Fórum & Festival Longevidade : Américo Nunes e Jenice Pizão contam como é envelhecer com HIV e  reivindicam direitos e  qualidade de vida 

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 A convite  do Sesc São Paulo, um dos apoiadores do  Fórum & Festival Longevidade, Américo Nunes, do Instituto Vida Nova e Jenice Pizão do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, compartilharam  suas histórias de sobrevivência e superação. Ambos trouxeram  a discussão sobre os desafios de construir um futuro que parecia improvável quando receberam seus diagnósticos positivos para o HIV. Durante  dois dias este e outros temas foram debatidos  por especialistas no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

A trajetória de cada um

Américo Nunes Neto recebeu o diagnóstico de HIV em 1988 e ouviu que teria apenas seis meses de vida. Os meses passaram, ele continuou vivo e uma nova preocupação surgiu: como construir um futuro para o qual ninguém o havia preparado? Décadas depois, essa pergunta atravessou o debate “Envelhecer com HIV, histórias, direitos e novos desafios”.  Jenice descobriu a infecção em 1990. Ao recordar as expectativas daquele período, relacionou sua longevidade à mobilização coletiva e ao apoio entre pessoas que vivem com HIV. “Em 1990, a perspectiva era que eu ia ganhar dois, três anos. E eu estou aqui, com os movimentos que a gente criou e com a força que a gente passa para as outras pessoas. Nas trajetórias apresentadas, o tratamento, o acolhimento e a organização social se entrelaçam à conquista de continuar fazendo planos. O encontro dos dois ativistas foi dealizada pela diretora desta Agência, jornalista  Roseli Tardelli que mediou a conversa.  

Jenice: da sala de aula à construção da visibilidade

 

A história de Jenice também passa pela atuação nos movimentos de pessoas que vivem com HIV e pela construção de uma visibilidade que não aconteceu de uma hora para outra. Durante a conversa, Roseli lembrou que Jenice foi professora de História e que hoje está aposentada. Ao perguntar como ela havia construído esse caminho, Jenice resumiu: “De fato, é um processo”.

A construção dessa visibilidade envolveu  o receio sobre como as pessoas reagiriam  se conhecessem  sua condição sorológica. Ao falar sobre o período em que começou a compartilhar essa parte de sua história, Jenice relatou as dúvidas sobre a reação de colegas e pessoas de seu convívio.

“Eles vão sair correndo? Ou eles vão me apedrejar? Ou eles vão me abraçar?”

A experiência mostra que tornar público o diagnóstico não é apenas uma decisão individual. Para quem vive com HIV, a exposição pode envolver medo de rejeição, julgamento e discriminação. Por isso, a organização coletiva aparece como uma dimensão importante da trajetória de Jenice.

“É possível, sim. Nós estarmos organizados, enquanto  pessoas que vivem com HIV.”

A participação nos movimentos também acompanha a forma como Jenice interpreta sua própria longevidade. Ao lembrar que, em 1990, esperava-se que ela vivesse poucos anos, Jenice atribui parte dessa trajetória à força construída coletivamente e à possibilidade de transmitir esse vigor  a outras pessoas.

 Américo Nunes “Eu jamais imaginaria que estaria  envelhecendo e vivendo com HIV”

 

Para Américo, falar sobre longevidade é revisitar uma história marcada pelo medo e  pela disposição de enfrentar a discriminação.

“Eu jamais imaginaria que estaria vivendo com HIV por tanto tempo. É revisitar  os desafios, como  preconceito, a discriminação, que acontecem até hoje. Mas a gente faz essa luta, levanta essa bandeira, porque quer ter vida longa com   qualidade . É propício estar aqui, falando sobre esse tema para todos vocês.”

Ao recordar as dificuldades dos primeiros anos, Américo resumiu o que estava em jogo: “O mais difícil foi justamente lutar pela vida, para viver”.

Ele também mencionou os efeitos adversos dos medicamentos e o impacto de receber um diagnóstico apresentado como uma condenação.

“A gente tinha que lutar muito, principalmente contra o medo da morte. Porque recebemos uma sentença de morte.” Conforme o tempo passava, sobreviver exigia encontrar respostas para questões que o diagnóstico havia interrompido.

“A expectativa era de apenas seis meses de vida. E aí passam um, dois, três, quatro, cinco meses, e eu comecei a perceber o maior problema: estou sobrevivendo, mas como vou  continuar ?”

A pergunta marcou uma mudança em sua trajetória. Além da urgência de permanecer vivo, era preciso reorganizar a vida e recuperar a possibilidade de pensar no amanhã. No encontro, essa experiência se conectou à discussão sobre o cuidado e as condições necessárias para envelhecer.

Américo contou que, nesse percurso, procurou preservar sua identidade para além do diagnóstico. Ao falar da convivência com o vírus, recorreu ao humor.

“Eu costumo dizer, para vocês e para todas as pessoas, que o HIV não me define como pessoa. O HIV é apenas um vírus. Então, eu até faço um pacto com ele: se eu morrer, você também morre.”

A relação com o tratamento também ganhou um significado de continuidade e esperança.

“Cada dia que eu ia tomar meu antirretroviral, pensava: esse é o meu elixir da vida. Isso fortalece a nossa autoestima.”

Já diante do preconceito, buscar conhecimento se tornou uma forma de se preparar para responder à discriminação.

