Nobel de Medicina de 2025 premiou pesquisas sobre a tática que controla defesas do corpo. Foram laureados Mary Brunkow, Fred Ramsdell e Shimon Sakaguchi.
O sistema imunológico pode atacar o próprio organismo? E como ele evita isso?
A resposta, objeto das pesquisas premiadas nesta segunda-feira (6) com o Nobel de Fisiologia ou Medicina, permite compreender melhor as doenças autoimunes e também fornece pistas sobre certos tipos de câncer.
Foram laureados os americanos Mary Brunkow, 63, e Fred Ramsdell, 64, e o japonês Shimon Sakaguchi, 74.
Entenda abaixo o alvo dos estudos do trio.
Veja os ganhadores do prêmio Nobel de Medicina nos últimos anos
- 2025: Mary E Brunkow, Fred Ramsdell e Shimon Sakaguchi, receberam o prêmio por descobertas sobre a intolerância imunológica periférica que impede o sistema imunológico de prejudicar o corpo
- 2024: Victor Ambros e Gary Ruvkun ganharam o prêmio pela descoberta dos chamados microRNAs
- 2023: Katalin Karikó e Drew Weissman receberam o prêmio por pesquisas que auxiliaram no desenvolvimento das vacinas de RNA mensageiro
- 2022: Svante Pääbo conquistou a láurea por desvendar os genomas de hominínios extintos
- 2021: David Julius e Ardem Patapoutian foram premiados por elucidar os mecanismos que permitem que o sistema nervoso capte estímulos de temperatura e toque na pele
- 2020: Harvey Alter, Michael Houghton e Charles Rice ganharam o Nobel pela descoberta do vírus da hepatite C
- 2019: Gregg L. Semenza, Peter J. Ratcliffe e William G. Kaelin ganharam o prêmio por suas pesquisas sobre o comportamento de células de acordo com a disponibilidade de oxigênio
- 2018: James P. Allison e Tasuku Honjo foram premiados pelas descobertas ligadas ao combate do câncer com drogas que ‘bombam’ a função do sistema imunológico, a chamada imunoterapia
- 2017: Jeffrey C. Hall, Michael Rosbash e Michael W Young recebem o prêmio pelas descobertas dos mecanismos moleculares por trás dos ritmos circadianos 2016: Yoshinori Ohsumi foi o escolhido por causa de sua pesquisa sobre como a autofagia realmente funciona
O que foi descoberto?
O Nobel de Medicina de 2025 premia a descoberta de um tipo de célula imunológica com uma função única: os linfócitos T reguladores, conhecidos como Treg.
Para entender sua função, é preciso lembrar a dupla missão do nosso sistema imunológico. Ele deve detectar o que não está funcionando bem em nosso corpo —por exemplo, uma infecção viral— e destruir a causa.
Mas o corpo não deve se voltar contra si mesmo e eliminar células saudáveis. Se é capaz de distinguir entre ambas, isso se deve em grande parte às células reguladoras.
“Elas permanecem em prontidão em nosso organismo para manter o sistema imunológico sob controle caso ele ataque o que não deve”, disse à AFP Jonathan Fisher, imunologista da University College London, que vê nessa descoberta uma “enorme contribuição” para a compreensão da nossa imunidade.
Como funciona o controle de qualidade das defesas do organismo
Entre as células do sistema de defesa do organismo, as células T desempenham diferentes funções, como a destruição de outras células infectadas por vírus. Elas fazem isso reconhecendo moléculas de invasores por meio de receptores na sua superfície, os quais têm uma enorme variedade de formas diferentes.

Mas o processo de produção dos receptores pode gerar células T que reconheçam, por engano, moléculas de células saudáveis. Por isso, elas passam por um controle de qualidade no timo, um pequeno órgão localizado perto do coração. As células T que se conectam com moléculas do organismo são eliminadas; as demais partem para desempenhar suas funções no corpo.

