isso, a vacina contra o câncer do colo do útero, anunciada no Fórum realizado em Salvador, na Bahia, já é comercializada e começam as vacinações em meninas com mais de dez anos e adolescentes, antes do primeiro contato sexual.
Embora os primeiros resultados estejam sendo mais que satisfatórios, a vacinação em massa das meninas esbarra num problema – o elevado preço das duas doses necessárias do produto, superior a 150 dólares cada. E são justamente os países menos desenvolvidos com maior número de mulheres com câncer no colo do útero.
Marie-Paule Kieny conta, em entrevista, os atuais desafios em termos de vacinas, inclusive a destinada a evitar uma pandemia de gripe do frango.
Rui Martins – O ponto principal do Fórum Mundial de Vacinas, em Bangkok, é o caminho a seguir para uma próxima vacina contra a malária?
Marie-Paule Kieny – Muitos outros temas de grande importância serão tratados no Fórum de Vacinas em Bangkok, relacionados com novas vacinas e com o impacto que terão no setor da saúde pública, principalmente nos países em desenvolvimento. Um dos pontos altos desse encontro é o lançamento do Roadmap, ou o caminho a seguir, a fim de acelerar o desenvolvimento e a utilização de uma vacina contra o paludismo. Todos os parceiros envolvidos nas pesquisas concordaram em fazer uma declaração oficial em Bangkok.
Rui Martins – E essa declaração dirá que, em 2025, teremos a vacina? É possível isso?
Marie-Paule Kieny – Não há jamais uma certeza absoluta, enquanto a vacina não estiver na ampola. Porém, a comunidade internacional se uniu para colocar em marcha esse plano de trabalho, esse caminho traçado, e o objetivo é o de obter uma vacina em 2025, uma proteção de 80% contra os ataques clínicos de paludismo, durante um período de quatro anos. É um objetivo, 2025 está ainda longe, e a comunidade científica que trabalha com o paludismo acha ser possível se chegar a uma primeira etapa, nesse caminho, em 2015, uma vacina menos ambiciosa, porém, capaz de reduzir em 50% o alto índice infecções e de mortes, principalmente na África, provocadas pelo paludismo mais grave, com uma proteção de mais de um ano.
Rui Martins – Essa possibilidade é muito importante para a África e Ásia com seus milhões de mortos, mas já houve decepções, como, por exemplo, quando Manuel Patarroyo prometia uma rápida vacina contra a malária…
Marie-Paule Kieny – É verdade que a comunidade científica mundial anuncia, há 15 anos, uma próxima vacina contra a malária. Houve uma grande decepção, quando os resultados prometedores obtidos na América Latina pela equipe do Dr. Manuel Patarroyo não foram reproduzidos na África e se abandonou essa pista. É também verdade que os resultados obtidos em Moçambique mostraram ser possível se proteger em 50% as crianças africanas, ainda na fase preliminar. Porém, novas pesquisas confirmam esses primeiros resultados e a confiança é cada vez maior. Uma proteção a 50% não pode ser um único objetivo, é preciso aumentar essa proteção e, assim mesmo, só a vacina não será suficiente, será preciso complementá-la com outras medidas como mosquiteiros impregnados com inseticidas e uma melhor profilaxia.
Rui Martins – No Fórum de Salvador, na Bahia, se falou na próxima vacina contra o câncer do colo do útero. Ora se ela foi comercializada, já há vacinações, quais são as novas notícias?
Marie-Paule Kieny – Essa vacina é indicada para as crianças com mais de dez anos e as primeiras informações confirmam a segurança dessa vacina e sua eficácia, nos dando muita esperança. O problema é o preço dela e não sabemos ainda qual a melhor estratégia para levá-la nos países em desenvolvimento. Nos países desenvolvidos, é fácil se chegar às crianças de dez anos, pois vão todas à escola, e os programas de saúde para essa idade podem garantir uma boa cobertura. Porém, nos países menos desenvolvidos, nem todas comparecem na escola e não há programas de saúde pública voltados para essa população. Em certos países a estratégia deverá ser múltipla e uma barreira é o preço.
Rui Martins – Essa vacina é mais indicada para os países pobres ou é para todos?
Marie-Paule Kieny – Achamos que essa vacina se destina a todo tipo de população, porque em todas as populações existe câncer do colo do útero. É verdade que alguns países têm um índice mais elevado e esses irão se beneficiar mais. Pode ser também que exista um índice mais elevado, por não haver bons programas de controle e prevenção, e as mulheres mostram assim um índice maior de câncer avançado que nos países mais desenvolvidos, onde os controles são freqüentes e sistemáticos. Portanto, ganham mais as populações em desenvolvimento e devem se beneficiar dessa vacina o mais rápido possível.
Rui Martins – E quanto a Aids, existe alguma novidade? Sabemos que muitos países participam de programas para se chegar a uma vacina.
