Ação, realizada pelo Ministério da Saúde com hospitais particulares, mira 50% de redução para dezembro de 2026.
Melhoria é resultado de adaptações para cumprimento de protocolo da Anvisa para conter infecções.
Revisar com precisão o passo a passo de um processo de internação gera economias que atingem cifras milionárias em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) e enfermarias de hospitais públicos.
Esse resultado foi encontrado na terceira edição de um projeto realizado pelo Ministério da Saúde em parceria com hospitais privados filantrópicos que fazem parte do Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde). Em dois anos, a iniciativa reduziu em 26% as infecções em UTIs nos 285 hospitais participantes, uma redução de custos estimada em R$ 151 milhões — montante que, economizado, pode custear outras necessidades do sistema.
O resultado mostra a possibilidade de enxugar custos no SUS (Sistema Único de Saúde) com ações pequenas de melhoria de performance, com base no que se chama de “ciência da melhoria”. As unidades participantes não tiveram que desembolsar qualquer valor para chegar a tal resultado, que foi alcançado apenas com revisão de processos e treinamento de pessoal.
Cinco hospitais privados filantrópicos, que fazem parte do Proadi-SUS, gerem o projeto, batizado de “Saúde em Nossas Mãos”: HCor, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Beneficência Portuguesa, Hospital Israelita Albert Einstein, Moinhos de Vento e Sírio-Libanês. Eles são responsáveis por transmitir o conhecimento para os demais hospitais integrados ao SUS. Em troca, recebem imunidade tributária para investir no programa.
Profissionais desses hospitais treinam equipes das demais unidades para seguir rigorosamente o passo a passo ao internar um paciente e, assim, reduzir os três tipos de infecção que mais levam pacientes à UTI ou prolongam a permanência hospitalar. São elas: infecção primária de corrente sanguínea associada a cateter venoso central; pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV); e infecção do trato urinário associada ao uso de cateter vesical.
Segundo Cláudia Garcia, coordenadora-geral do projeto, os hospitais participantes continuam a seguir o Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde, preconizado pela Anvisa para todas as unidades do país.
“O que se faz é cumprir criteriosamente cada passo desse protocolo, adaptando-o à realidade de cada hospital”, explica.
O protocolo determina, por exemplo, que a cabeceira do leito do paciente com pneumonia deve ficar inclinada entre 30° e 45°. Mesmo em hospitais com leitos mais simples e antigos, as equipes buscam alternativas para aplicar essa recomendação.
A inclinação do leito ajuda a reduzir o risco de aspiração de secreções para os pulmões, um fator de risco para a PAV. Outro exemplo é a remoção precoce de dispositivos invasivos, como cateteres, drenos, sondas e ventiladores mecânicos. Quanto mais rápido forem removidos, respeitando a necessidade do paciente, menor o risco de infecção.
Ainda que pareçam medidas simples, é preciso considerar a realidade dos hospitais brasileiros, que enfrentam desigualdades regionais de recursos. O Hospital da Mulher, em Fortaleza (CE), por exemplo, teve UTIs neonatais fechadas por falta de insumos no ano passado.
O projeto, atualmente em sua terceira edição, é realizado em ciclos de três anos. A redução de 26% nas infecções é uma média observada nas 285 unidades participantes da edição atual, que está em seu segundo ano. Até dezembro de 2026, quando o ciclo se encerra, a meta é alcançar 50% de redução. Ao todo, 3.542 leitos são acompanhados.
“Além da economia, reduzir o tempo de internação significa disponibilizar mais leitos e atender à demanda, o que no SUS é fundamental”, afirma Cristiane Reis, da coordenação-geral de projetos da Secretaria de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde.
Em uma das unidades participantes, o Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, a aplicação da estratégia promoveu uma mudança cultural entre os profissionais, segundo a diretora-geral da unidade, Amanda Corrêa da Cruz.
“À medida que um profissional incorpora a estratégia, ele a repassa a um colega, que transmite a outro. Isso acaba se tornando uma cultura em nível macro”, diz.
Na média, a principal redução foi nas infecções do trato urinário, com queda de 52% em pediatria e de 37,5% em adultos. Embora algumas unidades tenham alcançado índices maiores e outras menores, todas apresentaram redução desde o início das ações.