Algumas células T ainda podem escapar do controle de qualidade do timo. É aí que entram em ação as chamadas células T regulatórias. Se uma de suas “irmãs” está atacando células saudáveis do corpo, elas enviam sinais bioquímicos que cancelam o ataque.
Como essas células funcionam?
O funcionamento das células reguladoras da imunidade foi descoberto em duas etapas pelos pesquisadores premiados nesta segunda-feira: primeiro, nos anos 1990, pelo japonês Shimon Sakaguchi, que comprovou sua existência, e depois, no início dos anos 2000, pelos americanos Mary Brunkow e Fred Ramsdell, que detalharam seus fundamentos genéticos.
Trata-se de linfócitos T, que constituem uma das duas grandes famílias de células imunológicas, junto com os linfócitos B. Enquanto os B atuam por meio de anticorpos, os T atacam diretamente os invasores do organismo.
Essas células T são geradas no timo, um pequeno órgão situado na parte superior do tórax. Durante sua formação, elas aprendem a não atacar as células saudáveis.
Porém essa etapa não é suficiente: apesar dessa primeira seleção, os linfócitos T se descontrolariam rapidamente se não contassem, entre suas próprias fileiras, com um contingente destinado a controlar a ação de seus semelhantes.
Esses linfócitos reguladores “secretam substâncias que acalmam o sistema imunológico, inibindo os linfócitos assassinos”, explica Divi Cornec, imunologista do Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde e Medicina da França.
Quais são as implicações concretas?
Essa descoberta é crucial para entender as doenças autoimunes, nas quais o sistema imunológico se volta contra o próprio corpo.
Em várias doenças autoimunes, como a esclerose múltipla, “foi descoberto que um defeito nos linfócitos T reguladores provocava uma forma mais grave da doença”, detalha Cornec.
No entanto, o impacto da descoberta vai além dessas patologias, ressalta ele.
As células Treg não prejudicam o organismo apenas quando estão em quantidade insuficiente. Elas também podem ter um impacto negativo quando são excessivamente eficazes e impedem o sistema imunológico de cumprir sua função legítima.
Esse é o caso de alguns tipos de câncer, nos quais se detecta um grande número de linfócitos reguladores nos tumores. Também se suspeita da existência de mecanismos semelhantes na persistência de certas infecções, como a covid longa, embora esse mecanismo ainda não tenha sido comprovado.
Em outro campo importante, “os linfócitos T reguladores desempenham um papel crucial na prevenção da rejeição de órgãos transplantados”, destaca Cornec.
Que terapias existem?
Muitos pesquisadores buscam agora desenvolver medicamentos a partir do conhecimento sobre os linfócitos T reguladores.
Para combater doenças autoimunes como o lúpus, há duas principais estratégias: estimular a produção dessas células no organismo ou administrá-las diretamente. Na oncologia, também estão em andamento pesquisas para atacar o excesso dessas células reguladoras.
Mas, de modo geral, esses estudos ainda estão em fase inicial e não resultaram em terapias disponíveis aos pacientes.
“Há uma grande diferença entre, por um lado, compreender cientificamente o nosso sistema imunológico ou manipulá-lo em laboratório e, por outro, desenvolver um medicamento que tenha um efeito constante e benéfico nos seres humanos e que, ao mesmo tempo, seja seguro”, reconhece Fisher.
Conheça brasileiros indicados ao prêmio Nobel em Física, Medicina e Química
- Carlos Chagas (1878-1934), indicado ao Nobel de Medicina Adolpho Lutz (1855-1940), indicado ao Nobel de Medicina
- César Lattes (1924-2005), indicado ao Nobel de Física
- David Bohm (1917-1992), indicado ao Nobel de Física
- Fritz Feigl (1891-1971), indicado ao Nobel de Química
- Manoel Dias de Abreu (1891-1962), indicado ao Nobel de Medicina
- Carlos Chagas (1878-1934), indicado ao Nobel de Medicina