“Quando a gente fala de preconceito, como vamos enfrentar tudo isso? Com informação. Eu buscava informação para poder lidar com as situações de preconceito.”

E completou: “Eu estaria fortalecido com informação para combater o preconceito. É assim que sigo até hoje. Mesmo com o assunto na mídia, ainda falta informação”.

Seu relato trouxe uma questão recorrente à conversa: os anos vividos não eliminaram a necessidade de esclarecer dúvidas, desfazer estigmas e reivindicar respeito. O preconceito continua fazendo parte dos desafios de quem envelhece com HIV.

 Contar para a família também faz parte da trajetória

A história de Jenice  apareceu na conversa a partir de uma experiência familiar. Roseli contou que ela havia feito uma viagem com a filha e, naquele momento, precisou decidir se revelaria ou não o diagnóstico.

O episódio colocou em evidência outra dimensão da vida de quem envelhece com HIV: o momento de compartilhar a condição sorológica com pessoas próximas. A decisão pode envolver medo, cuidado e a necessidade de encontrar a hora certa para falar.

Jenice descreveu esse momento como uma escolha que, em determinado ponto da vida, precisa ser enfrentada. “Eu vou falar para a minha filha, porque chega uma hora que a gente precisa contar as coisas para as pessoas, né?”.

Apesar disso, Jenice reafirmou que demorou anos para compartilhar a informação com sua filha, tendo contado apenas para amigos próximos, seu ex-marido e sua mãe. “Minha filha olhou pra mim como se fosse algo  banal e disse: ‘Mãe, porquê você não contou antes?’.”

Jenice lembrou os questionamentos que surgiram quando decidiu compartilhar o diagnóstico em diferentes ambientes, inclusive no trabalho. Falar sobre o HIV envolve decisões pessoais atravessadas pelas reações de familiares, colegas e outras pessoas do convívio.

Ao abordar esse percurso, destacou a importância da organização das pessoas que vivem com HIV. Os movimentos aparecem em sua história como espaços de apoio, troca de experiências e mobilização por direitos.

A discussão sobre visibilidade aproximou os relatos de Américo e Jenice: ambos passaram a compartilhar publicamente experiências que, por muito tempo, foram cercadas pelo medo da rejeição. Hoje, levam essas histórias a espaços de debate sobre saúde, cidadania e envelhecimento.

Sexualidade e prevenção também fazem parte  da vida de quem está envelhecendo

A conversa abriu espaço  para as estratégias de prevenção do HIV. O tema se conecta ao envelhecimento porque a sexualidade e as necessidades de cuidado continuam presentes ao longo da vida.

Depois de  Roseli mostrar a Mandala da Prevenção , Américo  explicou detalhadamente a profilaxia pré-exposição, conhecida como PrEP. A estratégia é destinada a pessoas que não têm HIV e utiliza medicamentos para prevenir a infecção.

“Na profilaxia pré-exposição, PrEP, o próprio nome já diz: vem antes da exposição. Se eu tenho uma vida sexual vulnerável e não quero fazer uso do preservativo, posso me beneficiar da PrEP. Ela vai me proteger contra o HIV, mas não contra outras infecções sexualmente transmissíveis. Isso é muito importante. E, no uso diário, preciso tomar essa medicação todos os dias.”

Há uma diferença entre essa estratégia e o cuidado de quem já recebeu o diagnóstico. A PrEP previne a infecção em pessoas que não vivem com HIV; o tratamento antirretroviral é utilizado para controlar o vírus nas pessoas que vivem com ele.

Como Américo destacou, a PrEP não protege contra outras infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis e gonorreia. Por isso, integra a prevenção combinada, que reúne recursos como preservativos, testagem e acompanhamento de saúde, de acordo com as necessidades de cada pessoa.

Ao incluir esse assunto, o encontro ampliou a discussão sobre qualidade de vida: falar de longevidade também exige espaço para conversar sobre sexualidade, escolhas e prevenção sem preconceito.

O direito de continuar fazendo planos

As experiências compartilhadas por Américo e Jenice mostraram como a chegada à maturidade mudou as perguntas de uma geração. O medo de não sobreviver deu lugar a preocupações com a continuidade do cuidado, as relações pessoais e as condições para viver os anos seguintes.

Ao participarem de um fórum dedicado à longevidade, os dois trouxeram as pessoas que vivem com HIV para uma discussão que também lhes pertence. Seus depoimentos ligaram a memória dos primeiros anos da epidemia às demandas do presente, em que o acesso ao tratamento precisa caminhar junto com acolhimento e respeito.

A pergunta que Américo se fez quando percebeu que continuava vivo ganhou, ao longo das décadas, novas respostas. No encontro, ele expressou o que espera dessa etapa: “A gente quer viver com longevidade , viver com qualidade de vida.”

 

Talita Martins, Redação Agência Aids com informações de Glaucia Magalhães

 

Galeria de fotos:

 

Jenice e Américo: parceiros de trajetória e ressignificação de vida!

Gravando para o post no Insta da Agência

 

Com a equipe do Sesc que organizou o evento dentro do espaço reservado a entidade

 

A mediação do encontro feita por Roseli

Américo, Jenice e Roseli com o médico e ex-vereador Walter Feldman, organizador do Fórum

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