Mulheres concentram demanda, com queixas de ansiedade, sofrimento emocional e conflitos familiares; Equipes permanecem pouco tempo em cada localidade, o que impede continuidade de acompanhamento
Embora ainda limitados, atendimentos psicológicos começam a chegar às comunidades ribeirinhas do Amazonas por meio de teleconsultas e de unidades básicas de saúde fluviais. São, sobretudo, mulheres que buscam esse cuidado, com queixas de ansiedade, sofrimento emocional e conflitos familiares.
A Folha acompanhou esses dois tipos de atendimento na comunidade do Ubim, na reserva extrativista do rio Gregório, no município de Eirunepé (AM), que agora conta com um posto de saúde—o primeiro em uma região com mais de 80 anos de história. O projeto foi viabilizado por meio de parcerias públicas e privadas.
A psicóloga Caroline Stephanie Marques de Souza, 28, passou a integrar uma das equipes itinerantes do SUS (Sistema Único de Saúde) na região e chegou no último dia 7 à comunidade em uma UBS fluvial. O posto flutuante reúne ainda médico, enfermeiros, dentista e farmacêutico.
Mulher sentada em frente a computador em cozinha, participando de videoconferência com outra mulher visível na tela. Ela usa fones de ouvido e está concentrada na conversa. Ao fundo, armários de madeira, pia e utensílios de cozinha.Mulher sentada em frente a computador em cozinha, participando de videoconferência com outra mulher visível na tela. Ela usa fones de ouvido e está concentrada na conversa. Ao fundo, armários de madeira, pia e utensílios de cozinha.
Segundo ela, os relatos das mulheres estão frequentemente ligados a papéis sociais rígidos e a contextos de violência. “São demandas muito enraizadas, de repressão mesmo, de corresponder a um papel social de casamento, filhos.”
Ela afirma que muitas jovens manifestam o desejo de se separar, mas não conseguem por questões culturais, pelos filhos ou pela dependência econômica. Esse conjunto de fatores acaba se traduzindo em sintomas de ansiedade, a queixa mais comum nos atendimentos.
O trabalho, no entanto, está longe de seguir o modelo tradicional de consultório. As equipes permanecem pouco tempo em cada localidade, o que impede a continuidade de um acompanhamento psicológico estruturado.
“Não chega a configurar um atendimento, é mais um acolhimento, orientação e encaminhamento”, explica. Quando possível, ela direciona pacientes para serviços na cidade, onde algumas conseguem chegar uma ou duas vezes por mês.
Além da escuta, há um esforço constante de explicar o que é a psicologia e por que ela importa. Em comunidades onde o serviço ainda é pouco conhecido, Caroline precisa, antes de tudo, apresentar a saúde mental como parte do cuidado integral.
“A gente cuida muito do corpo, mas a mente também é importante. Quando elas entendem isso, se abrem. Dá para perceber que há uma necessidade enorme de falar.”
A ampliação do acesso à internet, intensificada durante a pandemia, surge como uma oportunidade para reduzir esses gargalos históricos. A experiência da psicóloga Cristina Maranghello, consultora da FAS (Fundação Amazônia Sustentável), que acompanha essas comunidades à distância, reforça o diagnóstico.
Na comunidade do Ubim, as consultas virtuais acontecem em uma sala do posto de saúde recém-inaugurado. Cristina afirma que, apesar das especificidades do território, os principais quadros observados não diferem dos grandes centros urbanos, com depressão e ansiedade na liderança.

Segundo ela, fatores ambientais, como secas severas e cheias intensas, impactam a saúde mental, mas não explicam sozinhos o sofrimento. “Muitos gatilhos estão ligados a conflitos familiares, mudanças de vida e até a presença do tráfico em algumas regiões”, afirma. Ela também relata situações recorrentes de luto, alcoolismo e violência doméstica.
A história de Maria Celeste Pereira Guiçoso, 68, reúne perdas sucessivas que se traduzem em sofrimento contínuo. Mãe de 15 filhos, ela perdeu três ao longo da vida, um ainda criança, outro já adulto, assassinado em 2020, e uma filha. Também ficou viúva.
Ela diz que as lembranças dessas mortes alimentam um estado de tristeza persistente, marcado por choro frequente. Além do luto, convive com a angústia provocada pelo alcoolismo de um dos filhos, hoje com 32 anos. O comportamento dele a mantém em estado de alerta e medo. “Eu fico toda me tremendo”, relata.
Casos de abuso sexual, muitas vezes naturalizados em certos contextos culturais, também são frequentes nas comunidades ribeirinhas, segundo Cristina. “É muito tênue a linha entre o abuso e situações que a comunidade encara como normais, como o casamento no início da adolescência. E isso aparece depois, na vida adulta, em forma de sofrimento psíquico”, diz.
A enfermeira Alessandra Fernandes, que integra a UBS fluvial, atua no planejamento familiar. Segundo ela, a orientação sobre métodos contraceptivos exige conversa paciente, enfrentando medos e resistências. “Tem umas que ainda têm receio, mas, conversando direitinho, elas aceitam. E os maridos também participam”, afirma.
Ainda assim, há um desafio persistente: a maternidade precoce e numerosa. “Não é incomum atender mulheres jovens com vários filhos, algumas ainda na adolescência. Paciente de 20 anos com quatro filhos já. Na cidade, a gente pega menina de 13 anos com um filho”, relata.
O acesso ao atendimento psicológico depende fortemente dos agentes comunitários de saúde, que funcionam como ponte entre moradores e profissionais. “São pessoas da própria comunidade, fundamentais para quebrar a resistência e mostrar que o cuidado em saúde mental é possível, mesmo que seja online”, diz Cristina.
Mas a limitação de profissionais gera filas de espera. “Hoje atendendo sozinha cerca de 25 pacientes ribeirinhos, entre sessões semanais, quinzenais e esporádicas”, ela relata dificuldades para dar conta da demanda crescente.
Para ela, a experiência demonstra tanto o potencial quanto os limites da telepsicologia. “É uma população que precisa ser vista. Quando tem acesso, se engaja muito. Mas ainda há muitas barreiras, principalmente quando o caso exige atendimento especializado.”
Na avaliação de Caroline, a vivência no território reforça uma visão ampliada de saúde mental, que vai além de diagnósticos e medicamentos. “Não dá para olhar só de forma biologista. Há fatores culturais, sociais, econômicos e políticos que atravessam essas pessoas.”
Um dos casos que mais a marcou foi o de uma mulher de pouco mais de 30 anos, mãe de 11 filhos, vivendo em condições precárias. Inicialmente, a equipe local esperava que a psicóloga a convencesse a fazer laqueadura.
Ao conversar com a paciente, Caroline identificou uma dinâmica mais complexa: o marido desejava mais filhos porque cada nova criança garantia aumento na renda familiar via benefícios sociais.
Em um contexto de insegurança alimentar agravada pela seca dos rios, os filhos se tornavam uma estratégia de sobrevivência. “É violento dizer simplesmente ‘você precisa fazer laqueadura’. Existe toda uma estrutura por trás dessa decisão”, afirma.
Para as duas profissionais, situações como essa evidenciam os limites de intervenções focadas apenas em sintomas. “Se você não enfrenta a causa, não adianta. Não é só medicar”, resume Caroline.