Marie-Paule Kieny – A novidade em termos de desenvolvimento de uma vacina contra Aids é a constituição de programas e parcerias, dentro do que se chama Entreprise HIV, uma aliança não formal de instituições, de organizações governamentais e não governamentais que trabalham juntas e optarem por um acordo no plano científico, a fim de acelerar a pesquisa e desenvolvimento de uma vacina contra a Aids. Isso pode ainda vai levar muito tempo. Testes clínicos continuam sendo feitos, e o mais antigo, em fase 3, envolvendo 16 mil pessoas na Tailândia, vai ter seus resultados em 2009. Dois outros testes, de menor envergadura no que concerne o número de pessoas envolvidas, começaram e mostrarão seus primeiros resultados por volta de 2010. Antes dessas datas, não se terá nenhuma demonstração da eficácia de uma vacina. E, no caso de haver resultado positivo, não se poderá pensar em vacinação contra Aids antes de 2015. Estamos, portanto, longe, mas a ciência e as parcerias progridem. Devemos ser otimistas quanto à possibilidade de se desenvolver vacinas eficazes.
Rui Martins – Como o vírus assume formas diferentes e se transforma segundo as regiões, parece que uma próxima vacina irá beneficiar os asiáticos. Como vão as pesquisas na África e no Brasil?
Marie-Paule Kieny – Os testes mais avançados são os já mencionados na Tailândia, junto a uma comunidade e não a um grupo particular. Os outros testes estão sendo feitos nas Américas, na Austrália, na Europa, na África. Numerosos testes clínicos estão sendo feitos na África, por ser a região mais atingida pela pandemia da Aids e não se sabe, no momento, se a variabilidade de vírus que circulam em diferentes populações fará uma diferença na proteção. Uma das pesquisas feitas atualmente vai testar numa população, onde circula um certo tipo de vírus, a eficácia de um candidato à vacina utilizando material genético de um vírus que circula nos EUA. Será muito importante saber até que ponto deverá existir produção de uma mistura de vacinas, como a nova vacina contra a pneumonia bacteriana, onde há uma mistura de sete tipos de pneumococos. Para a vacina contra a Aids, uma vacina monovalente, cobrindo todos os tipos de vírus HIV será suficiente? Ou será preciso colocar até cinco componentes diferentes para cobrir a população mundial, isso faz parte das incertezas científicas.
Rui Martins – Falou-se muito na gripe do frango, que não veio, mas se vier, o tempo que passou permitiu já se chegar a uma vacina?
Marie-Paule Kieny – O risco de uma pandemia de gripe do frango continua, enquanto o vírus circula entre as aves domésticas e selvagens persiste o risco de uma adaptação desse vírus aos homens. Alguns casos de gripe entre humanos já ocorreram recentemente. Existem progressos para prevenir? Sim, diversos laboratórios farmacêuticos mostraram ser possível desenvolver vacinas que poderão proteger contra uma pandemia de gripe do frango. Mas devemos também levar em conta que a demonstração definitiva quanto à eficácia dessas vacinas só poderá ocorrer quando houver esse surto de gripe, pois o vírus – se houver – não será o mesmo e não se sabe até onde será diferente do que circula atualmente entre as aves. Uma demonstração da eficácia dessas vacinas só será possível com a existência da pandemia de gripe. Antes, só se pode ter indicações suficientes para se imaginar que elas serão eficazes. Estamos nessa situação com candidatos a vacinas que esperamos sejam eficazes, no caso de uma pandemia da gripe do frango. Será que teremos essas vacinas imediatamente? Talvez não. Numerosos esforços são feitos para se acelerar o processo de produção dessas vacinas e igualmente a capacidade de produção mundial dessas vacinas. Como a totalidade da população mundial nunca se encontrou com esse tipo de vírus, tudo leva a imaginar que toda a população deverá se beneficiar dessa vacina, no caso de pandemia. Resta, portanto, o desafio de se produzir o equivalente a 6 bilhões de doses em todo o mundo, sabendo-se que certas regiões não têm a infraestrutura necessária, como é o caso da África.
Rui Martins – Bangkok depois de Salvador, existe uma ordem quanto aos lugares onde devem ser realizados esses Fóruns mundiais?
Marie-Paule Kieny – Tentamos variar o lugar do Fórum, pois se trata de um encontro com vocação mundial e, assim, a cada ano, esperamos associar uma região diferente. Quando estivemos no Brasil, além da participação internacional habitual, havia uma grande participação de cientistas brasileiros e, este ano, teremos uma grande participação de tailandeses e asiáticos próximos. Não decidimos ainda onde será o próximo fórum, mas é possível ser aqui na Suíça, próximo da nossa base e o outro será provavelmente na África.
Rui Martins



